Pesquisa mostra que 6 em cada 10 mulheres já tiveram gravidez indesejada

Número representa um aumento na comparação com o estudo anterior, que apresentou uma taxa de 55%; média brasileira é bem maior do que a mundial

  • Por Jovem Pan
  • 25/12/2021 08h51 - Atualizado em 25/12/2021 10h02
Pixabay Mulher grávida coloca a mão na barriga Ginecologista atribui o número à falta de informação sobre métodos contraceptivos

Uma pesquisa feita com mil mulheres aponta que pelo menos 62% das entrevistas já tiveram uma gravidez indesejada. Ana Lúcia tem 44 anos e teve duas gestações depois dos 40. Ela conta que aos 30 os médicos diagnosticaram uma endometriose séria e disseram que, por isso, ela dificilmente engravidaria. Ana diz que então nem pensava em se proteger e brinca que acabou agindo como uma adolescente, quando, em 2017 reencontrou o atual marido e logo, em seguida, veio a surpresa: Estava grávida, aos 40 anos, do primeiro filho.

Ana Lúcia fala que a gestação foi fácil, mas que o pós parto foi mais difícil. “Na época, eu nem me protegia, porque eu falava: ‘Não, está super tarde, não vou ter filho, a endometriose atrapalha’. Foi uma coisa meio adolescente. A gente saiu e acabamos grávidos. Não foi fácil, mas o pós foi muito difícil. Eu tive depressão pós-parto, foi bem pesado. Então eu queria ter mais uma criança, ele também, mas a gente tinha muito receio da minha gravidez e de como seria o pós. Ficamos meio ‘vamos ou não vamos’ e já estava decidido que não iríamos mais ter filhos”, conta Ana Lúcia. Mas, na pandemia ela começou a repensar o assunto. “Um dia eu falei assim: ‘Vamos fazer uma última tentativa, porque senão eu vou ficar muito velha. E, na primeira tentativa, já fiquei grávida. Eu tive meu primeiro filho um mês antes de completar 40 anos e, agora, com o segundo ou segunda, eu vou estar com 45”, explica.

A médica ginecologista Thais Ushikusa diz que o caso da Ana Lúcia é raro, porque quanto mais velha, mais difícil de engravidar e a mulher costuma ser mais fértil na faixa etária dos 20 anos. No entanto, ela ressalta que a possibilidade de engravidar só está descartada quando a mulher entra na menopausa. “Quando chega nos 40 anos, têm muitas dessas mulheres pensando: ‘Ah, agora que eu passei dos 40 anos, eu não engravido mais’. E nisso elas acabam abandonando o método contraceptivo. Elas param porque tomaram por muitos anos, o que reduz um pouco a chance de engravidar, mas ela existe. Uma gravidez depois dos 40, principalmente se você tiver alguma comorbidade, é uma gravidez de mais risco. Você precisa de um cuidado ainda maior”, aponta a médica.

No caso da Ana Lúcia, apesar de não planejada, a gravidez não foi um grande problema quando o assunto é planejamento familiar, ao contrário do que acontece com muitas jovens que engravidam cedo, quando ainda não têm uma vida estruturada. Uma pesquisa da Bayer, em parceria com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia e o IPEC, apontou 62% das mulheres entrevistadas já tiveram pelo menos uma gravidez não planejada. O número representa um aumento na comparação com o estudo anterior, que apresentou uma taxa de 55%. A média brasileira é bem maior do que a mundial, que é de 40%. A pesquisa aponta ainda que 48% das mulheres que tiveram alguma gravidez não planejada engravidaram pela primeira vez entre os 19 e 25 anos de idade.

A ginecologista Thais Ushikusa diz que o Brasil está na contramão dos outros países e que a principal explicação é a falta de informação. “A respeito de métodos contraceptivos e do impacto que uma gestação pode ter na vida dessa mulher, a gente pode ver nessa pesquisa que dessas mulheres que não tiveram a gestação planejada, 46% usavam algum método contraceptivo. Então a gente pensa que mais da método não usava nenhum método. Se elas não queriam engravidar, por que elas não usavam? Tem um pouco de falta de acesso, mas eu acho que mais do que isso, é falta de informação”, afirma Thais.

A especialista destaca também que grande parte das mulheres não foram ao ginecologista quando iniciaram a vida sexual. “Não indo ao ginecologista, provavelmente elas não usaram nenhum método contraceptivo ou um método não tão eficaz, como tabelinha e coito interrompido. Falta, realmente, a gente conscientizar do problema que tem e fazer com que elas obtenham a informação para escolher o método mais eficaz ou mais adequado para a fase de vida daquela mulher”, diz. Thais destaca ainda que há pouco conhecimento a respeito dos métodos contraceptivos de longa duração, que são os DIUs e os implantes. Apesar de ainda não serem os mais utilizados, 94% das mulheres entrevistadas concordam que os métodos de longa ação trazem mais liberdade e autonomia.

*Com informações da repórter Camila Yunes