Politização da vacina contra Covid-19 causa desconforto em governadores

Autoridades ameaçam recorrer à Justiça para ter acesso as vacinas validadas pela comunidade científica

  • Por Jovem Pan
  • 22/10/2020 05h40 - Atualizado em 22/10/2020 09h04
MATEUS BONOMI/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDOFlávio Dino afirmou que Bolsonaro agora quer fazer a guerra das vacinas, só pensando em palanque e em guerra

Governadores se manifestam sobre o cancelamento anunciado pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, da compra da vacina contra a Covid-19 desenvolvida pelo Instituto Butantan em conjunto com um laboratório chinês. Muitos deles se dizem perplexos com a decisão e falam até em buscar a Justiça. Pressionado por Bolsonaro, o Ministério da Saúde voltou  atrás e negou acordo com o governo de São Paulo. Porém a pasta reafirmou que há um protocolo de intenções. A declaração do presidente ocorreu um dia após o ministro Eduardo Pazuello anunciar a aquisição de 46 milhões de doses da Coronavac, vacina contra o coronavírus produzida pelo laboratório Sinovac em parceria com o Butantan, e sua inclusão no Programa Nacional de Imunizações. O líder da nação postou nas redes sociais que qualquer vacina, antes de ser disponibilizada à população, deverá ser comprovada cientificamente pelo Ministério da Saúde e certificada pela Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Ele acresceu que o povo brasileiro “não será cobaia de ninguém” e declarou que o Brasil não irá comprar doses do possível composto chinês, contrariando a posição do ministro Pazuello.

Após as declarações, a resposta de governadores foi imediata pedindo equilíbrio e racionalidade ao presidente. Flávio Dino, governador do Maranhão, apontou no Twitter que Bolsonaro agora quer fazer a guerra das vacinas, só pensando em palanque e em guerra. Ele sugeriu que o presidente jogue War ou videogame com o americano Donald  Trump, pois enquanto estivesse entretido “não atrapalharia os que querem tratar com seriedade os problemas da população”. Em outra publicação, o governador também defendeu o Butantan. “Instituto Butantan não pertence ao governo chinês. É um patrimônio do povo brasileiro, fundado há mais de 100 anos, e merece respeito. É um grande fornecedor de vacinas ao Min. da Saúde. Qual a autoridade de Bolsonaro para tentar desmoralizar uma instituição e seus cientistas ?”, questionou.

Renato Casagrande, governador do Espírito Santo, recebeu com surpresa o recuo do governo federal. “É bom que a gente compreenda que é preciso salvar vidas, é precisar salvar os brasileiros do coronavírus e a gente tem que estar juntos nesse trabalho. Questões ideológicas, questões eleitorais devem ser deixadas de lado para que a gente possa caminhar na direção de salvar cada vez mais brasileiros do coronavírus, disse. Já o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, enfatizou que a análise tem que ser técnica e não política. “O que deve ser observado é a condição de segurança, a viabilidade técnica e também a agilidade para disponibilizar essa vacina para imunizar a população. Ou seja, sem análises políticas. O importante é que seja tecnicamente decidido e viabilizado para a população o que ela precisa, que é uma vacina segura o mais rápido possível.”

Rui Costa, governador da Bahia, também se manifestou destacando que Eduardo Pazuello tomou uma medida sensata ao garantir acesso a vacina de qualquer país para salvar vidas. O baiano prestou solidariedade ao ministro, acrescentou que a Covid-19 já matou mais de 150 mil pessoas no Brasil e que o presidente da República não pode desmoralizá-lo e desautorizá-lo. O governador do Piauí, Wellington Dias, acentuou que o compromisso assumido em reunião com governadores com o Ministério da Saúde foi de se comprar a vacina produzida no Brasil da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), desenvolvida pela Universidade de Oxford, e do Instituto Butantan, que tem parceria com o laboratório chinês. Dias lembrou ainda que a saúde do povo tem que estar em primeiro lugar.

João Azevêdo, governador da Paraíba, indicou que o gesto de  Jair Bolsonaro. “É para deixar todo mundo perplexo” e lembrou que a vacina não é de direita ou de esquerda, o que interessa é que tenha eficácia. Camilo Santana, governador do Ceará, expressou seu sentimento dizendo que não se pode jamais colocar posições ideológicas acima da preservação de vidas. Agora, após as declarações do presidente, os governadores ameaçam até recorrer à Justiça para ter acesso as vacinas validadas pela comunidade científica.

*Com informações do repórter Daniel Lian