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Como a lesão muscular que tirou Pelé da Copa do Mundo de 1962 consagrou o substituto Amarildo

O estiramento no músculo adutor da coxa esquerda do Rei abriu espaço para o brilho do atacante do Botafogo, apelidado de 'Possesso', na campanha do bicampeonato no Chile

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Pelé
Pelé comemora gol pela Seleção Brasileira contra a Checoslováquia com um soco no ar, gesto que criou logo no início da carreira DOMICIO PINHEIRO/ESTADÃO CONTEÚDO

A lesão muscular que tirou Pelé da Copa do Mundo de 1962 foi um estiramento no músculo adutor da coxa esquerda, popularmente conhecido como uma forte distensão na virilha. O trauma ocorreu logo no segundo jogo da fase de grupos, no empate sem gols contra a Tchecoslováquia. Embora o país tenha temido o pior com a perda de sua maior estrela, o jovem atacante Amarildo brilhou em seu lugar ao assumir a titularidade, marcar três gols cruciais no torneio e se tornar um dos grandes heróis do bicampeonato mundial da Seleção Brasileira.

O drama do Rei e a lesão que parou o Brasil

O ano de 1962 foi marcado por um desgaste físico absurdo para Pelé. O Santos vivia uma rotina intensa de viagens e amistosos comerciais por todo o mundo, fazendo com que o camisa 10 chegasse ao Chile completamente sobrecarregado. Após estrear com um gol antológico na vitória por 2 a 0 contra o México, o corpo do atleta cobrou o preço do excesso de partidas logo no duelo seguinte.

No dia 2 de junho de 1962, em Viña del Mar, o Brasil enfrentava a Tchecoslováquia. Aos 25 minutos do primeiro tempo, ao arriscar um chute de longa distância que explodiu na trave, o Rei sentiu uma fisgada insuportável na perna esquerda. Como as regras da época não permitiam substituições, Pelé permaneceu em campo fazendo número na ponta esquerda. Em uma rara demonstração de espírito esportivo, os defensores tchecos, sabendo que o craque estava sem condições físicas, evitaram desarmá-lo com força quando ele recebia a bola.

Nos bastidores da concentração brasileira, o clima era de profunda consternação. O departamento médico, liderado pelo doutor Hilton Gosling, iniciou um tratamento intensivo baseado em compressas de água quente e massagens frequentes no local. Sem os recursos diagnósticos e terapêuticos modernos, as tentativas de recuperação foram em vão. O próprio Pelé, desolado, passou a chorar constantemente em seu quarto ao perceber que não conseguiria voltar a atuar naquele Mundial.

A fantástica trajetória do Possesso no Chile

Com o desfalque do Rei confirmado, o técnico Aymoré Moreira recorreu a um jovem atacante do Botafogo de apenas 22 anos. Amarildo, que recebeu o apelido de “Possesso” devido à sua energia incansável e temperamento forte em campo, assumiu a histórica camisa 10 com extrema personalidade, dividindo a responsabilidade da criação ofensiva ao lado do genial Mané Garrincha.

A trajetória de Amarildo na Copa do Chile foi curta, mas avassaladora, consolidando-se como um dos maiores exemplos de superação coletiva do futebol mundial. Abaixo, confira o desempenho do atacante nos quatro confrontos que definiram o título brasileiro:

  • Brasil 2 x 1 Espanha (Fase de Grupos): Na sua estreia, no jogo mais tenso do torneio, Amarildo anotou os dois gols da virada que salvaram o Brasil da eliminação precoce.
  • Brasil 3 x 1 Inglaterra (Quartas de Final): O atacante deu grande dinâmica de movimentação ao ataque, abrindo espaços para Garrincha destruir a defesa inglesa.
  • Brasil 4 x 2 Chile (Semifinal): Enfrentando a pressão da torcida local, o jogador teve papel decisivo ao segurar a bola no campo de ataque e criar jogadas de perigo.
  • Brasil 3 x 1 Tchecoslováquia (Final): Após o adversário abrir o placar, Amarildo marcou o gol de empate quase sem ângulo, recolocando o Brasil no caminho do bicampeonato.

Da água quente em 1962 à tecnologia de ponta na atualidade

A enorme diferença entre a medicina esportiva da década de 1960 e os métodos modernos ajuda a entender o tamanho do desafio enfrentado pela Seleção Brasileira naquele ano. Na época da Copa do Chile, a ausência de exames de imagem detalhados impossibilitava os médicos de enxergarem a real extensão das fibras musculares rompidas pelo estiramento de Pelé.

Atualmente, um jogador que sofre uma lesão no adutor da coxa passa por exames de ressonância magnética de alta resolução em poucas horas. O tratamento contemporâneo envolve terapia de ondas de choque, laser de alta intensidade e protocolos de transição física acelerados que reduzem drasticamente o tempo de recuperação. Se a tecnologia médica de hoje estivesse disponível em 1962, a lesão do Rei do Futebol teria sido tratada de forma muito mais precisa, possivelmente permitindo seu retorno aos gramados antes do apito final do torneio.

Mesmo com a trágica perda de Pelé no início da campanha, a Seleção de 1962 encontrou em Amarildo a ousadia e a frieza necessárias para preencher o vazio deixado pelo camisa 10. O sucesso do “Possesso” no Chile imortalizou seu nome na história do esporte, mostrando que o brilho de um elenco forte pode superar até a ausência do maior jogador de todos os tempos.