Documentário ‘Você Não é um Soldado’ destaca os obstáculos da cobertura jornalística em zonas de guerra

Em meio a constantes tiros e conflitos que presenciou ao redor do mundo, os desafios profissionais e pessoais do premiado André Liohn compõem o enredo da obra

  • Por William Amorim
  • 04/12/2021 09h00 - Atualizado em 04/12/2021 10h19
Divulgação/André LiohnTrajetória de André Liohn no fotojornalismo é explorada em 'Você Não É um Soldado'

Tensão, tiros frenéticos, perigo iminente, como é viver em meio a guerras e conflitos em nome da notícia? O documentário “Você Não É um Soldado”, dirigido por Maria Carolina Telles, acompanha o trabalho do premiado fotojornalista André Liohn, que já fez coberturas em países como Iraque, Afeganistão, Somália, Líbia, Congo, Síria, Venezuela, Tunísia e Egito. Em entrevista à Jovem Pan, o jornalista disse que acha estranho se ver como tema central da produção, pois sua intenção sempre foi noticiar os fatos. Por outro lado, ele entende a relevância de retratar como é espinhosa a missão de conseguir mostrar ao mundo o que acontece em áreas de guerra. “Estamos passando por um momento em que o jornalismo está sendo muito atacado, está sendo muito desacreditado, as pessoas com poder querem desmoralizar jornalistas, independente de visões políticas, pois se sentem incomodadas com nosso trabalho. O filme documental mostra o quanto é difícil produzir informação, os preços que temos que pagar e os riscos que aceitamos para a informação ser passada com qualidade.”

Um barulho constante de tiros domina o documentário e o que se vê em André não é medo, mas uma ânsia por registrar cada momento. Em certa parte da produção, ele quase que implora para um soltado deixar ele chegar perto de uma área de risco, mas é impedido por não ser um soldado. “Eu suporto aquilo. Tenho uma resistência grande ao medo e à pressão emocional. Fico concentrado em tudo o que está acontecendo porque as imagens precisam ser contextualizadas, isso é o jornalismo. Sempre mantive meu foco, se eu não fosse capaz de fazer isso, eu não seria a pessoa certa para estar lá”, comentou. Mesmo passando por vários campos de batalhas, André afirmou que o trabalho mais difícil emocionalmente que enfrentou não foi em um cenário de guerra e não está presente no documentário. “Fiz um trabalho recente no Panamá e lá existe uma floresta que é uma rota migratória. As pessoas estão tentando atravessá-la para chegar aos Estados Unidos. Elas vão a pé por cerca de uma semana sem nenhum treinamento, sem equipamentos e, pior ainda, sem nenhuma chance concreta”, contou.

Ver a luta dessas pessoas de perto foi difícil para André, porque essas pessoas estão vivendo em condições desumanas e ele diz ter se sentido inútil por não poder colaborar como gostaria. “São pessoas que estão sofrendo com fome, diarreia e outras doenças horríveis, sem dinheiro, abandonadas. Elas estavam tendo uma vida razoavelmente normal, mas devido à situação econômica do mundo, essas pessoas estão sofrendo dores inimagináveis. São pessoas que precisam de uma ajuda objetiva, de dinheiro, de comida, de remédio”, falou. André é pai de dois filhos, Lyah Azzura, de 14 anos, e Anton Dannill, de 11 anos, e ver tantas famílias com crianças precisando de coisas básicas mexeu com seu emocional. Segundo ele, um dos maiores desafios do seu trabalho como fotojornalista de guerra é justamente ter que ficar afastado da sua família. “Sempre foi muito difícil me despedir dos meus filhos e da minha esposa para ir trabalhar, mas é algo que precisa ser feito. Eu não espero ter que fazer esse trabalho pelo resto da minha vida, espero que em algum momento eu possa me dedicar mais ao ensino”, contou o fotojornalista, que atualmente mora na Itália.

Relação com a fotografia

Pai de André Liohn

Foto que André Liohn tirou do pai é seu maior orgulho – Fonte: Arquivo Pessoal/André Liohn

André, que atualmente tem 47 anos, nunca foi fissurado em fotografia e a carreira como fotojornalista começou quando tinha 30 anos.  “Sempre me interessei por contar histórias, mas era formado em comércio exterior, vivia na Noruega e trabalhava na área. Mesmo sentindo que o comércio exterior estava satisfazendo a minha curiosidade de saber sobre o mundo, pois viajava muito, ele não me aproximava de temas que eu me preocupava, como questões migratórias e conflitos que não entendia por que estavam acontecendo. O método que encontrei para isso foi a fotografia e, lentamente, eu fui entendendo que tinha aptidão para isso”, falou.

O fotojornalista esteve em várias partes do mundo e contou muitas histórias por meio de suas imagens, mas a foto que André tem mais apego é uma que tirou do seu pai, José Garcia de Oliveira. “Estávamos em Rubião Junior, em São Paulo, onde eu nasci e passei minha infância, que foi conturbada, difícil e num ambiente hostil e pobre. Fiz uma foto do meu pai após ele me dizer que mesmo depois de tudo o que ele passou lá, ele gostava e queria preservar aquele lugar. É uma foto que tenho bastante orgulho, sinto que com ela eu pude me pacificar com meu pai, pude sentar com ele e ouvir seus motivos, seus problemas e consegui enxergar ele como um ser humano que fez o seu melhor ao invés de ficar julgando ele como se eu fosse um filho egoísta.” A relação do jornalista com seus pais também está presente no documentário “Você Não É um Soldado”, que em breve estará disponível na HBO Max. André está passando uma temporada no Brasil e prepara um workshop para os próximos dias 6 e 10 de dezembro na Galeria Metrópole, em São Paulo. Para saber mais detalhes e para participar, basta entrar em contato com ele pelas redes sociais.