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Ricardo Motta

A conta escondida nas promessas políticas de outubro: quem vai pagar em 2027?

Para quem vende, compra, contrata ou financia, a pergunta que importa é quem vai pagar, e de que jeito

Ricardo Motta

Lula durante sabatina na TV Globo
Lula durante sabatina na TV Globo Reprodução/TV Globo

Janeiro de 2027. Quem assumir o Palácio do Planalto vai receber, junto com a faixa, uma lista de compromissos fechados nas últimas semanas de campanha. Alguns começam a valer no primeiro dia do ano. Um deles vence antes mesmo da posse. Vários vieram sem a conta fechada.

Para quem vende, compra, contrata ou financia, a pergunta que importa é quem vai pagar, e de que jeito.

A herança já tem calendário

O reajuste do Bolsa Família começa a ser pago nesta segunda-feira, dia 19. A proposta de Orçamento de 2027, enviada pelo governo ao Congresso em agosto, foi elaborada antes do reajuste e não contempla o aumento. Só esse item acrescenta cerca de R$ 22 bilhões às despesas do ano que vem.

O novo teto do MEI e o perdão das dívidas da categoria com a União foram aprovados na Câmara por ampla maioria. Agora seguem para o Senado, ainda sem data para votação. O perdão está previsto para 1º de janeiro, e o teto sobe em duas etapas, em 2027 e 2028. O Pix MEI foi anunciado sem critérios de acesso definidos. O Desenrola 3.0, que compra dívidas antigas com grandes descontos, vai até meados de 2028 e depende de recursos dos próximos orçamentos. Some-se a isso o fim das apostas online, que retira receitas do caixa federal.

E há o prazo mais curto de todos. A gasolina sem tributos federais vale até 9 de novembro, duas semanas depois do segundo turno. O governo já disse que pode prorrogar a medida. Sem prorrogação, o imposto volta, e parte dele pode chegar à bomba. Se houver prorrogação, alguém terá de explicar de onde sairá o dinheiro em 2027.

Um orçamento que já nasceu apertado

Ao analisar a proposta de Orçamento enviada em agosto, a Instituição Fiscal Independente, órgão técnico do Senado, calculou que seria preciso contingenciar cerca de R$ 36 bilhões em despesas no ano que vem para cumprir a meta fiscal. Em outras palavras, segurar gastos que já estavam previstos. As medidas das últimas semanas chegam por cima.

O governo afirma que vai acomodar o Bolsa Família remanejando despesas e que o alívio na gasolina é coberto por receitas extraordinárias do petróleo. Pode dar certo. Mas remanejar significa tirar de algum lugar, e receita extraordinária, por definição, não se repete todo ano.

Três saídas, o mesmo bolso

Quando a despesa cresce e a receita não acompanha, as saídas costumam se resumir a três. Todas chegam ao consumidor, cada uma por uma porta.

A primeira é cortar. Quem não acompanha a execução do Orçamento percebe o corte quando a obra para no meio da estrada ou a fila do posto de saúde fica ainda maior.

A segunda é arrecadar mais. Imposto novo raramente fica parado na empresa. Costuma ser repassado ao preço, e o consumidor paga mais pelo que compra, muitas vezes sem saber por quê.

A terceira é se endividar. Governo que toma mais emprestado disputa dinheiro com quem produz, e a diferença pode aparecer na parcela do carro e no rotativo do cartão. Com os juros básicos ainda altos e o Banco Central em tom cauteloso, essa é a porta que mais preocupa.

O consumidor em janeiro

Pense na família que planejou 2027 contando com o benefício reajustado e com a gasolina mais barata. Basta um dos dois mudar para a conta desandar. E quem conseguir limpar o nome pelo Desenrola volta ao crédito justamente quando ele corre o risco de encarecer.

Colocar mais dinheiro na mão das famílias de baixa renda aquece o comércio no curto prazo, e o varejo tende a sentir isso no fim do ano. O problema vem depois. Minha leitura é que gastos contratados em outubro sem fonte garantida para 2027 tendem a cobrar seu preço mais adiante, e os juros são um dos caminhos mais prováveis.

A empresa sem bússola

Para o empresário, a dificuldade está em decidir sem saber qual caminho será escolhido. Contratar em janeiro, reforçar o estoque para o primeiro trimestre, assinar contratos longos, tomar crédito para investir. Cada uma dessas decisões depende de variáveis que ninguém consegue precificar com segurança hoje.

O caso do MEI mostra o dilema. O perdão alcança sobretudo dívidas que a União dificilmente receberia, e o teto estava congelado havia anos. Isoladamente, a medida tem defesa. O problema está na soma. Quando tudo recai sobre o mesmo orçamento ao mesmo tempo, quem planeja perde a previsibilidade de que depende.

O risco é ver empresas adiando decisões à espera da primeira proposta concreta de quem assumir. Esse compasso de espera também custa, e o preço aparece na vaga que não abre.

A pergunta que fica

Cada medida, olhada isoladamente, encontra quem a defenda. A pergunta que o leitor pode levar para casa é outra: quem assumir em janeiro vai receber os recursos para honrar essas promessas ou apenas a obrigação de cumpri-las?

No comércio, promessa com data para começar e sem data para ser paga tem nome antigo: venda a fiado. E o fiado, cedo ou tarde, chega ao balcão.

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