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Saúde

Terapia celular em doenças reumatológicas: por que nem todo paciente pode tratar

O reumatologista Dr. Henrique Dalmolin explica o que a CAR-T muda no tratamento, quais riscos existem e por que, apesar dos resultados impressionantes, a indicação ainda é restrita a poucos casos e quase sempre ligada a pesquisa clínica.

Brazil Health

Lúpus
Lúpus Magnific

A cena se repete no consultório. A paciente senta, abre o celular e vira a tela para mim. É uma reportagem sobre uma terapia que teria curado o lúpus na Alemanha. A pergunta vem sempre igual: “doutor, isso serve para mim?” A resposta honesta quase nunca é sim. E o motivo de não ser sim diz mais sobre o futuro do seu tratamento do que a manchete.

O que a terapia celular faz de diferente

Todo tratamento que usamos hoje em lúpus, esclerose sistêmica ou miopatia inflamatória tem a mesma lógica: segurar a doença enquanto o remédio está sendo tomado. Se o paciente para, a doença tende a voltar.

Boa parte do problema vem dos linfócitos B, células de defesa que passaram a produzir anticorpos contra o próprio corpo. Já existem medicamentos que atacam essas células, como o rituximabe. Eles retiram os linfócitos B principalmente da circulação sanguínea. Nos tecidos, onde parte dessas células se esconde, a limpeza é incompleta. Sobra reservatório. O reservatório repovoa. A doença retorna.

A terapia CAR-T parte de outro caminho. Coletamos os linfócitos T do próprio paciente e, em laboratório, instalamos neles um receptor programado para reconhecer o linfócito B onde quer que ele esteja. Devolvemos essas células em uma única infusão. Elas se multiplicam dentro do corpo, entram nos tecidos, fazem a limpeza e depois desaparecem. O organismo, então, volta a produzir linfócitos B novos, a partir da medula óssea, sem a memória autoimune que existia antes.

O objetivo deixa de ser controlar a doença com medicação contínua e passa a ser reprogramar o sistema imune. Nos primeiros pacientes tratados, o desfecho relatado foi remissão sem uso de qualquer medicação para a doença de base.

O caso que abriu essa porta

A jovem Vu-Thi Thu-Thao foi diagnosticada com lúpus aos 16 anos, na Alemanha, depois de meses de dor muscular e articular que não foram levadas a sério. Seguiu o percurso que reconheço em muitos pacientes: tratamentos cada vez mais agressivos, remissões temporárias, recaída. Chegou aos 20 anos com o corpo em falência e sem terapia aprovada restante. Em 2020, recebeu uma única infusão de células CAR-T na Universidade de Erlangen. Teve febre e fadiga nos dias seguintes, que passaram. Cinco anos depois, segue em remissão, sem medicação, e trabalha na mesma clínica onde foi tratada.

Depois dela vieram séries maiores, com pacientes de lúpus, esclerose sistêmica e miopatia inflamatória, todos com falha prévia a múltiplos imunossupressores. Os resultados se mantiveram consistentes. Ainda assim, falamos de dezenas de pacientes no mundo, com seguimento medido em poucos anos. Cinco anos de remissão em uma pessoa é a melhor evidência que temos. Não é a mesma coisa que cura estabelecida para uma população.

Não é uma infusão simples

Essa parte quase sempre fica de fora das reportagens, e é a que mais importa para quem está considerando o tratamento.

Antes de receber as células, o paciente passa por quimioterapia em dose baixa, chamada linfodepleção, para abrir espaço no sistema imune. Depois da infusão, fica internado. A complicação mais comum é a síndrome de liberação de citocinas, uma reação inflamatória com febre alta e queda de pressão. Nas séries em doenças autoimunes, ela costuma ser mais leve do que em câncer. Existir, existe. Há, ainda, risco de alterações neurológicas transitórias, queda prolongada das células do sangue e um período de meses com defesa imunológica reduzida, no qual infecções são a principal preocupação.

Por isso, a terapia só pode ser feita em centro preparado, com equipe de hematologia experiente em terapia celular, estrutura de coleta e processamento, leito de internação e protocolo de manejo de toxicidade. A segurança aqui não é uma propriedade da célula. É uma propriedade da estrutura que a aplica.

Por que a maioria não é candidata

Este é o ponto que mais gera frustração no consultório. Os critérios são estreitos por desenho: doença ativa e grave, com comprovação objetiva, falha documentada a linhas específicas de tratamento, ausência de infecção ativa e condição clínica para suportar a linfodepleção e a internação.

Existe, ainda, um critério mal compreendido. A terapia atua sobre a inflamação em curso e não desfaz dano já estabelecido. Rim que perdeu função de forma irreversível, pulmão já fibrosado ou articulação já destruída não voltam. Paciente cujo problema principal passou a ser sequela não se beneficia. No outro extremo, quem está com a doença controlada com o tratamento atual também não entra, porque não se troca um controle estável por um procedimento com internação e risco.

Sobra uma faixa estreita: doença grave, ativa, refratária, em paciente com órgãos ainda preservados. Da maioria das pessoas que me procura perguntando sobre CAR-T, uma parcela pequena chega perto desse perfil.

O que ainda não sabemos

Durabilidade é a pergunta aberta. Os seguimentos mais longos chegam a cinco anos, o que é animador e insuficiente para falar em cura. Recaída também existe. O custo é alto e ainda está em discussão.

E o principal: no Brasil e na maior parte do mundo, a terapia celular ainda não tem aprovação regulatória para doenças autoimunes. O acesso hoje ocorre dentro de pesquisa clínica, com critérios rígidos e vagas limitadas.

O que fazer com essa informação

Mantenha o tratamento atual; além disso, tenha sua doença documentada: atividade medida em consulta, exames de função de órgão em dia, histórico de quais medicamentos você usou e por que foram trocados. Elegibilidade se prova com registro.

E leve a pergunta certa ao seu reumatologista. Não é “posso fazer CAR-T”. É “meu caso está caminhando para um cenário em que isso passaria a ser discutido, e o que estamos fazendo hoje para preservar essa possibilidade?”.

A terapia celular mudou o teto do que é possível em reumatologia. Quem chega lá é quem foi acompanhado de perto até a porta abrir.

Dr. Henrique Dalmolin – CRM-SP 211.167 | RQE 98901
Reumatologista.

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