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Eliseu Caetano

Bastidores do tarifaço: as relações Brasil-EUA, o lobby e o impasse diplomático

O que emerge dessas conversas é um cenário bem diferente do discurso público adotado pelos dois governos

Eliseu Caetano

Lula e Trump
Lula e Trump Ricardo Stuckert/PR e Will Oliver/Pool/EFE/EPA

A coluna conversou, nos últimos dias, com integrantes do Itamaraty, da equipe econômica, representantes do setor privado e interlocutores que acompanham as negociações em Washington. O que emerge dessas conversas é um cenário bem diferente do discurso público adotado pelos dois governos.

Nos bastidores, a avaliação é praticamente consensual: as negociações entre Brasil e Estados Unidos estão travadas. Apesar das manifestações oficiais em favor do diálogo, fontes com acesso às tratativas afirmam que não existe, hoje, uma mesa bilateral ativa capaz de produzir um acordo de curto prazo.

No fim de 2025, após conversas telefônicas entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, chegou a haver uma expectativa de retomada do diálogo. Segundo a coluna apurou com participantes das rodadas técnicas, temas como desmatamento ilegal, acesso ao mercado de etanol e mecanismos de enforcement anticorrupção chegaram a ser discutidos, mas as conversas esbarraram rapidamente em obstáculos considerados incontornáveis.

A avaliação, tanto em Brasília quanto em Washington, é que as exigências americanas envolviam concessões preferenciais incompatíveis com os compromissos assumidos pelo Brasil no Mercosul e em outros acordos regionais. A partir daí, o diálogo perdeu tração. Ou seja, indo direto ao ponto: está parado. Não está acontecendo mais diretamente.

Diante desse cenário, a coluna apurou que o governo brasileiro decidiu mudar a estratégia. Em vez de insistir apenas na negociação direta com a Casa Branca, passou a intensificar uma ofensiva de lobby junto ao setor privado americano.

Entidades exportadoras e a ApexBrasil ampliaram os contatos com produtores de carne, soja, café e etanol, principalmente em estados de perfil republicano. A ideia é fazer com que o custo econômico das tarifas seja percebido dentro dos Estados Unidos e, a partir daí, gere pressão política sobre a administração Trump.

“Se o agricultor americano sentir o impacto, a Casa Branca pode rever sua posição”, resumiu à coluna um interlocutor diretamente envolvido nas articulações.

Até aqui, porém, o esforço produziu resultados discretos. Houve manifestações públicas e cartas de associações empresariais, mas nada que alterasse a estratégia adotada por Washington.

Na equipe econômica, o clima também é de cautela. Fontes do Ministério da Fazenda disseram à coluna que o pacote Brasil Soberano 2 deverá priorizar linhas de crédito do BNDES para empresas afetadas e um reforço de aproximadamente R$ 130 milhões para a ApexBrasil ampliar a diversificação de mercados.

Interlocutores do governo admitem, reservadamente, que medidas mais amplas, como desonerações ou programas robustos de incentivo, perderam espaço diante das restrições fiscais.

“É um pacote de amortecimento, não uma solução estrutural”, definiu um técnico que acompanha as discussões.

Em Washington, a leitura é diferente. Fontes ligadas ao governo americano ouvidas pela coluna afirmam que o USTR continua tratando o Brasil como um caso estratégico dentro da política de recomposição da alavancagem comercial da administração Trump. A avaliação é que as tarifas continuam sendo o principal instrumento para forçar uma negociação em condições mais favoráveis aos Estados Unidos.

Essas mesmas fontes reconhecem que houve exceções para produtos considerados estratégicos para a cadeia produtiva americana, como carne bovina, café e componentes aeronáuticos. Mas também admitem que, até agora, o Brasil não apresentou sinais de flexibilização nos pontos considerados essenciais por Washington.

Outro aspecto apareceu de forma recorrente nas conversas da coluna em Brasília. Integrantes do governo enxergam um componente político na postura americana, citando o alinhamento do Brasil com China e BRICS, além da repercussão internacional do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Nos Estados Unidos, entretanto, interlocutores rejeitam essa leitura e insistem que a motivação é essencialmente econômica: reduzir desequilíbrios comerciais, ampliar acesso a mercados e corrigir distorções competitivas. Ainda assim, admitem que o momento também reforça a imagem de firmeza que Trump busca transmitir à sua base eleitoral.

No setor privado, cresce a preocupação. Grandes exportadores brasileiros calculam perdas que podem superar US$ 7 bilhões em alguns cenários e já articulam recursos em fóruns internacionais. Empresas que mantêm interlocução frequente em Washington continuam buscando canais paralelos de negociação, mas o retorno recebido tem sido semelhante: antes de qualquer recuo, a Casa Branca quer resultados concretos.

O retrato que emerge das conversas da coluna é o de um jogo de xadrez lento e desigual. Hoje, não há uma negociação bilateral efetivamente em curso.

Enquanto o Brasil aposta na abertura de novos mercados, no lobby junto ao setor privado americano e em medidas para reduzir os impactos internos, os Estados Unidos mantêm as tarifas como principal instrumento de pressão.

Nos corredores de Brasília e Washington, a palavra mais ouvida é cautela. A expectativa é que os efeitos da entrada em vigor das tarifas possam, paradoxalmente, criar as condições para uma retomada das negociações nas próximas semanas.