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Ricardo Motta

Se você não for votar, alguém vai decidir por você. E não vai te consultar

Não existe abstenção neutra. Quem fica em casa não anula a eleição, apenas aumenta o peso relativo do voto de todo mundo que apareceu

Ricardo Motta

Urna eletrônica fotografada antes do início das Eleições 2010
Urna eletrônica Jonnie Roriz/Estadão Conteúdo

Existe um tipo de eleitor que se acha acima da eleição. Repete que são todos iguais, que voto não muda nada, que política não é para ele. Acredita estar demonstrando lucidez. Está apenas transferindo, de graça, o poder de decisão dele para quem tem paciência de acordar cedo num domingo.

Não existe abstenção neutra. Quem fica em casa não anula a eleição, apenas aumenta o peso relativo do voto de todo mundo que apareceu. O resultado sai do mesmo jeito, só que montado sem ele.

Três desculpas que não sobrevivem a dois minutos de análise

A primeira é que são todos iguais. Não são. Em 4 de outubro estarão em disputa candidatos com projetos opostos sobre carga tributária, segurança pública, previdência e papel do Estado na economia. Quem afirma que não há diferença normalmente não olhou. Achar que todos são ruins é uma opinião legítima. Achar que todos são idênticos é preguiça travestida de ceticismo.

A segunda é que um voto não muda nada. Em 2020, na cidade de Kaloré, no interior do Paraná, dois candidatos a prefeito terminaram a apuração com exatamente 1.186 votos cada. Ninguém venceu na urna. A prefeitura foi definida pelo artigo 110 do Código Eleitoral, que manda eleger o mais idoso em caso de empate. Nas municipais de 2016, seis cidades brasileiras elegeram prefeito por um único voto de diferença. Em qualquer uma delas, um único eleitor a mais poderia ter mudado a história. Inclusive um dos que ficaram no sofá.

A terceira é que política não é assunto dele. É. Preço de combustível é política. Fila de exame é política. Quanto sobra do salário depois dos impostos é política. Quanto tempo uma empresa leva para abrir e quanto custa mantê-la aberta é política. Quem se declara alheio à política continua pagando a conta dela integralmente, só que sem opinar.

Vale lembrar quem pagou a conta desse direito que hoje parece paisagem. Ele tem menos de quarenta anos na forma atual. Em 25 de abril de 1984, faltaram 22 votos na Câmara dos Deputados para aprovar a emenda Dante de Oliveira e devolver ao brasileiro a escolha direta do presidente. O país só voltou a eleger um presidente por voto direto em 1989. E antes disso o direito nem valia para todos: as mulheres só passaram a votar em 1932, com o Código Eleitoral instituído pelo Decreto 21.076, e os analfabetos, excluídos desde 1881, só o recuperaram com a Emenda Constitucional 25, de maio de 1985. A Constituição de 1988 consolidou o voto universal.

Cada uma dessas datas foi resultado de gente que se organizou e brigou por um direito que ainda não tinha. Fizeram isso sem garantia de vitória. A geração que herdou o resultado reclama de fila e estacionamento.

Seis escolhas, e você provavelmente só pensou em uma

No dia 4 de outubro, cada eleitor vota para deputado estadual (ou distrital, no Distrito Federal), deputado federal, dois senadores, governador e presidente da República. Se governador ou presidente não alcançarem maioria absoluta dos votos válidos, os dois mais votados voltam à urna em 25 de outubro.

Aqui está o ponto que quase ninguém enfrenta com honestidade. Muita gente chega com o voto para presidente decidido e improvisa os outros cinco na fila. Improvisa justamente os votos que mais interferem no dia a dia. O deputado estadual vota o orçamento de saúde e educação do seu estado. O deputado federal aprova ou trava reforma tributária, marco regulatório e legislação trabalhista. O senador aprova indicações para tribunais superiores e agências reguladoras, gente que vai decidir sobre a sua vida por décadas.

Votar por impulso em cinco dos seis cargos não é participação. É preencher formulário. Quinze minutos pesquisando o histórico de quem vai receber esses votos já colocam o eleitor à frente de boa parte de quem comparece.

Há ainda o eleitor que não despreza nada disso e mesmo assim não vai. O dia 12 de outubro cai numa segunda-feira em 2026 e vai encher a estrada. Aproveite. Só que 4 e 25 de outubro são domingos, com data marcada há meses, e nenhuma passagem aérea muda isso. Quem programa viagem sabendo que ela atropela a eleição não teve azar, fez uma escolha.

Quem estiver fora do município do seu título pode justificar a ausência, e depois da eleição há prazo de até 60 dias para regularizar cada turno. Isso resolve a pendência com a Justiça Eleitoral. Não resolve a outra parte. A justificativa não devolve o voto, e o resultado sai montado por quem estava presente.

Na urna, o seu chefe aperta a mesma quantidade de teclas que você

O dono da empresa e o funcionário dela fazem as mesmas seis escolhas. Não existe voto premium. Dinheiro, cargo e patrimônio não compram um segundo voto ali dentro. É uma das raras situações da vida brasileira em que isso é literalmente verdade.

Se você acha que segurança pública precisa melhorar, que o custo de fazer negócio no Brasil é insustentável, que a saúde do seu município é indigna, existe um domingo em que essa opinião vira número dentro de um sistema que é obrigado a contá-la. Fora dele, ela é conversa de mesa.

Pesquise, anote os números, leve os seis votos decididos de casa e apareça nos dois turnos. Não porque a lei manda, mas porque a alternativa é passar quatro anos reclamando de decisões que você teve a chance de influenciar e escolheu não influenciar. Isso não é ceticismo. É abrir mão.

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