Turquia deixa pacto contra violência de gênero, e mulheres vão às ruas em protesto
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, retirou o país da Convenção de Istambul, um tratado internacional que determina a igualdade de direitos entre homens e mulheres e combate a violência de gênero. Criado em 2011 na maior cidade da Turquia, o pacto vinha sendo alvo de críticas entre os conservadores, que argumentavam que o acordo prejudicava valores familiares tradicionais, encorajava o divórcio e defendia a comunidade LGBTQI+. Ao anunciar a decisão neste sábado, 20, o gabinete presidencial garantiu que a saída do tratado não significará retrocessos nas regulamentações sobre violência doméstica e direito das mulheres. No entanto, a atitude de Erdogan causou indignação entre a oposição, os defensores dos direitos humanos e a comunidade internacional.
Neste domingo, 21, milhares de manifestantes foram às ruas na Turquia exigindo o retorno do país à Convenção de Istambul. Enquanto isso, a secretária-geral do Conselho da Europa, Marija Pejčinović Burić, classificou a decisão como “um grande revés” para os esforços no combate à violência contra a mulher, além de “deplorável”, porque deve comprometer “a proteção das mulheres da Turquia”. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, também se posicionou sobre o tema, dizendo que a retirada “repentina e injustificada” do tratado foi “profundamente decepcionante” e representou “um retrocesso desanimador para o movimento internacional pelo fim da violência contra as mulheres”.
Como a Turquia não divulga números de feminicídio separadamente, o único dado disponível sobre o tema é uma estimativa da organização não-governamental “We Will Stop Feminicide”, que aponta que um total de 77 mulheres morreram vítimas da violência de gênero no país desde o início de 2021. No ano passado, o total teria sido de 409, sendo que dezenas de outras mulheres foram encontradas mortas sob circunstâncias suspeitas. A Organização Mundial da Saúde afirma ainda que 38% das mulheres turcas já sofreram violência de um parceiro em algum momento da vida. Para efeito de comparação, na Europa essa média é de 25%. Em janeiro, um caso de violência contra a mulher na Turquia alcançou repercussão internacional: durante um acesso de raiva, um homem jogou água fervente na esposa por tê-lo acordado para tomar café da manhã. Ali Ay, de 28 anos, foi preso por autoridades por atentar contra a vida da esposa, Rukiye Ay, de 23 anos, que teve ferimentos graves nas costas e chegou a desmaiar de dor.
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