Promessas de Gabriel Boric, presidente eleito no Chile, podem não avançar

Mesmo vitorioso, ex-líder estudantil precisará se esforçar para manter a responsabilidade fiscal e evitar uma fuga de capitais, além de controlar a inflação

  • Por Samy Dana
  • 21/12/2021 08h38
EFE/Elvis GonzálezGabriel Boric, ex-líder estudantil no Chile, foi eleito com quase 56% dos votos
Ninguém esperava que o novo presidente do Chile, o ex-líder estudantil Gabriel Boric, vencesse com uma margem tão alta. As pesquisas apontavam uma disputa equilibrada entre ele e o candidato da direita, Antônio Kast. Mas, abertas as urnas, o esquerdista obteve quase 56% dos votos, enquanto o adversário conseguiu pouco mais de 44%. A reação do mercado financeiro chileno foi um reflexo do resultado. A bolsa de Santiago chegou a cair 8%, enquanto o índice MSCI Chile, que acompanha as ações chilenas, encerrou o dia em queda de 10,7%. Um resultado apertado deixaria menos margem de manobra para o presidente eleito estatizar a previdência no país, sua grande promessa de campanha. Com a maior votação já recebida por um candidato presidencial, a percepção no mercado era de que ele ganhou força para aumentar a presença do Estado na economia. É claro que nessa hora os investidores deixam de lado as promessas de responsabilidade fiscal diante de um cenário de incerteza. Mas a margem de manobra do futuro presidente também não é grande. Esse ano, a economia do país, se recuperando dos efeitos da Covid-19, deve crescer 11% contra uma queda de 5,7% em 2020.

PIB Chile

  • 2021 +11%
  • 2022 +2,5%

Só que, no ano que vem, a alta do Produto Interno Bruto do Chile deve ficar entre 2% e 3%, segundo o governo. Além disso, a pobreza cresceu no país, chegando a 12% da população. O Congresso chileno estará dividido entre esquerda e direita, sem nenhum lado controlando a Câmara dos Deputados e o Senado. E a inflação, que perturba os chilenos como nos outros países, deve terminar o ano em 6%. Três vezes mais do que era antes da pandemia. Ou seja, mesmo vitorioso, o presidente precisará se esforçar para manter a responsabilidade fiscal e evitar uma fuga de capitais, além de controlar a inflação. As mexidas na previdência parecem inevitáveis, já que o modelo atual, que cria fundos individuais para os trabalhadores em vez de uma previdência pública pagando aposentadorias, como é aqui no Brasil, parece esgotado. Mas, como disse a revista britânica The Economist, a promessa do candidato Boric de enterrar o liberalismo econômico no país deve continuar como isso mesmo, uma promessa.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.