‘Não existe fórmula mágica, me tirar ou tirar Bolsonaro não vai melhorar a imagem externa do Brasil’, diz Ricardo Salles 

Segundo o ministro, ações como regularização fundiária e pagamento aos serviços ambientais precisam ‘encontrar eco lá fora’; ele criticou, ainda, a ‘militância’ contra o governo: ‘Não há desmonte ambiental’

  • Por Jovem Pan
  • 09/02/2021 00h29 - Atualizado em 09/02/2021 00h30
Youtube/Direto ao PontoMinistro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi o entrevista do Direto ao Ponto desta segunda-feira, 8

No comando de um dos ministérios mais cobrados e criticados, tanto nacionalmente quanto internacionalmente, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou nesta segunda-feira, 8, em entrevista ao programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan, que “não há fórmula mágica” para resolver as questões ambientais brasileiras, principalmente no que tange à imagem externa do País. Uma das polêmicas mais recentes ocorreu nos últimos dias, quando uma uma carta enviada pela Human Rights Watch aos embaixadores da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) levou o comitê de política ambiental do órgão a cancelar a discussão sobre a entrada do Brasil no grupo, que seria realizada no dia 9 de fevereiro. “Não tem fórmula mágica. Talvez alguns pensem ‘tira o Salles, tira o Bolsonaro e está resolvido’, mas precisamos divulgar as boas práticas”, ressaltou o ministro, citando, por exemplo, a regularização fundiária e o pagamento pelos serviços ambientais. “Essas ações precisam encontrar eco nos países lá fora, aqui dentro dos nossos foros… São ações que vão se somando, não existe uma bala de prata, faz isso, acabou o problema”, continuou. O líder do Endireita Brasil foi sabatinado pelo apresentador Augusto Nunes, por José Maria Trindadecorrespondente da Jovem Pan em Brasília e comentarista do programa “Os Pingos Nos Is”Ana Carolina Amaral, repórter de meio ambiente da “Folha de S. Paulo” e autora do blog Ambiência, Sucena Resk, editora do blog Cidadãos do Mundo e Vozes dos Biomas, e Kellen Severo, jornalista especializada em agronegócio.

O pedido de entrada do Brasil na OCDE foi oficializado em maio de 2017 e se tornou um dos principais objetivos de Bolsonaro ao assumir a presidência. Segundo Salles, o governo “tem feito a lição de casa”, enquanto o Partido dos Trabalhadores (PT) passou anos “esnobando a organização”. Para ele, há um componente político nesse bloqueio do Brasil para integrar a OCDE, liderado pela França e endossado por Organizações não Governamentais (ONGS) que são contra o governo. “A carta é de uma ONG que vem contestando o governo desde sempre. Não há isenção no que foi apresentado. Se o desmatamento vem aumentando desde 2012, ainda no governo do PT, não há condições para ascender na OCDE desde 2012. Mas não é só isso, tem algo contra o governo de Jair Bolsonaro na [postura da] ONG que escreveu a carta. Mas há também uma questão interna europeia. O agronegócio tem muita força na política francesa. Macron [presidente da França] tem sofrido pressões do agronegócio do país, que tem receio da competitividade e boas práticas brasileiras. Há uma pressão muito grande para inibir o Brasil”, explicou o ministro.

Salles citou como ações necessárias para o avanço da política ambiental a maior efetividade na correção de problemas antigos da Amazônia, pagamento pelos serviços ambientais, regularização fundiária, zoneamento econômico ecológico na Amazônia, investimentos na bioeconomia, entre outras. “Entendemos que as ações concretas são mais importantes. Temos uma necessidade de investir mais, e o setor privado é um caminho”, disse. O chefe da pasta afirmou, no entanto, que o Brasil tem uma nota “quase 10” no quesito preservação ambiental. Para exemplificar, trouxe dados como 66% de vegetação nativa preservada e 85% de matriz energética limpa. “Os que nos apontam o dedo têm a energia suja, acabaram com as suas florestas, emitiram todos os gases efeito estufa que estão na atmosfera há 200 anos e o Brasil virou um vilão porque aqui você tem um governo de direita. Essa turma de esquerda se concertou pra falar mal do Brasil. Tem problemas para arrumar sim, mas isso não faz de nós os vilões do meio ambiente no planeta”, criticou.

