365 dias de sofrimento
Era 07 de outubro de 2023, um sábado de manhã, um dia em que o mundo ficou estarrecido e com os olhos fixos à televisão para testemunhar em tempo real, uma das maiores atrocidades cometidas dentro do estado de Israel. Já nas primeiras horas daquele dia se espalhavam pelo mundo os primeiros relatos da brutalidade em série cometida pelo grupo terrorista Hamas, que com mais de 3 mil homens, invadiu as fronteiras israelenses por terra e pelo ar para violentar, matar e sequestrar mais de 1200 pessoas. O rastro de sangue deixado nos kibutzim do sul de Israel, as centenas de jovens brutalmente mortos em um festival de música eletrônica e as falas de sobreviventes nos deram apenas um prelúdio do sofrimento que estaria por vir para toda a região.
Naquele primeiro momento a vida em Israel foi marcada por imenso luto, a dor de uma nação jovem em ver de maneira tão violenta centenas de seus concidadãos assassinados no maior ataque terrorista da história do país. Também foi um momento de grande inconformismo e incompreensão, de como um dos mais tecnológicos exércitos do planeta, com um dos mais desenvolvidos sistemas de inteligência e prevenção de atentados permitiu com que algo dessa magnitude de crueldade e número de vítimas acontecesse.
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Mas o momento de maior clareza para quem cobre a política do Oriente Médio há alguns anos, é que haveria uma resposta em uma escala incrivelmente maior por parte de Israel. E exatamente dessa maneira aconteceu já nos dias seguintes daquela manhã tenebrosa que hoje completa um ano. A contraofensiva israelense foi tão ou até mais forte quanto previam os analistas, com um saldo humano, econômico e político catastrófico até o presente momento. Além dos cerca de 1200 israelenses mortos, em sua ampla maioria civis, foram mais de 40 mil pessoas mortas dentro da Faixa de Gaza, segundo a autoridade sanitária do enclave controlado pelo Hamas, número contestado pelas autoridades em Jerusalém.
Algumas estimativas mais recentes, mencionam que cerca de 60% de toda a infraestrutura de Gaza foi parcial ou totalmente destruídas, o que promoveu o deslocamento em massa de milhões de palestinos e uma crise humanitária generalizada com acesso escasso a itens básicos, como comida, água potável e remédios.
Além disso, dos 247 reféns sequestrados pelos terroristas, mais de 100 ainda têm sua localização como um mistério, e em muitos casos é completamente desconhecido se estão vivos ou mortos. O custo humano dessa guerra, independentemente das fontes provenientes de Israel e aliados, ou do Hamas e aliados, provam que tem sido o maior para os dois povos desde o início do conflito israelo-palestino há mais de sete décadas.
Se não bastasse a guerra em Gaza, o conflito se espalhou por múltiplos países da região. O Iêmen, nação assolada por uma guerra civil desde 2014, participa eventualmente de ataques de drones contra Israel realizados pelos terroristas do movimento Houthi, facção fundamentalista xiita também financiada pelo Irã. Desde o fatídico 7 de outubro foram muitas as embarcações raptadas ou bombardeadas pelos Houthis no Mar Vermelho, dizendo atuar em nome do “eixo da resistência islâmica”. Na Síria, outra nação acometida por uma guerra civil ainda não concluída, Damasco foi igualmente palco de ataques israelenses em operações de inteligência para eliminar lideranças de grupos fundamentalistas ligados ao Irã.
No território palestino da Cisjordânia, os confrontos entre palestinos civis e o exército de Israel já vitimou mais dezenas de pessoas, além de operações conduzidas pelas IDF para capturar ou neutralizar indivíduos com ligações ao Hamas, Jihad Islâmica e outros grupos radicais. E eis que chegamos ao vizinho israelense mais próximo de uma guerra total, o Líbano. Desde outubro de 2023, o grupo fundamentalista xiita Hezbollah bombardeia o norte de Israel, que por sua vez, bombardeou o sul do Líbano.
Após um recrudescimento desse conflito, operações mais extensas foram conduzidas em território libanês o que promoveu a morte de milhares de pessoas no país, além do deslocamento de mais de 1 milhão de sírios e libaneses para outras partes das duas nações. Por fim, temos pela primeira vez em 45 anos, a República Islâmica do Irã, o cérebro por trás de muitos desses grupos e atentados, realizando ataques explícitos a Israel diretamente de seu território, o que colocou frente a frente de maneira inédita desde 1979 os dois principais exércitos do Oriente Médio.
Politicamente o mundo também se dividiu em torno desse conflito, cada grupo associado a causa que acha mais justa. Uns acreditam que o direito de defender suas fronteiras e sua população, por parte de Israel é o mais justo, enquanto outros creem que o direito à soberania e autodeterminação do povo palestino é o que deveria ditar as conversas para solucionar essa guerra. Após conhecer os dois territórios, conclui que ambas as causas são justas e que não são mutuamente excludentes.
Em um mundo ponderado terroristas que atuam como terroristas são chamados pelos jornalistas daquilo que são sem medo, onde uma nação soberana tem o direito legítimo de proteger e defender suas fronteiras, mas onde também um povo de certa língua, etnia e costumes pode ter um país para chamar de seu e ser assim reconhecido pelo mundo. Infelizmente, cobrindo esse conflito há exato um ano, quase todos os dias de maneira extensa, chego à conclusão de que nunca antes nessas várias décadas de guerra, a solução de dois estados esteve tão longe de ser alcançada, e mais do que isso, acredito que muito provavelmente deixará de ser cogitada de vez quando essa guerra acabar.
A caixa de Pandora aberta pelo Hamas continua trazendo repercussões gravíssimas para todo o Oriente Médio, onde judeus, muçulmanos, cristãos, entre tantas outras pessoas de outras fés, têm morrido, perdido suas famílias e casas em um cotidiano de constante desesperança. Hoje o conflito segue em um estado de crescente tensão e imprevisibilidade, onde negociações pela paz seguem paradas, onde novos jogadores têm adentrado o campo militar e onde os horizontes de esperança diminuem a cada novo amanhecer após 365 dias de sofrimento.
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