Após críticas de Aras, ex-procurador faz alerta: Meu temor é o esquecimento da Lava Jato

Para Carlos Fernando, o procurador-geral da República tem saudades da impunidade

  • Por Jovem Pan
  • 30/07/2020 10h00 - Atualizado em 30/07/2020 10h01
KEVIN DAVID/A7 PRESS/ESTADÃO CONTEÚDODe acordo com o advogado e ex-procurador, a acusação de Augusto Aras sobre a Lava Jato ter dados de 38 mil pessoas é leviana

O advogado e e ex-procurador da República que integrou a Operação Lava Jato, Carlos Fernando dos Santos, avalia que a força-tarefa está passando por um grande processo de desconstrução desde a eleição de Jair Bolsonaro. De acordo com ele, o procurador-geral de República, Augusto Aras, é apenas uma dessas ofensivas. “Aras não é contra a Lava Jato, mas contra o Ministério Público da Constituição. O que ele está tentando fazer é acabar com a independência funcional dos procuradores. Na minha opinião houve uma reação muito grande de todos os agentes ligados a classes políticas para que uma nova Lava Jato não acontecesse.”

Em entrevista ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan, o ex-procurador relatou que estamos no meio de um processo de reação ao qual o objetivo é “deixar claro para os membros do MP e Judiciário que a política não se submete a leis, ao Direito ou à Justiça” e aqueles que o tentam fazer serão processados administrativamente. Ele citou, por exemplo, pré-candidato à Presidência da Câmara “andando livremente e sorrindo” enquanto Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato, é ameaçado de expulsão compulsória.

O ex-procurador classificou que a maior consequência de tudo isso é o engavetamento da força-tarefa. “Infelizmente estamos vivendo um momento de completa inversão de valores e relativismo moral muito grande. As pessoas estão confusas por tudo o que está acontecendo. Não se vê mais aquele espírito das manifestações nas ruas. Meu temor, e a esperança deles, é o esquecimento da Lava Jato. Como se Dallagnol e Sergio Moro fossem o grande problema”, finalizou.

Para Carlos Fernando, o PGR tem saudades da impunidade. “Aras desmontou a Lava Jato de Brasília. Infelizmente o bom e velho método de combate à corrupção está funcionando na capital federal”, disse. “Antes da Lava Jato e do Mensalão nós não tínhamos nenhum tipo de sucesso em processar criminosos de colarinho branco, empresários e políticos. Os sucessos eram eventuais e não serviam para nada além de justificar a regra da impunidade. “Me parece que Augusto Aras deseja voltar para a boa e velha política de suspensão de investigação, que é o que o presidente o STF, Dias Toffoli já vem fazendo há um tempo.”

De acordo com o advogado e ex-procurador, a acusação de Augusto Aras sobre a Lava Jato ter dados de 38 mil pessoas é leviana. “Ele mesmo deixou claro que não existe uma acusação concreta. O que ele faz é uma série de suposições levianas. Esses 38 mil nomes, segundo a própria Lava Jato, se refere a informações fornecidas pelo Coaf. Não se trata nem de dossiê e nem de investigação. Isso é material investigativo que poderia, ou deveria, durar anos”, avaliou.

Carlos Fernando dos Santos também criticou a atuação do presidente do Supremo, Dias Toffoli, que propôs uma “quarentena” de oito anos para que ex-juizes possam disputar eleições — o que barraria uma tentativa de Sergio Moro se candidatar em 2022. “Admitir a hipótese de uma lei retroativa para atingir Moro seria absurdo. Podemos esperar qualquer coisa do presidente do STF. Temos uma discussão válida, mas muito mal colocada. Isso deveria ser discutido de forma ampla. Por que não discutir isso de ex-PGRs e AGU para ministros do Supremo e Tribunais Superiores? Se um ex-juiz quer se submeter às urnas, a população que vai decidir. Se um PGR quer um cargo, é só agradar o presidente e a cúpula do Congresso.”