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O corpo foi feito para reagir ao estresse, não para permanecer em alerta

O psiquiatra Gabriel Garcia Okuda explica como o estresse prolongado interfere nos mecanismos cerebrais e hormonais do organismo e quais medidas podem ajudar a restabelecer o equilíbrio

Brazil Health

Estresse no calor
Estresse Lawrence Krowdeed/Unsplash

O estresse é uma resposta natural do organismo diante de situações de perigo, decisões importantes ou desafios. Em momentos como esses, o cérebro ativa mecanismos que aumentam a atenção, aceleram o raciocínio e preparam o corpo para reagir. Essa resposta foi desenvolvida ao longo da evolução humana como uma ferramenta de proteção, mas pode se tornar prejudicial quando permanece ativada por longos períodos.

Na vida moderna, marcada por sobrecarga de trabalho, excesso de estímulos digitais, preocupações financeiras e pouco tempo para recuperação, muitas pessoas vivem em um estado contínuo de alerta. É nesse cenário que surge o estresse crônico, uma condição capaz de provocar alterações que ultrapassam o campo emocional e afetam diferentes sistemas do organismo.

O processo começa no cérebro. Ao identificar uma situação como ameaçadora, a amígdala cerebral envia sinais ao hipotálamo, que ativa o sistema nervoso simpático e estimula a liberação de adrenalina, noradrenalina e cortisol. Essas substâncias aumentam a frequência cardíaca, elevam a pressão arterial, aceleram a respiração e disponibilizam energia para que o organismo responda ao desafio.

Conhecida como resposta de “luta ou fuga”, essa reação é essencial em situações específicas. Ela melhora a concentração, aumenta a capacidade de resposta e ajuda na tomada de decisões. O problema aparece quando o cérebro permanece interpretando o ambiente como ameaçador mesmo sem uma situação real de perigo.

O desgaste provocado pelo estresse prolongado

A exposição contínua ao cortisol interfere nos mecanismos de recuperação do corpo. Com o tempo, podem ocorrer alterações na pressão arterial, no metabolismo e na resposta inflamatória, além de prejuízos em regiões cerebrais envolvidas na memória, na concentração e no controle das emoções.

Estudos em neurociência, endocrinologia e cardiologia mostram que o estresse crônico está associado a maior risco de hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, depressão, ansiedade e distúrbios do sono. Também pode comprometer a resposta imunológica e contribuir para sintomas físicos persistentes.

Apesar de ser uma causa frequente de sofrimento, o estresse não deve ser utilizado como explicação automática para todos os sintomas. Cansaço intenso, palpitações, tremores, insônia, dificuldade de concentração e ansiedade também podem estar relacionados a alterações da tireoide, anemia, arritmias cardíacas, apneia obstrutiva do sono, deficiência de vitaminas, uso de medicamentos ou outros transtornos psiquiátricos.

Por isso, uma avaliação médica adequada é fundamental para identificar a origem dos sintomas e definir a melhor abordagem de tratamento.

Estratégias que ajudam a recuperar o equilíbrio

Entre as medidas com maior respaldo científico para reduzir os efeitos do estresse, o sono ocupa papel central. Durante o descanso, o cérebro reorganiza conexões neurais, consolida memórias, regula hormônios e reduz a atividade dos sistemas envolvidos no estado de alerta.

Dormir bem não é apenas uma questão de disposição no dia seguinte. O sono é uma necessidade biológica essencial para a recuperação cerebral e para o funcionamento adequado do organismo. Quando sua qualidade diminui, funções como memória, aprendizado, regulação emocional e concentração também podem ser afetadas.

Manter horários regulares para dormir e acordar, reduzir a exposição às telas antes do repouso, evitar cafeína no período noturno e criar um ambiente adequado favorecem a qualidade do sono.

A atividade física também exerce papel importante no controle do estresse. Exercícios aeróbicos, treinamento de força e práticas como ioga contribuem para reduzir sintomas de ansiedade, melhorar o humor e favorecer o descanso. Parte desses efeitos está relacionada ao aumento da produção do BDNF, proteína envolvida na plasticidade cerebral e na manutenção dos neurônios, especialmente em áreas ligadas à memória e ao aprendizado.

A alimentação participa desse processo. Padrões alimentares ricos em frutas, verduras, legumes, cereais integrais, proteínas magras e gorduras insaturadas estão associados a menor inflamação e melhor funcionamento cerebral. Em contrapartida, o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares refinados e gorduras saturadas, pode favorecer alterações metabólicas que intensificam os efeitos do estresse.

Mesmo com mudanças no estilo de vida, algumas pessoas precisam de acompanhamento especializado. Sensação persistente de esgotamento, dificuldade importante para trabalhar ou estudar, insônia prolongada, crises frequentes de ansiedade, irritabilidade intensa, perda de interesse por atividades antes prazerosas, isolamento social, aumento do consumo de álcool ou outras substâncias e sintomas depressivos persistentes são sinais que indicam a necessidade de avaliação profissional.

Sentir estresse faz parte da experiência humana. Permanecer biologicamente em estado de alerta por tempo prolongado, não. Cuidar do sono, manter uma rotina de atividade física, preservar vínculos sociais, adotar uma alimentação equilibrada e buscar ajuda quando necessário são medidas que protegem a saúde mental e também o funcionamento do cérebro, do coração e de todo o organismo.

Dr. Gabriel Garcia Okuda – CRM 176332 | RQE 78985
Psiquiatra