HPV: Brasil e América Latina ainda desperdiçam uma oportunidade histórica de prevenir
Pela primeira vez na história da medicina, temos a possibilidade concreta de eliminar um tipo de câncer em escala populacional. A vacina contra o HPV, disponível há mais de uma década, já mostrou ser capaz de reduzir drasticamente as infecções pelo vírus, as lesões pré-cancerosas e, mais recentemente, os casos de câncer de colo do útero em países com altas coberturas vacinais.
Estudos realizados no Reino Unido, por exemplo, demonstraram uma redução impressionante no número de casos de câncer de colo do útero entre mulheres que receberam a vacina na adolescência. É uma das maiores histórias de sucesso da prevenção moderna.
No entanto, Brasil e América Latina vivem um paradoxo. A região foi pioneira na incorporação da vacina contra o HPV aos programas públicos de imunização, mas as coberturas vacinais permanecem abaixo das metas estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), especialmente após a queda observada durante a pandemia.
Esse cenário foi evidenciado em uma revisão sistemática coordenada pela Oficina de Câncer de Pênis da Confederación Americana de Urología (CAU), apresentada no congresso da entidade. O estudo mostrou que a vacinação contra o HPV ainda avança de forma desigual na América Latina. Apenas Brasil, Argentina, Uruguai e Panamá incluem os meninos em seus programas nacionais de imunização, enquanto Cuba, Haiti, Nicarágua e Venezuela ainda não possuem programas registrados de vacinação contra o HPV.
Os autores também destacam que a recente recomendação da OMS para a adoção do esquema de dose única representa uma oportunidade importante para ampliar a cobertura vacinal em toda a região. Isso significa que estamos deixando passar uma oportunidade histórica de prevenir milhares de casos de câncer.
O HPV não é apenas um problema das mulheres
Durante muito tempo, o HPV foi associado quase exclusivamente ao câncer de colo do útero. Embora essa relação seja extremamente importante, ela representa apenas parte da história.
Hoje, sabe-se que o HPV está diretamente relacionado a seis tipos de câncer: colo do útero, ânus, orofaringe, pênis, vagina e vulva, além de ser responsável pela maioria dos casos de verrugas genitais. Globalmente, o câncer de colo do útero provoca cerca de 350 mil mortes por ano. No Brasil, os tumores associados ao HPV respondem por aproximadamente 7.500 mortes anuais. Grande parte dessa carga de doença poderia ser evitada por meio da vacinação.
Por isso, a vacinação dos meninos não deve ser vista apenas como uma estratégia para proteger as meninas. Trata-se de uma medida de proteção direta da saúde masculina.
Na prática da urologia, vemos o impacto das doenças relacionadas ao HPV em homens de diferentes idades. Mais da metade dos casos de câncer de pênis no Brasil está associada ao vírus. Além disso, os casos de câncer de orofaringe relacionados ao HPV vêm aumentando em diversas partes do mundo, especialmente entre homens, reforçando ainda mais a importância da prevenção.
A vacina existe, mas ainda não chega a todos
O Brasil deu um passo importante ao adotar o esquema de dose única para a vacinação contra o HPV, alinhando-se à recomendação da Organização Mundial da Saúde. A estratégia simplifica a logística, reduz custos e pode ampliar significativamente a cobertura vacinal, especialmente em programas públicos de imunização.
Mesmo assim, milhões de adolescentes ainda não foram imunizados ou perderam a oportunidade de receber a vacina no momento recomendado.
As razões são diversas: desinformação, receio dos pais, dificuldade de acesso aos serviços de saúde e, em alguns casos, a falsa percepção de que o HPV é um tema relacionado apenas à saúde feminina.
Esse cenário preocupa porque a proteção coletiva depende de elevadas coberturas vacinais. Quanto maior o número de pessoas vacinadas, menor é a circulação do vírus na população e maior é o potencial de prevenir doenças futuras.
Uma oportunidade que não deveria ser desperdiçada
A Organização Mundial da Saúde lançou uma estratégia global para eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública nas próximas décadas. O objetivo é ambicioso, mas cientificamente possível.
Para que isso aconteça, a vacinação contra o HPV precisa atingir um número muito maior de adolescentes, tanto meninas quanto meninos.
Mais do que prevenir um único câncer, estamos falando de uma estratégia capaz de reduzir diferentes tipos de tumores, evitar milhares de mortes e poupar o sofrimento de incontáveis famílias.
A mensagem mais importante é simples: a vacina contra o HPV não é apenas uma pauta da ginecologia ou da pediatria. Ela também é uma pauta da urologia, da saúde masculina e da prevenção do câncer em sentido amplo.
Temos uma ferramenta extraordinária nas mãos. O desafio agora é garantir que ela chegue a quem realmente precisa, antes que uma oportunidade histórica de prevenção seja perdida.
Dr. Marcos Tobias Machado – CRM/SP 75.225 | RQE 63664
Urologista
Doutorado pela Universidade de São Paulo (USP)
Membro da Brazil Health