Ibama e ‘passar a boiada’

O ministro, entre outras polêmicas, é acusado de interferir no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para reduzir a autonomia do órgão e foi gravado, durante reunião ministerial, sugerindo “passar uma boiada” de mudanças nas regras ambientais enquanto as atenções estão voltadas à Covid-19. Durante o Direto ao Ponto, Salles negou que o Ibama ou o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) serão extintos, mas admitiu a possibilidade de haver uma fusão entre os dois órgãos. O grupo de trabalho para discutir a junção foi criado em outubro por ele e é formado por dirigentes dos dois órgãos — seis policiais militares e um civil, o presidente do Ibama, Eduardo Bim. Após críticas de instituições ambientais, o Ministério Público Federal (MPF) passou a investigar a fusão, alegando falta de debate público necessário para a discussão do assunto. “Estamos vendo a melhor forma para esses órgãos trabalharem melhor. Estamos desde o início de 2019 tentando tomar medidas para dar maior eficiência aos gastos públicos do próprio ministério, do Ibama, do ICMBio. Quando recebemos o ICMBio, era um órgão sucateado. O grupo de trabalho está formado para discutir uma eventual fusão entre o Ibama e o ICMBio, não está prevista uma extinção de nenhum desses órgãos”, esclareceu Salles.

Sobre a frase proferida durante reunião ministerial de 22 abril de 2020, em que sugeriu “passar a boiada”, o ministro explicou que disse isso no sentido de que o Brasil “precisa ser desburocratizado”. “É o país da burocracia, das regras irracionais, contraditórias, que tolhem o desenvolvimento e que não trabalham do ponto de vista da eficiência”, afirmou. Além disso, criticou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello, que autorizou a divulgação do encontro. “Era uma reunião de ministros, um assunto interno, tirado do contexto. Porém, tenho tranquilidade com a minha frase e de dizer que é meu direto à liberdade de expressão e que minha frase espelha que a burocracia é ruim para o meio ambiente, para a geração de renda, para a melhoria da qualidade de vida dos brasileiros. É preciso um grande esforço para desburocratizar o Brasil”, defendeu.

Além dessa situação, que rendeu um pedido de impeachment do ministro, a pasta é alvo de diversas ações no Judiciário. Para Salles, isso é fruto de uma “militância disfarçada de informação”. De acordo com ele, a “imprensa está aparelhada com os partidos de esquerda, com o objetivo de derrubar o governo Bolsonaro”. “Todas essas ações que vem sendo ajuizadas contra essas medidas estão perdendo, porque as medidas todas têm fundamento, são técnicas. Não tem essa história de desmonte ambiental, não se provou nada, ganhamos todas as ações, porque é tudo balela, militância disfarçada de informação”, disse. Ele afirmou, ainda, que mesmo com a saída de Donald Trump e a entrada de Joe Biden na presidência dos Estados Unidos, o Brasil está aberto para cooperar com o país. No ano passado, durante os debates da corrida presidencial, Biden irritou o governo ao criticar a política ambiental, dizendo que daria “US$ 20 bilhões” se o Brasil “parasse de destruir a floresta”. “Estamos abertos para cooperar com os EUA. Nós queremos avançar no Acordo de Paris, no mercado de carbono, fazer parcerias… O presidente dos EUA sugeriu o aporte de US$ 20 bilhões, será muito bem vindo”, destacou Salles.

Confira o programa “Direto ao Ponto” desta segunda-feira, 8, na íntegra: