Argentina não cansa de ser exemplo de ideias econômicas erradas

Além de enfrentar o terceiro ano de recessão, medidas para interferir no dólar tem feito alimentos básicos desapareceram dos supermercados; crise mostra o que acontece quando não se respeita leis básicas da economia

  • Por Samy Dana
  • 26/10/2020 19h11
DivulgaçãoAlberto Fernández é o atual presidente da Argentina

Algumas leis da economia parecem destinadas a precisar ser demonstradas, por mais que se saiba que algo não funcione, só para confirmar. E um lugar onde isso costuma ocorrer com frequência é a Argentina. Em pleno 2020, o governo argentino vem tomando medidas para intervir no dólar. Começou com um imposto, no fim do ano passado, e passou a um pacote de restrições em setembro tentando impedir a alta da moeda, usada como reserva contra a inflação por muitos argentinos. Entre outras medidas, ninguém pode ter mais de 200 dólares como reserva pessoal. E o uso de cartão de crédito para compras no exterior foi limitado até este valor mensal. Por exemplo, se alguém gasta mil dólares numa compra não pode gastar por outros quatro meses até completar a cota de mil ou 5 x 200 dólares. Para uma empresa importar algo valendo, por exemplo, um dólar, precisa exportar o mesmo dólar em produtos.

Resultado: por conta da restrição, começa a faltar comida e outros produtos básicos nos supermercados argentinos. No país, existe a cotação oficial e o dólar paralelo, chamado por lá de blue. Até aí tudo bem. Aqui temos o dólar comercial, das transações em cartão de crédito internacional, por exemplo, e o dólar turismo, esse vendido nas casas de câmbio, com um valor maior. A diferença é que aqui ambos flutuam livremente conforme oferta e demanda. Já na argentina a cotação oficial é controlada, mas o dólar paralelo, não. Enquanto o dólar oficial varia pouco, fica na faixa dos 80 pesos, até um pouco menos, o dólar blue disparou 50% em um mês, dando um curto-circuito no sistema de preços. Quanto custa um produto para os fabricantes? Depende. Se o insumo, como caixas, embalagens e ingredientes, for cotado no dólar oficial, custa um valor mais baixo. Mas se for cotado no paralelo, custa mais do que o dobro.

Com o país enfrentando o terceiro ano de recessão, combinada com a crise da Covid-19, não há espaço para subida de preços, já que a demanda desabou. Para os produtores, resta absorver o custo do dólar mais alto, produzindo menos para não ter muito prejuízo – o que está levando alimentos básicos a desaparecer dos supermercados. A situação só não está mais desesperadora porque alguns supermercados têm marcas próprias e conseguem diluir o dólar mais alto entre os custos. E mais uma vez a Argentina, infelizmente, confirma uma vocação de décadas de laboratório de más ideias econômicas, interpretações equivocadas de oferta e procura e reformas, quando há, pela metade. É uma pena, quem não gosta de Buenos Aires, do cinema, do tango e da literatura argentina? Mas a crise do dólar confirma o que acontece quando não se respeita leis básicas da economia.