Por que ansiedade e depressão continuam aumentando?
Nos últimos anos, a saúde mental deixou de ser um tabu. Nunca houve tantos psicólogos, psiquiatras, serviços especializados, medicamentos e informações disponíveis. Falar sobre ansiedade e depressão tornou-se mais natural, empresas passaram a discutir bem-estar emocional e campanhas de conscientização se multiplicaram.
Ainda assim, os números continuam preocupando. Estudos mostram que os transtornos de ansiedade e a depressão permanecem entre as principais causas de incapacidade no mundo, especialmente entre jovens e adultos em idade produtiva.
Como explicar esse aparente paradoxo?
A resposta provavelmente não está em um único motivo, mas na combinação de diversos fatores sociais, culturais e biológicos. Estamos vivendo mais ou nomeando mais o sofrimento?
Parte desse aumento pode refletir um avanço importante: hoje reconhecemos e diagnosticamos problemas que, durante décadas, permaneceram invisíveis. Muitas pessoas, que antes sofriam em silêncio, agora procuram atendimento e recebem tratamento adequado. Isso é um ganho inegável.
Ao mesmo tempo, a psiquiatria discute um fenômeno conhecido como concept creep, expressão utilizada para descrever a ampliação gradual do significado de determinados conceitos psicológicos. Na prática, experiências humanas comuns, como tristeza, frustração, medo, insegurança ou luto, podem acabar sendo interpretadas como sinais de um transtorno mental.
Isso não significa que ansiedade ou depressão sejam “exagero” ou que o sofrimento das pessoas não seja real. Significa apenas que nem toda dor emocional corresponde, necessariamente, a uma doença psiquiátrica.
A vida inclui perdas, conflitos, decepções e momentos difíceis. Essas experiências fazem parte da condição humana e, muitas vezes, representam respostas esperadas às circunstâncias vividas.
O risco da medicalização e do autodiagnóstico
Outro desafio contemporâneo é a enorme quantidade de informações disponíveis nas redes sociais. Vídeos curtos, testes informais e conteúdos produzidos sem rigor científico frequentemente levam pessoas a concluir que possuem determinado transtorno apenas porque se identificaram com alguns sintomas.
O problema é que sintomas isolados raramente permitem um diagnóstico. Cansaço, dificuldade de concentração, alterações de humor ou preocupação excessiva podem estar presentes em inúmeras situações da vida, sem configurar um transtorno psiquiátrico.
Quando transformamos qualquer sofrimento em doença, corremos dois riscos. O primeiro é medicalizar experiências que poderiam ser enfrentadas com apoio familiar, mudanças de rotina ou estratégias de enfrentamento. O segundo é banalizar transtornos psiquiátricos verdadeiros, que exigem diagnóstico cuidadoso e tratamento especializado.
Buscar ajuda continua sendo fundamental
Reconhecer esses desafios não significa desencorajar a procura por atendimento. Pelo contrário. Quando o sofrimento emocional é intenso, persistente, interfere no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou compromete a qualidade de vida, buscar avaliação profissional continua sendo a atitude mais adequada.
A diferença é que uma boa consulta psiquiátrica não procura apenas dar um nome aos sintomas. Ela busca compreender a história daquela pessoa, seu contexto de vida, seus fatores de proteção, suas vulnerabilidades e o significado daquele sofrimento.
Em alguns casos, o tratamento envolverá psicoterapia, medicamentos ou ambos. Em outros, será possível trabalhar estratégias de enfrentamento, mudanças no estilo de vida, fortalecimento das relações sociais e acompanhamento clínico sem necessidade de medicação.
A saúde mental não pode ser reduzida a diagnósticos nem a frases prontas encontradas na internet.
Vivemos em uma época que fala mais sobre sofrimento emocional, e isso representa um avanço importante. Mas o próximo passo talvez seja aprender a diferenciar o sofrimento inerente à vida dos transtornos mentais que realmente precisam de tratamento. Fazer essa distinção, com responsabilidade e sensibilidade, é uma das tarefas mais importantes da psiquiatria contemporânea.
Bárbara Lara – CRM/SP 200.175
Pós-graduada em Psiquiatria pelo Einstein Hospital Israelita