Trump aposta em acordo nuclear e busca paz entre Israel e Arábia Saudita
Há momentos em que a diplomacia deixa de ser apenas negociação e passa a ser história. O anúncio de Donald Trump de que um acordo de cooperação nuclear civil com a Arábia Saudita estará condicionado à adesão saudita aos Acordos de Abraão é um desses momentos. Segundo o próprio presidente, os Estados Unidos estão dispostos a aprovar um programa nuclear exclusivamente para fins civis, sem enriquecimento de urânio e voltado apenas à geração de energia, desde que Riad normalize suas relações com Israel.
O raciocínio de Trump é simples, mas ambicioso. Washington oferece à Arábia Saudita algo que o reino considera estratégico para seu futuro energético e econômico: acesso à tecnologia nuclear civil sob rígidas limitações. Em troca, exige aquilo que há décadas parecia inalcançável: o reconhecimento oficial de Israel e a entrada saudita nos Acordos de Abraão, iniciativa lançada durante seu primeiro mandato e que já aproximou Israel dos Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão.
O obstáculo, porém, é histórico. Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, a Arábia Saudita nunca reconheceu oficialmente o país. O reino sempre condicionou essa normalização ao avanço da causa palestina e à criação de um Estado palestino. Além disso, a rivalidade regional, as guerras árabe-israelenses e décadas de desconfiança transformaram a ausência de relações diplomáticas em um dos principais símbolos do conflito no Oriente Médio. É justamente esse impasse que Trump tenta romper usando um acordo estratégico como instrumento de negociação.
Não se trata apenas de mais um acordo diplomático. Trata-se da possibilidade de unir oficialmente os dois países que simbolizam os polos político-religiosos mais influentes do judaísmo e do islamismo. Israel abriga Jerusalém, cidade sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos. A Arábia Saudita é guardiã de Meca e Medina, os dois locais mais sagrados do islamismo. Durante décadas, essa aproximação foi considerada praticamente impossível.
Os Acordos de Abraão já romperam paradigmas ao aproximar Israel dos Emirados Árabes Unidos, do Bahrein, do Marrocos e do Sudão. Mas a entrada da Arábia Saudita representaria outro patamar. Riad é a maior potência política e econômica do mundo árabe sunita e exerce enorme influência sobre dezenas de países muçulmanos. Seu reconhecimento de Israel teria um peso simbólico, religioso e estratégico muito superior ao de qualquer adesão anterior.
Nada disso significa que o caminho esteja livre. A posição oficial saudita continua sendo a de que a normalização depende de avanços concretos na questão palestina, e o acordo nuclear também deverá enfrentar intenso debate nos Estados Unidos. Ainda assim, se Trump conseguir transformar sua proposta em realidade, poderá reivindicar um dos maiores feitos diplomáticos da história recente: aproximar oficialmente Israel e Arábia Saudita e redesenhar o equilíbrio político do Oriente Médio.
A história ensina que guerras costumam ocupar as manchetes. Mas, às vezes, são os acordos improváveis que mudam o mundo. Se Jerusalém e Riad derem esse passo, não será apenas mais um tratado. Será um marco capaz de redefinir as relações entre judeus e árabes, reorganizar alianças estratégicas e inaugurar uma nova fase na política do Oriente Médio.
A pergunta que permanece não é se isso seria histórico. É se estamos prestes a testemunhar esse momento.