‘Bolsonaro está equivocado ao dizer que não há pressa para a vacina’, diz Doria

Governador afirmou que CoronaVac deve ficar pronta em janeiro: ‘Pessoas farão fila para tomar’; Doria também traçou cenário da eleição de 2022, e disse que SP ‘ganhou a guerra contra o PCC’

  • Por Jovem Pan
  • 27/10/2020 01h11 - Atualizado em 27/10/2020 01h14
ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDODoria também voltou a afirmar que "cometeu um equívoco" ao apoiar Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais

Em meio a embates com o governo federal sobre a obrigatoriedade da vacina contra a Covid-19, e a negativa do presidente Jair Bolsonaro em adquirir as doses da CoronaVac, o governador de São Paulo, João Doria, afirmou nesta segunda-feira, 26, que o presidente está com “uma visão equivocada” ao dizer que “não há pressa” para produzir o imunizante. Nesta manhã, Bolsonaro afirmou que não se deve “correr” para produzir a vacina contra o novo coronavírus e defendeu o tratamento com hidroxicloroquina, medicamento que não tem eficácia contra a doença. Em entrevista ao programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan, Doria lamentou a declaração. “São Paulo teria condições de vacinar todos os seus habitantes com a CoronaVac, mas queríamos que essa vacina fosse colocada à disposição de todos os brasileiros. Só em uma visão equivocada de Bolsonaro para estabelecer uma limitação ou dizer que não há pressa. Como não há pressa? Temos 500 mortes por dia e não há pressa? Não dá para vilipendiar comprovações científicas, mas estamos em uma corrida pela vida, é preciso ter coerência”, afirmou. Doria foi sabatinado pelo apresentador, Augusto Nunes, e pela seleta bancada composta pela jornalista, economista e apresentadora do Economia em Foco e do Jornal Jovem Pan, Denise Campos Toledo; jornalista e analista-chefe do portal JOTA em São Paulo, Fábio Zambeli; jornalista e diretor de redação da Revista ISTOÉ, Germano Oliveira; e pela economista e empresária, Renata Barreto.

Segundo o governador, a politização do assunto se fez “principalmente” através do presidente, por razões “ideológicas e partidárias”. “Gostaria que tivéssemos um momento de integração e união do País para combater o vírus e salvar vidas”, afirmou. O governador disse, ainda, que tem “certeza e convicção” de que será aprovada uma vacina, e que não é correto qualificá-la por sua origem, como tem sido feito por Bolsonaro com a CoronaVac, que foi produzida pela farmacêutica chinesa Sinovac. “Tanto faz se é chinesa, inglesa, portuguesa ou francesa, o importante é que ela seja eficaz. A vacina não é do Doria, é dos brasileiros”, disse. “É uma discriminação porque a vacina veio da china, como se a China não fosse capacitada de produzir vacinas. Não compreendo a discriminação do Bolsonaro com a China, vai parar de usar celular, ver televisão, tomar medicamentos, porque os laboratórios compram os seus insumos da China. Não há razão nenhuma para essa discriminação, a não ser ideológica”, acrescentou o governador.

No último dia 16, Doria afirmou que a imunização seria obrigatória em todo o Estado, quando aprovada pela Anvisa. No entanto, Bolsonaro retrucou, dizendo que, “no seu governo, isso não aconteceria”. Na última sexta-feira, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Fux, previu que será necessário o Judiciário decidir sobre a vacinação no País. De acordo com o governador, é correto que os estados e municípios possam deliberar sobre a questão, assim como foi acordado sobre as medidas de contenção da pandemia. Doria disse, porém, que a intenção é primeiro fazer uma campanha de conscientização. Além disso, afirmou que “a obrigatoriedade nem será necessária”, pois assim que o imunizante for aprovado pela Anvisa e pelo Instituto Butantan, “haverá filas de pessoas querendo tomar”. “Se Bolsonaro proibir [a CoronaVac] como fez na semana passada, quando desautorizou o seu ministro, vacinaremos os habitantes de SP e disponibilizaremos para um consórcio de governadores. Mas tenho a convicção que não será necessária a obrigatoriedade, porque a partir do momento em que tiver a vacina, as pessoas vão querer tomar”, complementou, dizendo que espera que o imunizante esteja disponível em janeiro.

PCC e eleições em 2022

Doria também voltou a afirmar que “cometeu um equívoco” ao apoiar Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais. “Eu acreditei nas propostas dele”, disse. O governador fez várias críticas ao governo, inclusive à política de saúde e educação, a qual julgou como “um desastre”, e a demissão do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, a quem agradeceu por ter ajudado na luta contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) no Estado. Sobre isso, o governador disse que São Paulo “está ganhando a guerra contra as organizações criminosas”. “Tenho uma gratidão por Moro, antes da nossa posse, da minha, da dele, e do Bolsonaro. Em 50 dias colocamos 22 líderes do PCC em prisões federais, inclusive o Marcola. Havia aqui quase uma síndrome de ‘não poder tocar em líderes do PCC'”. Ele lamentou, ainda, que o ministro do STF Marco Aurélio Mello tenha libertado o traficante do PCC André do Rap. “Cometeu um grande equívoco. André do Rap estava em uma prisão de segurança máxima e saiu pela porta da frente, entrou em uma BMW, é uma vergonha”, afirmou.

Doria desconversou ainda, sobre a possibilidade de se candidatar à presidência em 2022. O governador afirmou que o seu partido, o PSDB, terá “com certeza” uma candidatura em 2022 e que seria “muito bom” ter o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o apresentador Luciano Huck, ou Sergio Moro à frente. Quando questionado sobre ser ele o candidato, respondeu que a “campanha de 2022 é a campanha de 2022”. “Em São Paulo eu não discuto porque não serei, sou contra a reeleição. Gostaria que, em um momento oportuno, um governo sério avalie uma reforma política, para que possamos ter um único mandato de cinco anos para prefeitos, governadores e Presidente da República”, concluiu.