Van Hattem: ‘Lula tem muito menos apelo do que antes; o que me preocupa são erros de Bolsonaro’

Segundo o deputado, partido Novo vai trabalhar para reverter decisão que anulou condenações do petista; Van Hattem aposta em Bernardinho como terceira via para eleições presidenciais em 2022 

  • Por Jovem Pan
  • 08/03/2021 23h56 - Atualizado em 09/03/2021 00h20
Luis Macedo/Câmara dos DeputadosDeputado federal Marcel Van Hattem (Novo-RS) foi o entrevista do Direto ao Ponto

O deputado federal Marcel Van Hattem (Novo-RS) recebeu com “muita indignação, tristeza e preocupação pelo futuro” a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de anular todas as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva relacionadas às investigações da Operação Lava Jato. Segundo ele, há um recado para a sociedade brasileira de que “o crime pode compensar”, já que o petista foi julgado em mais de uma instância pelos crimes que é acusado de ter cometido. “A esperança é que o plenário do STF possa recorrer, apesar de não haver muita esperança hoje no STF, mas há possibilidade de recurso, ou que o Lula seja condenado em outros processos. Um revés muito importante para o fim do combate à corrupção”, afirmou o parlamentar em entrevista ao programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan, nesta segunda-feira, 8. De acordo com ele, o Novo vai trabalhar para reverter a decisão. Van Hattem foi sabatinado pelo apresentador Augusto Nunes, por Fabio Zanini, editor de Poder da “Folha de S.Paulo”, Silvio Navarro, editor da “Revista Oeste”, Patrícia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta, e Vitor Brown, apresentador do programa “Os Pingos nos Is”.

Ao ser questionado sobre o tamanho da figura de Lula, o deputado afirmou que o petista tem “muito menos apelo” do que tinha no passado, principalmente porque “a pecha de ladrão pegou”. “O que me preocupa são os erros de Bolsonaro”, disse. “Entrou com uma pauta de reformas e combate à corrupção, e está cada vez mais distante daquilo que esperávamos que fosse lá atrás. É verdade que, no passado, já tinha votado como deputado federal contra muitas coisas que depois defendeu na campanha, uma série de votos que apareceram no período eleitoral e ele disse ‘eu mudei’. Mas o que temos visto, o combate à corrupção (…) lamentavelmente, está deixando muito a desejar neste ponto. E quanto às reformas, que deveriam estar sendo discutidas no Parlamento, acabaram estagnando”, afirmou Van Hattem, citando algumas ações do presidente, como a sanção ao juiz de garantias no pacote anticrime, e as nomeações de Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República (PGR) e de Kássio Nunes Marques para o STF. “Um que tem deixado claro que está disposto a enterrar a Lava Jato, e outro abençoado pelo Centrão e pelo PT.”

Ao considerar essa polarização entre Bolsonaro e Lula na próxima corrida eleitoral, Van Hattem propôs o próprio partido Novo como uma terceira via, para apresentar uma opção diferente das outras duas. Ele evitou cravar nomes, mas afirmou que tem falado trabalhado internamente e falado externamente no ex-técnico da seleção brasileira de vôlei Bernardo Rezende, o Bernardinho. “Ele tem conseguido unir o partido nos momentos fáceis e difíceis. É uma visão de longo prazo, mas seria ideal para quebrar essa polarização no Brasil e ser o novo presidente”, disse. “Antes dessa polarização existir, existia uma hegemonia do pensamento de esquerda e da vocalização disso, nas instituições, na política, na academia, na mídia e assim por diante. Aos poucos, os pensamentos de direita e liberal começaram a surgir, e acabaram se tornando a polarização com o pensamento da esquerda. Mas vejo a polarização como um passo para a pluralização do debate”, explicou.

STF como ameaça à democracia 

Na visão de Van Hattem, a ameaça à democracia sempre parte de quem tem mais poder. Para ele, atualmente, no Brasil, é o Supremo Tribunal Federal (STF). Além da decisão monocrática de anular as condenações do ex-presidente Lula, ele citou o caso do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), preso em flagrante a pedido do ministro Alexandre de Moraes após publicar um vídeo atacando os integrantes da Corte e defendendo a ditadura militar. Na votação feita na Câmara dos Deputados, que decidiu pela manutenção da prisão de Silveira, o Novo se posicionou contra. De acordo com Van Hattem, apesar de discordar das palavras do deputado, consideradas “execráveis”, não caberia ao Supremo decidir isso.

“Independente do que ele disse, não há previsão constitucional para sua prisão, que foi arbitrária e inconstitucional”, argumentou. Ele defendeu, ainda, a imunidade parlamentar, explicando que, muito mais do que uma proteção ao político, é uma segurança ao eleitor, que espera ser representado por aquele parlamentar. “É para proteger meu eleitor, que espera que eu não seja perseguido politicamente pelo que eu diga. Se ele não gostou, na próxima não vota em mim, mas acabar com isso, como o STF está pedindo, não só nessa prisão arbitrária e inconstitucional, mas nos inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos… Completamente um arrepio do estado democrático de direito, são muito preocupantes e avançam nas liberdades individuais e políticas do cidadão”, afirmou o deputado.

Embora não seja um crítico notório de Jair Bolsonaro — como por exemplo seu colega de partido João Amoêdo —, Van Hattem se afastou do governo federal por acreditar que a agenda liberal foi deixada para trás. Durante a entrevista, o deputado criticou outras posturas do presidente, como declarações polêmicas, e divergências políticas desnecessárias, como a briga com o governador de São Paulo, João Doria. “Essas frases como ‘chega de mimimi’ geram uma revolta até em quem votou nele [Bolsonaro]. Meu apelo ao presidente e demais autoridades é tentar deixar as divergências de lado, essa briga entre Doria e Bolsonaro, lavação de roupa suja… Nem um pouco necessária, e as pessoas em vez de se unirem acabam alimentando o conflito interno que não faz bem para o Brasil”, avaliou.

Assista ao programa na íntegra: