Mudanças climáticas: Como os novos vírus ameaçam o futuro da humanidade

Relatório aponta que metade da população mundial vai estar exposta à dengue, febre amarela e ao zika vírus até 2050; especialistas explicam a relação dos impactos ambientais com o surgimento de novas pandemias

  • Por Jovem Pan
  • 22/07/2021 09h49
ANDERSON COELHO/ISHOOT/ESTADÃO CONTEÚDO

Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu que o coronavírus se espalhou pelo mundo, declarando, oficialmente, a pandemia de Covid-19. Em poucos dias, o cenário das grandes cidades mudou: as ruas, antes agitadas, esvaziaram. Países fecharam as fronteiras e o mundo parou. A humanidade, mesmo sem entender ainda a dimensão do que teria pela frente, se viu obrigada a alterar a rotina e a incorporar novos hábitos, ou, como chamamos agora, a adotar protocolos de segurança sanitária. No entanto, o surgimento de pandemias já eram esperadas por autoridades e cientistas em razão do estilo de vida contemporâneo. A destruição de habitats naturais trouxe para os centros urbanos toda uma cadeia dos ecossistemas invadidos, o que inclui animais, fungos, bactérias, vírus e muitas espécies sobre as quais a ciência ainda não sabe qual o resultado da interação com os humanos. O desconhecido, aliado à pobreza e à má alimentação forma um coquetel explosivo, avalia Ethel Maciel, epidemiologista e consultora da OMS.

“A possibilidade de nós termos saltos de espécie de vírus e bactérias aumenta muito. É como se esse relatório dissesse ‘nós estamos no meio de uma pandemia, mas a próxima já está sendo criada’. Condições para que ela aconteça já estão sendo criadas. Além disso, já aprendemos que pessoas que têm deficiências nutricionais vão estar mais suscetíveis a desenvolver uma doença mais grave, se forem infectadas”, afirma. O aquecimento do planeta favorece a expansão das populações de vetores de vários tipos de doença, como os mosquitos. De acordo com o relatório do Painel Intergovernamental sobre mudanças climáticas, metade da população mundial vai estar exposta à dengue, febre amarela e ao zika vírus até 2050. Mas o que realmente preocupa as autoridades e pesquisadores do planeta inteiro é a alta probabilidade de que apareça um novo mal tão desconhecido e perigoso como a Covid-19. A preservação dos ecossistemas é o único meio de impedir o descontrole, explica o ambientalista Carlos Bocuhy. “O desequilíbrio climático provoca que novos vetores possam ter contato com as pessoas e isso é muito preocupante, é preciso que a gente mantenha esse equilíbrio no sentido de que não haja esse risco desnecessário para a sociedade”, pontua.

O desmatamento também aumenta a incidência de doenças associadas a má qualidade do ar. Sem esse aspirador natural, mais gases são liberados na atmosfera, sendo um ataque letal à camada de ozônio. Números do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente mostram que a cada 1% de destruição da Camada de Ozônio, aproximadamente, 50 mil novos casos de câncer de pele e 100 mil novos casos de cegueira, provocados por catarata, surgem no mundo. Ethel Maciel, explica como a série de desequilíbrios diminui nossa imunidade. “Vai diminuindo a imunidade e tornando com que o nosso próprio organismo fique suscetível a outras doenças. Mesmo que a gente tenha doenças causadas diretamente pela poluição do ar, vamos ter também doenças oportunistas, que podem surgir porque o nosso sistema imunológico está mais enfraquecido”, esclarece. A fragilidade dos sistemas de saúde diante da pandemia é um exemplo da dimensão de nossas vulnerabilidades. Baseado no que se viu até agora, o relatório leva para as autoridades o desafio de buscar entender no que pode dar tanta desordem no meio ambiente. “As mudanças climáticas irão provocar fissuras por um período muito mais longo que ainda estamos tentando compreender”, diz o documento.

*Com informações da repórter Lívia Fernanda