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Helena Degreas

O que uma cidade perde

O novelo não crescia com árvores. Nem com casas. Nem com rios. Crescia com memórias

Helena Degreas

Nova York
Nova York Reprodução/Freepik

Na semana passada, assisti a uma campanha publicitária que não consegui esquecer. Uma enorme bola de cabelos atravessava as ruas de Nova York. Chamava-se Tumblehair. Reunia, numa única imagem, os fios que uma cidade inteira perde sem perceber. Um no travesseiro. Outro preso à roupa. Alguns no ralo depois do banho. Bilhões, quando somados.

Não foi a estranheza que ficou comigo. Foi a ideia. Transformar pequenas perdas numa presença impossível de ignorar.

Fiquei pensando que as cidades também perdem assim. Uma ausência de cada vez. O que uma cidade perde enquanto acredita que está apenas mudando?

Naquela noite choveu. O cheiro da primeira chuva subiu da terra. Dormi em paz.

Ao abrir os olhos, não lembro a que horas foi, percebi que havia alguma coisa no meio da avenida. De longe, pensei que fosse uma escultura. Urban Art talvez, como a bola de cabelos humanos.

Quando me aproximei, vi que era um novelo. Não de fios. De cidade.

Raízes enroscavam-se em bancos de praça. Galhos atravessavam janelas. Trilhos desapareciam sob trepadeiras. Um portão de ferro prendia-se a um pedaço de calçada junto com terra, pedras, tubulações, placas de rua enma sei mais quantos objetos urbanos. Tudo enredado.

Tive a impressão de que cada perda tivesse encontrado outra para não permanecer sozinha.

Os carros diminuíam a velocidade. As pessoas fotografavam. Os agentes de trânsito desviavam o trânsito.

Enquanto eu observava, o novelo cresceu. Quase imperceptivelmente. Um pedaço de calçada soltou-se do chão e juntou-se a ele.

Depois ouvi água. Primeiro um fio. Depois um córrego. Não vinha da chuva. Escorria como se ainda conhecesse um caminho que o asfalto esqueceu.

Vieram peixes pequenos. Uma jabuticabeira. Um tanque de lavar roupa. Um banco de escola. Um balanço junto com a gangorra do playground aqui perto.

Uma senhora passou a mão sobre um portão enferrujado e começou a chorar. Um homem jurou reconhecer o cinema onde encontrou a mulher de sua vida. Outro apontava para um campinho de várzea.

Ninguém concordava sobre o que via. Mas todos reconheciam alguma coisa.

Foi então que percebi. O novelo não crescia com árvores. Nem com casas. Nem com rios. Crescia com memórias.

Cada vez que alguém dizia “eu me lembro”, alguma coisa se enroscava nele. Uma sombra. Uma varanda. O nome de uma rua. O caminho feito a pé. O cheiro de pão vindo de uma padaria que já não existia.

No fim da tarde, alguns políticos instalaram um púlpito diante do novelo. Junto com ele, distribuíra santinhos e sorriam em busca de votos. Falaram em renaturalização dos córregos. Em ampliar a cobertura vegetal. Em recuperar o patrimônio. Em devolver a cidade às pessoas.

E, enquanto falavam, o novelo continuava crescendo. Uma raiz desprendeu-se do solo. Depois a sombra de uma árvore. Depois uma janela antiga.

Atrás do púlpito, a água corria em silêncio. Pela primeira vez me ocorreu que algumas cidades anunciam como futuro aquilo que já possuíram.

Ao anoitecer começaram a surgir coisas que ninguém conseguia fotografar. O riso de crianças brincando na rua. Uma conversa entre vizinhos. O sino de uma igreja. O tempo necessário para esperar uma árvore crescer.

Olhei novamente para o novelo. Pela primeira vez ele deixou de me parecer um monstro. Talvez estivesse apenas lembrando. Talvez uma cidade também se esqueça. E, quando já não consegue carregar tantas ausências espalhadas, comece a enrolá-las. Devagar. Como fazemos com um fio para que não se perca.

Voltei para casa antes de escurecer.

Na manhã seguinte, o cruzamento estava vazio. Passei pela calçada da minha rua. O quadrado de terra, local em que a prefeitura autorizou a retirada da árvore, continuava ali. Havia barro na sola do meu sapato.

Naquela noite, abri novamente o vídeo da campanha. A bola de cabelos continuava atravessando Nova York. Fechei o vídeo antes do fim.

Desde então, nunca mais consegui olhar para aquela imagem sem pensar que toda cidade fabrica, silenciosamente, o seu próprio novelo de ausências. Só não sabemos em que manhã ele decidirá ocupar a rua.

Se você tiver alguma sugestão de pauta ou dúvida, acesse meu Instagram @helenadegreas

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