JOVEM PAN

Jovem Pan
TV Ao Vivo
Morning Show | 10h00 - 12h00
Saúde

Envelhecer não é sinônimo de ficar fraco: por que preservar músculos pode evitar quedas

Perder força não precisa ser uma consequência inevitável da idade. A fisioterapeuta Mônica Schapiro explica como o treinamento muscular, associado a exercícios de equilíbrio e atividades funcionais, ajuda a preservar movimentos essenciais para a autonomia e a reduzir o risco de quedas

Brazil Health

Capital conta com 2 milhões de idosos; em 10 anos, população acima dos 60 anos cresceu 51,1%
Casal de idosos Pixabay

Levantar-se de uma cadeira sem apoiar as mãos, subir uma escada, carregar compras, recuperar o equilíbrio depois de um tropeço ou simplesmente caminhar com segurança parecem movimentos banais enquanto conseguimos realizá-los. Com o envelhecimento, porém, a perda progressiva de força e função muscular pode transformar essas tarefas em desafios e iniciar um processo que afeta diretamente a autonomia.

É nesse contexto que aparece a sarcopenia, uma condição caracterizada pela redução da força muscular associada à perda de quantidade ou qualidade muscular e, nos casos mais graves, pior desempenho físico. Não se trata apenas de ter braços ou pernas menos musculosos. A preocupação maior é o que acontece quando o músculo deixa de responder adequadamente às exigências da vida cotidiana.

A pessoa passa a caminhar mais devagar, encontra dificuldade para levantar-se, sente-se menos segura e pode começar a evitar determinados movimentos. Essa redução de atividade contribui para perda adicional de força e capacidade física. Forma-se, assim, um ciclo que aumenta a vulnerabilidade e está associado a maior risco de quedas, perda de independência e outros desfechos adversos.

Musculação depois dos 60 não é uma questão de estética

Durante muito tempo, exercícios com pesos foram associados principalmente a pessoas jovens interessadas em aumentar massa muscular. Hoje, sabemos que o treinamento resistido tem uma função muito mais ampla e pode ser uma ferramenta importante para preservar a capacidade funcional durante o envelhecimento.

Uma meta-análise publicada em 2026 reuniu 13 ensaios clínicos randomizados, com 546 idosos diagnosticados com sarcopenia. O treinamento resistido produziu melhora significativa na força de preensão das mãos, na massa muscular apendicular, na velocidade da marcha e no desempenho no teste em que a pessoa precisa sentar-se e levantar-se cinco vezes de uma cadeira.

Esse último resultado ajuda a traduzir o que significa ganhar força na vida real. Agachar e voltar à posição em pé é necessário para levantar-se da cama, do sofá ou do vaso sanitário. A força das pernas participa da subida de degraus, da caminhada e da capacidade de reagir quando o corpo perde momentaneamente a estabilidade.

Treinamento de força também não significa obrigatoriamente levantar grandes cargas em uma academia. Exercícios com pesos livres, faixas elásticas e até o próprio peso corporal podem ser utilizados. O que importa é que exista resistência suficiente para estimular o músculo e que o treinamento seja progressivo, respeitando capacidade, limitações e condições clínicas de cada pessoa.

Para evitar quedas, músculo forte não trabalha sozinho

Fortalecer é fundamental, mas prevenir quedas exige olhar para algo mais complexo: como aquela pessoa se movimenta.

Para não cair, precisamos produzir força, perceber mudanças na posição do corpo, ajustar rapidamente o centro de gravidade, coordenar os passos e reagir diante de um obstáculo ou desequilíbrio. Visão, sistema vestibular, sensibilidade, atenção, velocidade de reação e ambiente também participam desse processo.

Por isso, os melhores programas não deveriam trabalhar apenas força. Uma revisão guarda-chuva publicada em 2026, que analisou 41 revisões sistemáticas sobre intervenções para sarcopenia e prevenção de quedas, encontrou evidências de alta certeza de que exercícios de equilíbrio e programas multicomponentes reduzem a taxa de quedas entre 23% e 34%.

Na prática, isso significa combinar treinamento resistido com tarefas que desafiem equilíbrio, marcha e movimentos funcionais. Mudar de direção, levantar e sentar, transpor pequenos obstáculos, caminhar em diferentes situações e treinar respostas a desequilíbrios podem ser tão relevantes quanto fortalecer grupos musculares específicos.

A escolha precisa ser individualizada. Um idoso independente que deseja continuar viajando, caminhando longas distâncias e subindo escadas tem necessidades diferentes das de alguém que já sofreu uma queda e passou a ter medo de andar sozinho.

O medo de cair também pode aumentar a fragilidade

Depois de uma queda — ou mesmo ao perceber que o equilíbrio já não é o mesmo — algumas pessoas começam a se proteger reduzindo seus movimentos. Deixam de caminhar, evitam escadas, abandonam atividades e passam mais tempo sentadas. Parece uma estratégia segura, mas pode produzir justamente o efeito contrário.

Menos movimento significa menor estímulo para músculos, equilíbrio e coordenação. A pessoa perde capacidade física, sente-se ainda mais insegura e restringe novamente suas atividades. Romper esse ciclo é uma das funções do exercício bem orientado.

Também é importante avaliar outros fatores que podem contribuir para quedas, como alterações visuais, determinados medicamentos, tontura, hipotensão, obstáculos dentro de casa e calçados inadequados. Nenhum exercício elimina sozinho todos os riscos.

A boa notícia é que o organismo idoso continua respondendo ao treinamento. Ganhos de força e função são possíveis mesmo em pessoas com sarcopenia, como mostram os estudos mais recentes. O objetivo não é transformar todos os idosos em atletas, mas permitir que continuem fazendo aquilo que sustenta uma vida independente.

Envelhecer envolve mudanças no corpo. Ficar progressivamente fraco e abandonar movimentos, porém, não precisa ser aceito como destino inevitável. Preservar músculos, equilíbrio e capacidade funcional é uma forma concreta de preservar autonomia — e quanto antes esse cuidado começar, maior a reserva física que levamos para as décadas seguintes.

Monica Schapiro (CREFITO 423396-F)
Fisioterapeuta, profissional de Educação Física e especialista em dor
Membro da Brazil Health

continue lendo