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Wanderley Nogueira

Ronaldo e Jesus: a falta de tato com um jogador fora da curva?

Fim chegou envolto numa polêmica que se arrasta desde setembro e que, para muitos

Wanderley Nogueira

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Cristiano Ronaldo anunciou aposentadoria da Seleção de Portugal TOMASZ JASTRZEBOWSKI/DIA ESPORTIVO/ESTADÃO CONTEÚDO

Cristiano Ronaldo se despediu da seleção portuguesa. 

O anúncio, feito em vídeo nas redes sociais na véspera da divulgação da convocação, encerra 23 anos de ligação com a equipe— 234 jogos e 146 gols, números que o tornam o jogador com mais partidas e mais gols por uma seleção na história.

Mas o fim chegou envolto numa polêmica que se arrasta desde setembro e que, para muitos, expôs mais do que uma simples divergência de ideias entre treinador e jogador.

As opiniões estão divididas. Há quem defenda Jorge Jesus pela legitimidade da autoridade técnica: as decisões de escalação cabem ao técnico, as regras devem ser iguais para todos e nenhum jogador — por maior que seja o seu status — pode condicionar o projeto.

Outros consideram a reação de Ronaldo excessiva ou “mimada”, sobretudo pelo abandono da concentração antes do jogo contra a Dinamarca e pela forma como a situação foi tornada pública.

Ainda assim, a percepção de que faltou diplomacia e tato na gestão de um jogador “fora da curva” (pelo estatuto, pela carreira e pelo impacto que tem dentro e fora de campo) está presente em várias análises e comentários.

 A gestão do aquecimento contra a Noruega — em que Ronaldo entrou para aquecer e não foi utilizado —, as declarações assertivas de Jesus nas coletivas (“No time mando eu”, “Nunca nenhum jogador vai mudar as minhas ideias”) e a forma como o caso foi tratado publicamente geraram críticas sobre a sensibilidade necessária para lidar com um capitão e símbolo como Ronaldo.

Vale lembrar que outros jogadores históricos, como Messi, Neymar e vários outros, dificilmente foram tratados, ao longo da carreira, exclusivamente sob o critério puro da “autoridade técnica”. Em momentos decisivos, o tamanho, o histórico e o peso que esses atletas carregam quase sempre influenciaram a forma como técnicos e dirigentes lidaram com eles — não necessariamente com privilégios absolutos, mas com um cuidado e uma comunicação que vão além das regras iguais para todos.

 Com Ronaldo, muitos enxergaram a ausência desse cuidado.Mesmo quem reconhece a autoridade do treinador admite que o tratamento de um jogador com a dimensão de Ronaldo exigia mais atenção na comunicação e na gestão de expectativas.

Ronaldo anunciou a despedida sem avisar diretamente Jesus. Comunicou sobretudo ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença. 

Do lado do técnico, a reação foi de aceitação: disse que pediu a Ronaldo para continuar, porque precisava dele ao seu lado, mas que tem de respeitar a decisão do jogador. 

Destacou-o como referência mundial e símbolo para a juventude portuguesa — uma forma de reconhecer o legado, mesmo depois do desgaste.

No fim, o episódio deixa uma pergunta no ar: gerir um jogador de dimensão tão excepcional exige apenas autoridade técnica, ou também uma dose de tato que vá além das regras iguais para todos? As opiniões continuam divididas. 

O que parece consensual é que o adeus de Ronaldo à seleção não aconteceu da forma que muitos imaginavam — e que a maneira como o caso foi conduzido contribuiu para que o fim chegasse mais cedo e de forma mais turbulenta do que o necessário.

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