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Carbono Oculto: Receita mira ‘lavanderia’ do crime e aponta movimentação bilionária

Dario Durigan afirma que fundos de investimento, administradoras de recursos e outras estruturas do sistema financeiro foram utilizadas para ocultar patrimônio e lavar dinheiro; investigação mira aquisição de distribuidora de combustíveis

David de Tarso

Reprodução/Facebook
Foto de arquivo do Gaeco PMESP/Reprodução

A terceira fase da Operação Carbono Oculto revelou uma nova camada do esquema investigado pelas autoridades: a utilização de estruturas do mercado financeiro para ocultar patrimônio, dissimular a origem de recursos e viabilizar negócios ligados ao crime organizado. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, uma das estruturas financeiras investigadas movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.

A nova etapa da operação, batizada de Crédito Oculto, foi deflagrada nesta quinta-feira (24) pela Receita Federal e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público de São Paulo, com apoio de outros órgãos. São cumpridos mandados em sete estados. A investigação apura a utilização de estruturas complexas para a aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país.

Durante a coletiva, Durigan afirmou que a investigação agora avança sobre o chamado “andar de cima” do crime organizado, com foco na participação de estruturas do sistema financeiro.

Segundo o ministro, a apuração identificou fundos de investimento, administradoras de recursos, bancos e outras empresas que teriam sido utilizados como instrumentos para esconder os verdadeiros beneficiários das operações. “Estamos falando de fundos de investimento, administradoras de recursos, bancos, gestoras de investimento que estão atuando em prol do crime organizado”, afirmou Durigan.

A investigação aponta que a estrutura teria sido montada em diferentes camadas. Primeiro, para ocultar os reais proprietários de uma empresa do setor sucroalcooleiro. Depois, essa estrutura teria sido utilizada para viabilizar a aquisição de uma distribuidora de combustíveis.

De acordo com a Receita Federal, a primeira etapa envolveu a criação de estruturas para ocultar e dissimular os verdadeiros proprietários de uma usina sucroalcooleira no interior de São Paulo. Posteriormente, outro operador financeiro teria utilizado empresas, fundos e estruturas societárias para criar novas camadas de ocultação.

R$ 11,6 bilhões em movimentações

O volume financeiro é um dos principais pontos destacados pelo ministro da Fazenda. Segundo Durigan, foram identificados R$ 11,6 bilhões em movimentações dentro da estrutura investigada.

A Receita Federal afirma que o montante foi movimentado pela empresa financeira empregada na aquisição simulada da empresa sucroalcooleira entre 2021 e 2025. Para os investigadores, o volume, analisado em conjunto com os demais elementos da apuração, reforça os indícios de utilização da estrutura para ocultação patrimonial, dissimulação da origem de recursos e lavagem de dinheiro.

O ministro afirmou que recursos teriam circulado por diferentes camadas, passando por fundos de investimento, contas e empresas, antes de retornar aos beneficiários finais.

Segundo a Receita Federal, cerca de R$ 100 milhões teriam sido enviados por uma organização criminosa para financiar a aquisição da distribuidora. O dinheiro teria passado, em poucos minutos, por múltiplas contas de três empresas do grupo, utilizando estruturas conhecidas como “contas bolsões” em fintechs, até chegar à empresa sucroalcooleira.

A partir daí, os recursos teriam sido inseridos em uma nova estrutura de fundos de investimento criada para a operação.

A investigação também aponta o uso de um Certificado de Depósito Bancário Vinculado (CDBV). De acordo com a Receita, um fundo teria adquirido o título junto a um banco tradicional, que, posteriormente, realizou uma operação considerada “casada” com a emissão de duas cédulas de crédito bancário para empresas de fachada.

Na avaliação dos investigadores, o mecanismo teria servido para afastar os recursos utilizados na operação de seus verdadeiros financiadores e beneficiários.

Blindagem patrimonial

Outro mecanismo identificado pelas autoridades envolve fundos imobiliários. Segundo a Receita, imóveis relacionados aos investigados teriam sido transferidos inicialmente para empresas patrimoniais e, posteriormente, para fundos imobiliários.

A estratégia, de acordo com os investigadores, permitia que os bens permanecessem sob controle econômico do grupo, mas deixassem de aparecer diretamente no patrimônio pessoal dos investigados, dificultando a identificação dos reais proprietários.

Para Durigan, a investigação mostra uma combinação entre lavagem de dinheiro e blindagem patrimonial, utilizando estruturas que, em condições regulares, fazem parte do funcionamento legítimo do mercado financeiro.

Receita quer ampliar uso de IA

Durante a coletiva, o ministro da Fazenda também afirmou que a Receita Federal está desenvolvendo mecanismos automatizados, com uso de inteligência artificial, para identificar padrões suspeitos de movimentação financeira.

A intenção, segundo Durigan, é acelerar a identificação de estruturas utilizadas para ocultar patrimônio e lavar dinheiro, permitindo que novas operações sejam desencadeadas de maneira mais rápida.

O ministro defendeu ainda uma maior integração entre Receita Federal, Banco Central, CVM, Ministério Público e órgãos policiais.

Para Durigan, o acompanhamento das movimentações financeiras é fundamental porque estruturas aparentemente independentes podem, segundo as investigações, estar conectadas por meio de fundos, empresas e administradoras de recursos.

Outro lado

Por meio de nota, o Banco Genial afirmou que Humberto Tupinambá, um dos alvos da operação, não integra a diretoria e não é sócio da instituição desde maio deste ano, quando ocorreu sua destituição. “Todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas Berna e Branson Holdings, que estavam em poder da instituição foram fornecidas pela própria Genial ao GAECO-SP. Em relação às operações mencionadas, também foram realizadas as comunicações cabíveis ao COAF, nos termos da legislação e da regulamentação aplicáveis”.

A instituição também alega que “atuou dentro das atribuições que lhe competiam, observando os procedimentos, normas e regulamentos aplicáveis, considerando as informações disponíveis à instituição à época”.

Jovem Pan tenta localizar a defesa de Humberto Tupimambá. O espaço está aberto para manifestação.

Veja abaixo nota na íntegra:

O Banco Genial esclarece que Humberto Tupinambá não integra a Diretoria e não é sócio da instituição desde maio de 2026, quando ocorreu sua destituição.

Todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas Berna e Branson Holdings, que estavam em poder da instituição foram fornecidas pela própria Genial ao GAECO-SP. Em relação às operações mencionadas, também foram realizadas as comunicações cabíveis ao COAF, nos termos da legislação e da regulamentação aplicáveis.

No âmbito dessas operações, a Genial atuou dentro das atribuições que lhe competiam, observando os procedimentos, normas e regulamentos aplicáveis, considerando as informações disponíveis à instituição à época.

A partir do conhecimento dos fatos, a instituição adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo a instauração de processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito, o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios e sua posterior destituição. A Genial também contou com o apoio de especialistas externos para a revisão e o aprimoramento de seus processos e controles.

Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Genial renunciou à administração do Fundo Radford e manteve sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e os documentos solicitados.

A instituição permanece à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações e prestar todos os esclarecimentos que se façam necessários.

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