UE eleva tom contra AstraZeneca e disputa com Reino Unido por vacina fica evidente

Laboratório só deve produzir 25% do prometido para a bloco até março; enquanto isso, segue em curso para cumprir meta combinada com britânicos

  • Por Ulisses Neto/Jovem Pan
  • 28/01/2021 07h52
Amit Dave/Reuters Todo este imbróglio ressalta a importância de ter a capacidade de produzir a vacina contra a Covid-19 no próprio país

A União Europeia elevou o tom contra a AstraZeneca e uma disputa com o Reino Unido está ficando cada vez mais evidente. O bloco ainda não conseguiu implementar seu programa de vacinação em massa na velocidade que pretendia e a falta de doses da AstraZeneca e da Pfizer tem sido um grande problema para o continente. Os dois laboratórios estão atrasando suas entregas para a Europa e alegam dificuldades momentâneas na cadeia produtiva. A AstraZeneca só deve produzir 25% do prometido para a União Europeia até março. Enquanto isso, o laboratório segue em curso para cumprir a meta combinada com os britânicos — duas milhões de doses por semana.

Os europeus exigem que as doses sendo produzidas na Grã Bretanha, em duas fábricas da empresa, também sejam utilizadas no continente. Só que o Reino Unido, por sua vez, já deixou claro que não pretende exportar nenhuma dose enquanto o país inteiro não estiver imunizado. Os britânicos assinaram contrato com a AstraZeneca em maio de 2020, três meses antes da União Europeia e o laboratório usa este ponto como justificativa para dar preferência ao governo da Grã Bretanha.  Na quarta-feira, 27, o bloco chegou a alegar que a lógica do “quem chegar primeiro leva” serve para o açougue da esquina — mas não em um contrato desses.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, foi questionado se pretende implementar um embargo na exportação de vacinas. O conservador preferiu não elevar a crise, mas já está claro que dificilmente a Inglaterra irá dividir suas doses. Pelo menos não agora. Um dos grandes e poucos acertos de Johnson nesta pandemia foi justamente ter feito um plano de vacinação logo no início do problema. E a estratégia incluiu não se alinhar ao programa da União Europeia. Johnson investiu na capacidade de produção local. De certa forma, os conservadores britânicos anteviram o “nacionalismo das vacinas” que está se desenhando.

A tecnologia desenvolvida pela Universidade de Oxford foi cedida para a AstraZeneca por se tratar de um laboratório britânico que se comprometeu a produzir as doses localmente. Todo este imbróglio ressalta a importância de ter a capacidade de produzir a vacina contra a Covid-19 no próprio país, como o governo de São Paulo conseguiu com o Instituto Butantan e, esperamos que, eventualmente, Manguinhos também o faça com a vacina de Oxford. Está faltando vacina para os países ricos — e enquanto o mundo desenvolvido não estiver imunizado não vai sobrar para os outros. A lógica da “farinha pouca, meu pirão primeiro” está evidente também na pandemia, por mais controversa que ela seja.