Novo presidente da Ceagesp defende não privatização de entreposto: ‘Tesouro do país’

Ex-chefe da Rota, Ricardo Mello Araújo afirma que combate corrupção e prostituição dentro da companhia e denuncia interesse do governo estadual no terreno da zona oeste

  • Por Jovem Pan
  • 04/01/2021 20h50 - Atualizado em 04/01/2021 20h53
Reprodução/Instagram/@melloaraujo10 O coronel Ricardo Mello Araújo, ex-chefe da Rota, é o presidente da Ceagesp desde outubro

No dia 15 de dezembro, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) surpreendeu a parcela de seus apoiadores que defende a desestatização geral no país ao anunciar que não privatizará a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp). “Queriam privatizar para algum amiguinho se dar bem”, disse Bolsonaro, em recado cifrado a João Doria (PSDB), governador de São Paulo. Em entrevista ao programa “Os Pingo nos Is”, o novo presidente do entreposto, Ricardo Mello Araújo, afirmou que a administração estadual chegou até a fazer ameaças a fim de colocar as mãos no terreno na Vila Leopoldina (zona oeste da capital paulista). “O presidente é a favor da desestatização, mas viu a maldade que tinha por trás. Hoje eu vejo interesse do governo estadual em ocupar esse espaço porque é uma área que vale muito. A ideia era degradar, não investir um centavo, fazer não valer nada e comprar a preço de banana para ganhar altos lucros no mercado imobiliário. Quando o presidente percebeu essa ‘sacanagem’, disse: ‘Não vou privatizar isso aí, não’. Pouco tempo atrás, veio o secretário estadual da Agricultura fazer uma visita de boas-vindas. E a preocupação dele era com o terreno. Chegou a ponto de falar que, se o governo federal não tirar o entreposto daqui, ele teria mecanismos para fazer os caminhões não chegarem. É uma ameaça”, denunciou.

Coronel da Polícia Militar, Araújo foi nomeado presidente do Ceagesp no último dia 23 de outubro. “Quando o convite foi feito, não entendi. Vim de carreira militar. Achei estranho. Mas, logo que cheguei, entendi o porquê de o presidente ter me convidado para esta missão. Pude constatar logo no começo muitos problemas relacionados à corrupção, de todo o tipo. Contratos milionários sempre feitos de forma emergencial. A Ceagesp é o maior entreposto da América Latina, terceiro maior do mundo. O giro financeiro é de R$ 11 bilhões por ano. Segundo informações, só perde para a Bolsa”, observou o ex-chefe da Rota. “E os problemas aqui são todos os que uma cidade de 50 mil habitantes tem. Tínhamos, já diminuiu muito… Tínhamos problemas com tráfico de drogas, jogo do bicho. Hoje mesmo, uma pessoa liga ao jogo do bicho foi levada [à polícia]”, seguiu.

A Ceagesp está sob o comando do governo federal desde 1997.  “Ao longo dos anos, os políticos foram colocados seus afiliados, virou uma grande empresa para se arrecadar dinheiro”, denunciou o presidente do entreposto. Ele afirma que comanda um programa de “moralização” que ajudou a convencer o governo federal a não colocar o entreposto à disposição da iniciativa privada. “Tive a oportunidade de ir à Brasília e mostrar a grandiosidade da Ceagesp ao presidente. Ele rapidamente mudou de ideia. A Ceagesp não vai ser desestatizada no governo dele. Isso aqui é um tesouro que pertence ao nosso país, é um tiro de canhão. Tem um potencial gigantesco. Infelizmente, estava sendo mal administrado. A gente até fala: ‘A vaca esta com o carrapato. O que é melhor? Mata a vaca e resolve problema ou vamos tirar o carrapato? Estamos mostrando que é possível moralizar uma empresa com pessoas de boa índole. E essa empresa não utiliza um centavo do governo federal. Ela se autossustenta. Ela pode chegar a maior [entreposto] do mundo, com potencial gigantesco.”

Os elogios a Bolsonaro são feitos com a mesma intensidade que as críticas a João Doria. Araújo assegura que sindicatos e associações protestarão contra o aumento do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). A nova lei de ajuste fiscal do Estado de São Paulo que permite que o imposto de alimentos básicos possa ser de até 13,3%, inclusive em mercadorias que antes eram isentas. “O governador está sendo inconsequente. Parece que ele vive me outro mundo. Neste momento da pandemia, o agronegócio está segurando o país. Isso vai refletir nos pequenos e médio produtores, 70% do que nós temos aqui. Aquela pessoa que mexe com plantação de alface e faz esse alimento chegar ao Ceagesp para ser distribuído vai ter um gasto que não tinha antes. Em um momento péssimo, de pandemia. A própria OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] sugeriu para que se não aumentasse impostos. E o governo estadual vai na contramão do que seria o racional. Quem vai sofrer é a população carente, a cesta básica vai aumentar”, detonou o presidente da Ceagesp.

Assista ao programa na íntegra: