Barragem em risco de desmoronamento cria ‘terrorismo psicológico’ em moradores
“O que vivemos é um terrorismo psicológico”, afirma o padre José Antonio de Oliveira, do Santuário de São João Batista em Barão de Cocais, em Minas Gerais. O religioso, de 67 anos, está há três anos na cidade e é o refúgio de moradores aflitos com a possibilidade de ruptura da barragem da Vale no município, a partir deste domingo (19). Ao mesmo tempo, figura entre os prováveis desalojados pela lama, caso a represa se rompa. “A igreja, não, mas a casa paroquial está na área que pode ser atingida”, conta.
Barão de Cocais é uma cidade onde o medo se renova. Menos de dois meses depois de a barragem Sul Superior, da Vale, no município, ter seu nível de segurança elevado para 3 – o que significa ruptura a qualquer momento -, a população do município passou a ter motivo para se preocupar ainda mais. Agora, pelo risco do talude da cava da mina da empresa desmoronar, provocando abalo sísmico e uma possível ruptura da barragem Sul Superior, localizada a 1,5 quilômetro.
Entre o anúncio da ruptura iminente, em 22 de março, e a constatação de risco para o talude, em 13 de maio, transcorreram exatos 52 dias. “Os mais afetados são os idosos e as crianças”, relata o padre José Antonio. “Um grupo grande de moradores já vive a experiência concreta de ficar sem casa. Deixaram tudo para trás: animais, sua história. Não é algo fácil.”
O religioso diz ser grande o número de relatos de doenças relatadas pelos fiéis. “Atendo muita gente com depressão e com outras doenças que agora se agravaram”, afirmou. O clima na cidade, segundo o padre, é de insegurança e apreensão. “O simulado, o meio-fio pintado. Tudo isso é um terrorismo psicológico. Cria um ambiente pesado”, diz. A tinta no meio-fio serve para marcar o alcance da lama.
Entre as pessoas que já tiveram de deixar suas residências está a analista administrativa Élida Geralda Couto, que morava em Socorro, distrito de Barão de Cocais localizado na chamada zona de autossalvamento da barragem, ou seja, muito próximos da represa, a ponto de as pessoas não conseguirem escapar em caso de rompimento.
Élida, hoje, mora na cidade em uma casa com aluguel pago pela Vale. “Nossa vida está em Socorro. A cada dia acontece uma coisa diferente. Agora, é a questão do talude. Estão nos matando aos poucos”, afirma. A comunidade de Socorro foi retirada de suas casas em 8 de fevereiro, antes da elevação do nível de segurança da barragem a 3. Naquele momento, todos foram levados para hotéis.
Alguns, no entanto, não saíram de suas casas, como é o caso de Lindaura de Lourdes Mateus, de 51 anos. “A gente tem fé de que vai voltar para casa”, diz. A ex-moradora de Socorro reclama de falta de informações por parte da Vale. “Não falam nada.”
Neste sábado (18), o Ministério Público de Minas Gerais emitiu recomendação para que a empresa repasse a situação da barragem e diga aos moradores o que pode acontecer com a estrutura. Em nota ontem, a Vale disse que vem mantendo a população informada.
*Com Estadão Conteúdo
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