‘Sonho americano’ muda e famílias precisam de dois empregos em tempo integral, diz pesquisa
Por décadas, a imagem da família americana parecia um roteiro pronto. O pai saía para trabalhar, a mãe cuidava da casa, os filhos brincavam no quintal e uma única renda era suficiente para pagar a hipoteca, o carro, a escola e ainda garantir férias de verão. Era a essência do chamado American Dream.
Mas os números divulgados nesta semana pelo Pew Research Center mostram que essa realidade praticamente desapareceu. Pela primeira vez na história moderna dos Estados Unidos, a maioria das famílias com pai e mãe e filhos menores de idade depende de dois empregos em tempo integral para se manter. Hoje, 52% desses lares contam com ambos os pais trabalhando em período integral. Em 1975, esse percentual era de apenas 31%.
A mudança não é pequena. Em meio século, houve um salto de 21 pontos percentuais. Ao mesmo tempo, o modelo clássico da família sustentada por um único provedor encolheu drasticamente. Em 1975, 42% dos lares tinham o pai trabalhando em tempo integral enquanto a mãe permanecia em casa. Em 2025, esse número caiu para apenas 23%.
A explicação mais simples seria atribuir essa transformação ao avanço das mulheres no mercado de trabalho. E isso certamente faz parte da história. Mulheres mais escolarizadas passaram a ocupar cargos mais qualificados, construir carreiras próprias e ampliar sua participação econômica. Hoje, entre mães com pós-graduação, quase 70% trabalham em tempo integral ao lado dos parceiros.
Mas reduzir essa mudança apenas à emancipação feminina seria ignorar a realidade financeira enfrentada pelas famílias americanas. Nos bastidores da estatística existe uma conta que não fecha mais.
O preço das moradias disparou nos últimos anos. Os custos com educação infantil e creches cresceram. Os gastos com saúde continuam entre os mais altos do mundo desenvolvido. Alimentação, seguros, transporte e energia pressionam o orçamento doméstico. O resultado é que, para milhões de famílias, dois salários deixaram de ser uma escolha e passaram a ser uma necessidade.
O dado mais revelador da pesquisa talvez seja justamente esse. Mais de 80% dos pais que vivem em famílias de dupla renda afirmam que o arranjo representa um alívio financeiro importante. Em outras palavras, a maioria não trabalha em dobro para acumular riqueza. Trabalha para manter o padrão de vida.
É uma mudança profunda na definição do que significa ser classe média nos Estados Unidos. Durante décadas, possuir uma casa própria, criar filhos e manter uma família eram metas associadas à estabilidade. Hoje, essas mesmas metas exigem uma estrutura financeira muito mais complexa. Em muitos casos, dois salários, dois planos de saúde, duas rotinas de trabalho e uma logística diária quase militar para dar conta da agenda dos filhos.
O fenômeno ajuda a explicar por que o conceito de “sonho americano” enfrenta uma crise de credibilidade. Uma pesquisa nacional do próprio Pew mostrou que apenas 53% dos americanos ainda acreditam que o sonho americano continua alcançável. Outros 41% afirmam que ele já foi possível no passado, mas deixou de ser. Entre os jovens e as famílias de renda mais baixa, o ceticismo é ainda maior.
A sensação de perda não está necessariamente ligada à pobreza. Muitos americanos continuam empregados e a economia segue crescendo. O problema é outro: a percepção de que o esforço necessário para alcançar os mesmos objetivos de gerações anteriores aumentou drasticamente.
Há cinquenta anos, uma única renda frequentemente bastava para comprar uma casa e criar filhos. Hoje, mesmo famílias com dois salários frequentemente relatam dificuldades para economizar, investir ou acumular patrimônio.
E existe uma segunda camada nessa transformação.
Embora homens e mulheres estejam cada vez mais presentes no mercado de trabalho, a divisão das tarefas domésticas não avançou no mesmo ritmo. Diversas pesquisas mostram que grande parte das mulheres continua assumindo a maior parcela dos cuidados com os filhos, da organização da casa e das responsabilidades familiares, mesmo quando trabalham a mesma quantidade de horas que os parceiros.
Na prática, muitas mães enfrentam uma jornada dupla: expediente no escritório e expediente em casa.
O resultado é um paradoxo. As famílias conquistaram mais renda, mas perderam tempo. Ganharam independência financeira, mas enfrentam mais pressão. Possuem dois contracheques, mas muitas vezes sentem menos segurança econômica do que seus pais e avós sentiam com apenas um.
Por isso, o dado divulgado pelo Pew vai muito além de uma estatística sobre mercado de trabalho. Ele simboliza uma mudança cultural e econômica que redefine a vida americana.
O modelo tradicional da família sustentada por um único salário não desapareceu completamente. Mas deixou de ser a regra.
Hoje, a nova versão do sonho americano tem dois empregos, duas agendas lotadas, duas fontes de renda e uma preocupação constante em fechar as contas no fim do mês.
E talvez seja exatamente por isso que, para muitos americanos, o sonho continua existindo – mas está ficando cada vez mais caro para ser alcançado.