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Thiago Uberreich

João Goulart foi o primeiro presidente a receber em Brasília uma seleção campeã

Há 63 anos, o Brasil era tomado por festa pelo bicampeonato na Copa do Mundo

Thiago Uberreich

O presidente Jango recebe a seleção brasileira após o título mundial e, entre Nilton Santos e Djalma Santos, segura nas mãos a Jules Rimet
440 Reprodução/Memorial da Democracia

Depois da conquista do bicampeonato mundial de futebol, em 17 de junho de 1962, com a vitória sobre a Tchecoslováquia por 3 a 1, em Santiago, no Chile, a seleção voltou para casa e foi ovacionada pela torcida. Os brasileiros queriam ver os craques de perto: era o momento de esquecer os problemas do dia a dia e reverenciar os donos do melhor futebol do mundo. 

No Rio de Janeiro, o entusiasmo tomou conta das ruas, conforme detalhou O Cruzeiro: “A Av. Rio Branco ganhava bandeiras, corso e samba noite adentro. (…) A explosão de entusiasmo dos cariocas foi expressada por todos os meios. Até imensos balões verdes e amarelos surgiram, ninguém sabe como. E subiram”. O Carnaval de meses antes se repetiu na Cinelândia, na Avenida Rio Branco e no Largo da Carioca. Os torcedores cantavam: “Não tem arroz, não tem feijão, mas mesmo assim o Brasil é campeão./Não tem açúcar, já não tem sal/Mas mesmo assim o Brasil é o maioral”. Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro agora preparavam-se para recepcionar os campeões na segunda-feira, dia 18 de junho.

Pessoas saem às ruas de São Paulo para comemorar o segundo título mundial da Seleção Brasileira (Arquivo/Estadão Conteúdo)

Naquela manhã, a delegação brasileira deixou o Ritz Hotel, em Santiago, e seguiu em direção ao aeroporto Los Cerrillos. Uma multidão de torcedores queria dar adeus aos bicampeões mundiais, que levavam na bagagem a Jules Rimet. “Os habitantes desta cidade já se mostram tristes, pois tinham aprendido a gostar sinceramente dos simpáticos jogadores brasileiros. Em particular, os pequenos torcedores não se conformaram com a saída de seus amigos ‘brasileiros’, pedindo sempre que voltem um dia”, ressaltou a Última Hora

O DC-8, com o mesmo comandante Guilherme Bungner, que levou os brasileiros na Copa de 1958, partiu do solo chileno em direção a Brasília, primeira parada dos campeões. A capital, inaugurada em 1960, recebeu os atletas. A aeronave pousou por volta de 14h20, e o aeroporto já estava tomado por milhares de torcedores. Os soldados da aeronáutica, que ajudavam no reforço da segurança, não conseguiram conter a multidão e os cordões de isolamento foram rompidos.

O presidente João Goulart saiu da Granja do Torto de helicóptero rumo ao aeroporto. Na chegada, ele subiu as escadas do avião e ficou cerca de meia hora dentro da aeronave. Jango conversou com os campeões e tirou fotos com a Jules Rimet em mãos, ao lado de Mauro (capitão), Bellini e Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação nacional.

O presidente da República saiu da aeronave exibindo a taça mais cobiçada pelos futebolistas do planeta e os torcedores foram ao delírio. Enquanto João Goulart seguia para o Palácio da Alvorada de helicóptero, os jogadores rumaram de ônibus, para a frustração dos torcedores que estavam espalhados pelas ruas de Brasília e esperavam que os atletas desfilassem em carro aberto.

O Eixo Monumental foi tomado e cerca de 6.000 viaturas acompanharam o trajeto do aeroporto até o Alvorada, que demorou cerca de 40 minutos. Foi decretado ponto facultativo em todas as repartições e ministérios naquela segunda-feira. Em um dos carros alegóricos estava escrito em verde e amarelo: “Vavá, Didi, Garrincha, Pelé e JK-65“. No entanto, o golpe militar de abril de 1964 interrompeu os sonhos de Juscelino Kubitschek de concorrer novamente à Presidência da República.

Eram 16h35 quando Jango recepcionou os jogadores e a comissão técnica brasileira. Na biblioteca do Alvorada, Jango bebeu whisky na taça. O presidente discursou: “O governo brasileiro e todo o povo do Brasil recebem entusiasticamente a brava delegação que conquistou o Campeonato Mundial de 1962. Estou emocionado e acredito mesmo que todo o povo brasileiro, desde o mais humilde, vibre como eu nesse momento histórico para a vida de nossa pátria. Quando do embarque da delegação para o Chile, declarei aos correspondentes de nossa equipe que estava confiante na vitória e, conquistada essa vitória, eu me sinto honrado em voltar a abraçar os campeões do mundo.”

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Depois de Brasília, os campeões foram recebidos com festa no Rio de Janeiro e em São Paulo. Um dos mais aplaudidos era Garrincha, eleito o melhor da Copa. Ou como dizia a revista O Mundo Ilustrado: “Mané, o demônio da Copa”.

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