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Larissa Fonseca

Quando a última gota transborda

Nos últimos dias, vimos apresentadoras deixarem transmissões ao vivo muito impactadas emocionalmente

Larissa Fonseca

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gota Unsplash/Pradeep Raj

Nos últimos dias, vimos apresentadoras deixarem transmissões ao vivo muito impactadas emocionalmente. Mas o que aconteceu diante das câmeras também acontece todos os dias em diversos ambientes profissionais. A diferença é que, na maioria das vezes, não existe uma transmissão para registrar e ampliar aquilo que alguém já vinha suportando em silêncio.

Na Espanha, uma jornalista deixou o estúdio chorando depois de afirmar que vinha se sentindo humilhada durante o trabalho. Ela retornou ao programa após pedidos públicos e privados de desculpas e uma retratação da direção da emissora.

Para quem vê apenas a cena final, a reação pode parecer grande demais. Uma fala atravessada, uma orientação mais dura ou uma brincadeira aparentemente pequena parecem insuficientes para explicar tanto sofrimento. Mas a última gota nunca explica, sozinha, por que o copo transbordou.

O que transborda não começou naquele instante.

Antes de chegar ao limite, a pessoa provavelmente tentou tolerar. Respirou fundo, evitou conflitos, tentou não levar para o lado pessoal e repetiu para si mesma que conseguiria suportar mais um pouco. Talvez tenha se posicionado com cuidado e, depois, com mais firmeza. Quando nada muda, começa a duvidar de si.

Será que estou exagerando? Será que sou sensível demais? Será que outra pessoa suportaria melhor?

É assim que alguém deixa de questionar aquilo que a machuca e passa a duvidar do próprio direito de se sentir vulnerável. Como se a emoção fosse uma falha e, por isso, uma nova habilidade precisasse ser desenvolvida: suportar mais, reagir menos e construir uma blindagem emocional à prova de tudo.

Entre as mulheres, esse peso pode ser ainda maior. Existe uma cobrança para que sejam firmes, produtivas, agradáveis e emocionalmente controladas ao mesmo tempo. Quando se posicionam, podem ser chamadas de difíceis. Quando choram, correm o risco de ter um momento de vulnerabilidade interpretado como fragilidade. Quando suportam, ninguém percebe o esforço necessário para continuar.

Uma pesquisa global da Deloitte, publicada em 2025, ouviu 7.500 mulheres em 15 países e mostrou que apenas 51% avaliaram sua saúde mental como boa. O dado revela que muitas seguem trabalhando, produzindo e cumprindo responsabilidades mesmo quando emocionalmente já não estão bem.

A exaustão raramente nasce de uma única causa. Pode vir da pressão profissional, de uma relação difícil, de uma insegurança, de uma perda, de um medo ou de tudo isso acontecendo ao mesmo tempo.

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Tentamos separar a vida pessoal da profissional, mas o cérebro não funciona por setores. A pessoa que entra em uma reunião é a mesma que recebeu uma notícia difícil, vive uma crise, enfrenta preocupações ou simplesmente está cansada de precisar parecer forte o tempo inteiro.

Por isso, algumas reações parecem desproporcionais apenas para quem desconhece o acúmulo. A emoção que aparece no trabalho pode ter começado fora dele. Da mesma forma, um conflito profissional pode voltar para casa como irritação, ansiedade, tristeza ou dificuldade de estar presente.

Isso não significa justificar qualquer comportamento. Significa compreender antes de julgar.

Também não significa responsabilizar toda a empresa. Uma instituição pode ser séria e ainda assim existir uma relação específica marcada por tensão, desrespeito ou dificuldade de comunicação. Às vezes, o problema está concentrado na conduta de uma pessoa. E uma única relação difícil já pode ocupar espaço demais na vida de alguém.

Talvez o primeiro passo seja parar de se julgar pela reação final. O choro foi apenas o que foi externalizado. A pergunta mais importante é outra: o que vinha sendo acumulado antes dele?

Depois, é preciso organizar os fatos, reconhecer o próprio limite e comunicar o que precisa mudar. Pessoas podem errar, pedir desculpas e reparar uma relação. Mas reparação exige mudança, não apenas explicação.

A última gota chama atenção porque todos conseguem vê-la. O cuidado verdadeiro começa quando você olha para tudo o que vinha enchendo o copo e decide que não precisa continuar suportando até transbordar.

Caros leitores, peço desculpas pela minha ausência. Passei por um período em que a vulnerabilidade emocional afetou minha capacidade de me sentir inteira diante das câmeras e nos bastidores. Situações de desgaste extremo, discussões e conflitos também interferiram na forma como eu conseguia me posicionar e emitir opiniões com a sinceridade que sempre foi a essência desta coluna. Hoje, volto entendendo que reconhecer um limite não diminui ninguém. Ao contrário, impede que o silêncio continue ocupando o lugar da própria voz.