Aos 90 anos, FHC pede mais diálogo e diz ainda ver espaço para terceira via

Ex-presidente demonstrou preocupação com o que considera uma tendência da política atual, não só do Brasil, de tratar o opositor como um inimigo

  • Por Jovem Pan
  • 18/06/2021 11h22 - Atualizado em 18/06/2021 16h30
Fundação FHC/DivulgaçãoFernando Henrique Cardoso defendeu que os políticos conversem mais com seus opositores e que assumam os seus erros

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chega aos 90 anos animado com a política. “Eu vivi fora da democracia e na democracia é muito melhor para você ter possibilidade de lutar, não ter medo. Eu acho que nós estamos vivendo uma posição na qual há muita coisa nova acontecendo no mundo, há muita disposição jovem que tem que ser aproveitada, que tem que ser usada”, afirma o político. Em décadas de vida pública, o ex-presidente da República viveu as agruras do regime militar e da hiperinflação, combatida com sucesso pelo Plano Real, idealizado por ele, ainda no governo Itamar Franco. O sucesso da empreitada o levou ao Planalto, onde ficou por oito anos, não sem crises. Uma das mais importantes, 20 atrás, quase deixou o Brasil no escuro. O receio de um racionamento assombra o país de novo agora. Para FHC, o gestor de hoje precisa saber reconhecer os próprios erros. “É uma coisa importante. Para você poder avançar, você tem que dizer que fez besteira na vida. A gente não faz sempre coisa certa. O melhor é reconhecer que errou, tentar melhorar”, diz FHC.

Para o presidente do PSDB, Bruno Araújo, o governo Fernando Henrique Cardoso foi pioneiro ao aliar programas sociais a um plano de modernização do Estado. “Um estadista de formação, um exemplo para quem tem a compreensão de respeitar a liturgia da presidência da República, compreender a importância do cargo e como ele é fundamental pra melhorar a qualidade de vida das pessoas”, aponta Araújo. O ex-deputado federal Luiz Carlos Hauly foi líder do Governo FHC no Congresso e ressalta o legado do ex-presidente para a estabilidade econômica do país. “Tivemos que estruturar todas as dívidas dos Estados, dos municípios, a dívida dos produtores rurais, a dívida das empresas, porque foram mais de 50 anos de inflação, que destruiu muitas moedas do nosso país. Fernando Henrique e sua esposa, dona Ruth, pregaram no governo o equilíbrio. Um governante centrado, com composição ao centro, à centro-direita e à centro esquerda”, relembra Hauly. O presidente do diretório do PSDB paulista, Marco Vinholi, diz que é FHC é um estadista e um orgulho para o partido. “O presidente que pôde trazer para o Brasil de novo a credibilidade mundial. Dentro disso, nós podemos destacar a Lei de Responsabilidade Fiscal, que colocou o poder público e os seus agentes em uma outra realidade do que era antes no Brasil”, afirma Vinholi. Em uma série de debates para celebrar os 90 anos do líder histórico do partido, FHC alertou para o que chamou de “ímpetos autoritários”. “Eu vejo menos eco na vida política. É preciso que haja mais eco na vida política. O chefe de instituições parlamentares tem a obrigação de se manifestar contra essas tentativas que são antidemocráticas. E, se nós não cuidarmos disso, estamos perdidos.”

Em declarações e aparições nas últimas semanas, inclusive junto ao ex-presidente Lula, adversário histórico dos tucanos, FHC demonstrou preocupação com o que considera uma tendência da política atual, não só do Brasil, de tratar o opositor como um inimigo. O fenômeno já não tão recente da polarização assusta o político veterano. “Eu converso com o Lula há 20 anos ou mais, desde que ele era líder sindical. Mas não é só com o Lula não. Eu converso porque eu acho importante conversar. Eu não me limito porque alguém critica ou se vai ser interpretado de determinada maneira. Não tem que interpretar nada. É um fato da vida. Você tem que ter conversa. Eu fui por muitos anos um parlamentar. Você pensa que no parlamento os adversários não falam? Falam. Tem que conversar para saber onde o outro está”, defendeu. Fernando Henrique Cardoso ainda vê espaço, porém, para uma terceira via. “Tem várias pessoas que eu gostaria de ver jogadas em uma luta pela terceira via. Pode ser que alguns tenham chance. Mas quem tem o governo na mão de São Paulo e do Rio Grande do Sul, tem mais chance. Quem é que vai encarnar a terceira via? Eu estou fora do jogo, porque eu estou velho. Bom, mas eu vou aplaudir quem encarnar”, concluiu. Em homenagem aos 90 anos de Fernando Henrique Cardoso, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, da qual ele é um dos principais incentivadores, apresenta hoje uma composição inédita do maestro João Guilherme Ripper inspirada na vida e na obra do ex-presidente.

*Com informações da repórter Caterina Achutti