Investigação revela que tragédia de Surfside começou semanas antes do desabamento
Quase cinco anos após uma das maiores tragédias estruturais da história dos Estados Unidos, investigadores federais concluíram que o colapso do condomínio Champlain Towers South, em Surfside, na Flórida, não começou na madrugada de 24 de junho de 2021. Na verdade, segundo o relatório final divulgado nesta semana, a sequência de falhas estruturais teve início cerca de três semanas antes do prédio vir abaixo, matando 98 pessoas.
O documento foi elaborado pelo Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos, conhecido pela sigla NIST, órgão responsável pelas principais investigações de falhas estruturais no país. Após cinco anos de análises, testes de engenharia, modelagens computacionais e avaliação de milhares de documentos, os especialistas concluíram que o processo de colapso começou no início de junho de 2021.
Segundo os investigadores, duas conexões estruturais entre colunas da garagem e a laje da área da piscina falharam semanas antes da tragédia. A partir daquele momento, fissuras começaram a se espalhar pela estrutura, redistribuindo cargas para outras áreas do edifício de forma gradual e invisível para moradores e administradores do condomínio.
Os engenheiros descrevem o processo como um “efeito dominó em câmera lenta”. Durante aproximadamente 21 dias, a estrutura continuou se deteriorando silenciosamente até atingir um ponto sem retorno. Na madrugada de 24 de junho, a laje da área da piscina cedeu completamente, desencadeando o colapso em cadeia de grande parte da torre residencial.
De acordo com o relatório, o edifício apresentava vulnerabilidades desde sua construção, no início dos anos 1980. Os especialistas afirmam que o projeto original possuía margens de segurança insuficientes e não atendia plenamente aos padrões técnicos existentes na época. Além disso, durante a construção, algumas etapas teriam sido executadas de forma diferente do previsto nos projetos estruturais.
Ao longo das décadas, outros fatores agravaram a situação. Nos anos 1990, foram adicionados grandes jardins, floreiras e revestimentos pesados na área da piscina. Segundo os investigadores, esse peso adicional nunca foi devidamente considerado nos cálculos estruturais e aumentou significativamente a carga sobre uma laje que já apresentava fragilidades.
O relatório também aponta que a corrosão provocada pela exposição constante à umidade e à maresia enfraqueceu elementos essenciais da estrutura. O Champlain Towers South estava localizado a poucos metros do Oceano Atlântico, em uma das regiões mais sujeitas à corrosão marinha no sul da Flórida.
Outro dado que chama atenção são os sinais de alerta observados nos dias e semanas anteriores ao colapso. Segundo a investigação federal, moradores relataram aumento de infiltrações, vazamentos na garagem, portas de vidro saindo dos trilhos e portões que deixaram de funcionar corretamente. Horas antes da tragédia, também houve relatos de água escorrendo em quantidade incomum pelo teto da garagem. Nenhum desses sinais foi interpretado como indicativo de um risco iminente de colapso.
A tragédia de Surfside mobilizou equipes de resgate de vários países e gerou uma das maiores operações de busca da história recente da Flórida. Dos 136 apartamentos do prédio, mais da metade foi destruída. As operações duraram semanas até que os corpos das 98 vítimas fossem localizados.
O desastre também provocou mudanças na legislação estadual. Após o colapso, a Flórida aprovou novas exigências para inspeções estruturais de condomínios antigos e criou regras mais rígidas para reservas financeiras destinadas a reparos e manutenção de edifícios.