Fratura do escafoide: a lesão no punho que pode passar despercebida após uma queda
Uma queda na calçada, um tropeço durante uma caminhada ou um acidente praticando esportes.
A reação instintiva é colocar a mão no chão para proteger o corpo.
Depois do impacto, surge uma dor no punho, especialmente perto da base do polegar.
A pessoa procura atendimento, faz uma radiografia e recebe a informação de que não há sinais de fratura.
Como a dor parece suportável, volta às atividades habituais.
O problema é que algumas fraturas do escafoide não aparecem nas primeiras radiografias.
Sem a investigação adequada, uma lesão inicialmente tratável pode evoluir com dificuldade de consolidação e comprometer os movimentos do punho.
Um osso pequeno, mas fundamental
O escafoide é um dos oito pequenos ossos que formam o carpo, conjunto responsável por grande parte da mobilidade e estabilidade do punho.
Localizado próximo à base do polegar, participa da transmissão de forças entre a mão e o antebraço.
Sua fratura costuma ocorrer quando a pessoa cai com a mão espalmada e o punho estendido.
É uma lesão relativamente frequente em adultos jovens e pessoas fisicamente ativas, especialmente durante atividades esportivas, como no futebol, basquete e esportes de luta.
O principal sintoma é a dor na região do polegar, sobretudo em uma pequena depressão anatômica conhecida como tabaqueira anatômica.
Também podem ocorrer inchaço, dificuldade para segurar objetos e desconforto ao movimentar o punho.
Entretanto, nem sempre os sintomas são intensos.
Algumas pessoas conseguem continuar usando a mão e interpretam a lesão como uma simples contusão.
Essa aparente melhora não exclui a possibilidade de fratura.
Quando a radiografia não mostra o problema
A radiografia costuma ser o primeiro exame solicitado após uma queda com suspeita de fratura.
Embora seja fundamental na avaliação inicial, ela apresenta uma limitação importante: fraturas sem desvio, especialmente nos primeiros dias, podem não ser identificadas.
Por isso, uma radiografia aparentemente normal não deve encerrar a investigação quando a dor persiste no punho, principalmente na base do polegar.
Nessas situações, a ressonância magnética tem papel especialmente relevante.
O exame consegue identificar alterações no interior do osso e detectar fraturas ocultas que ainda não são visíveis na radiografia ou tomografia computadorizada.
Diretrizes internacionais recomendam considerar a ressonância magnética precocemente diante de suspeita clínica de fratura do escafoide com radiografias iniciais negativas.
Além de confirmar a presença da fratura, a ressonância pode ajudar a excluí-la precocemente, evitando que o paciente permaneça semanas imobilizado sem necessidade.
Também permite avaliar outras lesões que podem explicar a dor persistente, como lesões ligamentares, por exemplo.
Enquanto a investigação não é concluída, pode ser necessário proteger o punho com imobilização, conforme a avaliação médica.
Por que essa fratura exige tanta atenção?
O escafoide possui uma característica anatômica que torna algumas fraturas particularmente delicadas: a maior parte de sua nutrição sanguínea ocorre por pequenos vasos intraósseos.
Это significa que determinadas fraturas, especialmente às da porção mais próxima do rádio (terço proximal), podem interromper o suprimento de sangue de um dos fragmentos.
Quando isso ocorre, é maior o risco de dificuldade de consolidação, formação de uma pseudoartrose – situação em que o osso não regenera adequadamente – e osteonecrose do fragmento que ficou sem aporte sanguíneo adequado.
Quando uma fratura não consolida, pode provocar dor crônica, perda de força, limitação dos movimentos e, ao longo dos anos, artrose irreversível do punho.
Portanto, devemos manter o máximo nível de atenção para uma possível fratura no punho após uma queda com a mão espalmada, pois, todas essas complicações são perfeitamente evitáveis com o diagnóstico precoce e o tratamento correto.
Imobilização ou cirurgia?
O tratamento depende das características da lesão.
Fraturas estáveis, sem desvio significativo e com condições favoráveis de consolidação podem ser tratadas com imobilização, acompanhada de avaliações clínicas e exames de imagem seriados.
Já fraturas desviadas, instáveis ou localizadas em regiões com maior risco de osteonecrose (terço proximal) geralmente são melhor tratadas com cirurgia.
Uma das indicações mais comuns é a fixação dos fragmentos com parafuso de compressão interfragmentária ou, nos casos mais graves, podemos utilizar placas específicas para a fixação do escafoide (tecnologia disponível no Brasil há apenas dez anos), buscando reestabelecer a estabilidade necessária à consolidação.
Nos casos diagnosticados tardiamente, especialmente quando já está estabelecida a pseudoartrose do escafoide, o tratamento é mais complexo e deve ser individualizado a cada paciente.
A recuperação varia conforme o tipo de fratura, a abordagem utilizada e o Cirurgião de Mão responsável por conduzir o caso.
O retorno às atividades deve respeitar a consolidação óssea e cada fase da reabilitação.
Dor persistente depois da queda não deve ser ignorada
Nem toda dor no punho após uma queda significa ter sofrido uma fratura do escafoide.
Lesões ligamentares, outras fraturas e uma simples contusão também podem produzir sintomas semelhantes.
Por isso, a avaliação com especialista é indispensável.
O alerta principal é a persistência de dor próxima à base do polegar depois de um trauma no punho, mesmo quando a radiografia inicial não identifica alterações.
Nessas circunstâncias, a ressonância magnética pode fazer toda a diferença para identificar a presença de uma possível fratura oculta e impedir que uma lesão possivelmente séria seja negligenciada.
A fratura do escafoide mostra que a intensidade da dor nem sempre corresponde à gravidade do problema.
Investigar adequadamente um punho dolorido após uma queda é uma medida importante para preservar sua função e evitar complicações que poderiam ser prevenidas com o diagnóstico precoce.
Dr. Renato Polese Rusig – CRM/SP 182.895 | RQE 90530 | 109352
Ortopedista e Cirurgião de Mão e Microcirurgia Reconstrutiva
Membro da Brazil Health
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