Avó da Praça de Maio diz que encontrar netos é uma forma de vencer a ditadura

  • Por Agencia EFE
  • 08/04/2015 18h51
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Bogotá, 8 abr (EFE).- A presidente da associação Avós de Praça de Maio, Estela de Carlotto, afirmou nesta quarta-feira em Bogotá que todas as crianças desaparecidas durante o regime militar argentino recuperadas “são um triunfo sobre uma ditadura feroz que os tratava como um espólio de guerra”.

Durante o painel “Mães da paz: crônicas de um caminho pela verdade” que faz parte da Cúpula Mundial de Arte e Cultura para a Paz na Colômbia, realizada esta semana em Bogotá, Estela, acompanhada de seu neto Guido, assinalou que tem “muita vontade de continuar” trabalhando para recuperar os netos desaparecidos durante a ditadura.

Em agosto de 2014 Estela se encontrou com seu neto, filho de Laura, uma militante universitária peronista, sequestrada e assassinada pela ditadura em 1977. Após ser tomado de sua mãe, ele foi entregue para a família que o criou.

“O encontro com Guido iluminou minha vida”, afirmou a ativista de 84 anos, contando que seus amigos disseram ter rejuvenescido após o reencontro com o neto.

Por isso, explicou, continuará trabalhando para “encontrar outros netos”, o que a fazia feliz antes de encontrar Guido.

Durante sua busca “marcada pela incógnita”, lembrou, “fui acompanhada pela presença de minha filha assassinada durante a ditadura, e prometi a ela que lutaria para encontrar a justiça”.

Estela destacou que quando começou a atuar na organização Avós da Praça de Maio, era “somente uma professora” que começou a lutar para recuperar sua filha, e depois seu neto, como um ato de amor maternal, pois não era politicamente ativa antes da ditadura.

“Todas as mães do mundo amam seu filhos e se não os vêm por uma noite os buscarão eternamente”, assinalou, observada pelos atentos olhos de seu neto que a acompanhava hoje.

Em referência à possibilidade de perdão e reconciliação, como exemplo aplicável à Colômbia, onde o governo e a guerrilha das Farc negociam há mais de dois anos para pôr fim ao conflito armado no país que já dura mais de 50 anos, Estela assinalou que isso é algo que deve ser feito individual, não coletivamente.

“Não aceitamos a palavra reconciliação, como (também não) verdade e reconciliação, mas verdade e justiça porque eu não briguei com ninguém, me agrediram”, acrescentou.

Além disso, disse que muitas vezes foi perguntada “vocês não perdoam?”, e sempre respondeu que ela não tem o que perdoar, mas sua filha Laura, sim: “se ela os perdoar eu estarei bem”, acrescentou.

Após lembrar suas visitas a militares “de altíssima patente” para pedir liberdade para sua filha quando ainda estava presa, assinalou que “o medo é um sentimento horrível quando paralisa, e dele se serviram os militares (da ditadura) e os assassinos”.

No entanto, destacou que ela não é “uma mulher corajosa, mas muito otimista”, e que isso a fez se unir a uma organização nascida como movimento espontâneo em 1977, quando um grupo de mães começou a marchar toda quinta-feira ao redor da Praça de Maio para pedir a libertação de seus filhos.

O grupo se transformou na associação Mães da Praça de Maio e posteriormente evoluiu para Avós da Praça de Maio, um coletivo que foi indicado cinco vezes ao prêmio Nobel da Paz e recebeu o prêmio Félix Houphouët-Boigny, dado pela Unesco.

“Estamos lutando com amor e em paz para que os soberanos façam o que o povo pede”, concluiu Estela, ao ressaltar que usam bengalas porque “as avós nunca se ajoelham”. EFE

gdl/cd

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