Luto na pandemia: Ausência do ritual de despedida gera traumas e até patologias

Psiquiatras aconselham a realização de algum tipo de ritual, como a videochamada, para evitar consequências maiores diante da impossibilidade de se despedir do ente querido morto

  • Por Camila Corsini
  • 20/09/2020 07h00 - Atualizado em 20/09/2020 08h22
Estadão ConteúdoO luto, em si, não é uma doença -- mas pode se tornar patológico, a depender da história prévia do indivíduo e do contexto

A imagem de um jovem palestino que, em julho, escalava diariamente a fachada de um hospital para ver a mãe infectada com Covid-19, na cidade de Hebron, na Cisjordânia, correu o mundo por meio das redes sociais. O rapaz não pode se despedir dela, que morreu, assim como os parentes das mais de 947 mil vítimas do novo coronavírus pelo mundo. A despedida de um corpo, por meio de um velório, é considerada essencial em algumas culturas — e algumas pessoas, independente da crença, precisam desse momento para racionalizar a morte do ente querido. “O velório é um ritual muito importante, que ajuda a trazer um ambiente de segurança no meio de uma crise — que é a perda de uma pessoa significativa. O momento é o espaço de despedidas, de ver o corpo pela última vez e de ter pessoas queridas por perto. A elaboração das perdas atualmente, durante a pandemia, sofreu grandes interferências”, explica Maria Julia Kovács, coordenadora do Laboratório de Estudos Sobre a Morte (LEM), do Instituto de Psicologia da USP

Durante a pandemia, velórios e cerimônias estão proibidos por conta do risco de contaminação pelo novo coronavírus. Em geral, o caixão é lacrado e levado diretamente ao túmulo ou à cremação acompanhado por poucos familiares — no máximo 10. “Podemos dizer que há sérias perturbações nos processos de luto e isso pode dificultar a elaboração das perdas. Há uma previsão de que muitas pessoas tenham seu sofrimento intensificado e dificuldade de se adaptar à nova realidade sem a pessoa querida”, completa Maria Julia. De acordo com ela, a perda está no nível da consciência e por isso traz tanto sofrimento.

Segundo o médico psiquiatra Ewerton Teixeira, a não realização de rituais de despedida pode acarretar numa dificuldade tanto do processo de morrer, pelo doente, quanto à experiência e elaboração do luto. “O velório é um espaço seguro de expressão do sofrimento, além de um momento em que se pode receber afago de pessoas queridas e realizar ações simbólicas de despedida. Os rituais são atos simbólicos que nos ajudam a expressar nossas emoções diante de uma perda, é uma forma saudável de organizar nossas emoções, que estão todas bagunçadas naquele momento. Portanto, todas essas limitações certamente têm um impacto negativo.”

Teixeira explica que, fora do contexto da pandemia, o ritual de despedida pode acontecer ainda antes do óbito. “É estimulada a resolução de questões mal resolvidas, compartilhamento de bons momentos vividos e pedidos de perdão ou agradecimentos. Todo esse ritual auxilia tanto no processo de morrer quanto na elaboração do luto. Apesar do esforço dos profissionais de saúde em promover despedidas entre doentes e familiares através de videochamadas, por exemplo, muitos pacientes acabam morrendo sozinhos e sedados, conectados a dispositivos.” Ele destaca a importância de tentar, dentro das possibilidades, manter os rituais de alguma forma. “Uma sugestão para aqueles que não puderem comparecer ao enterro é pedir aos presentes, ou até mesmo à funerária, que realize uma videochamada do momento — ou que alguma música seja tocada, alguma declaração lida e até algum objeto seja deixado.”

Importância dos ritos

No Brasil, um país com dimensões continentais e tantas crenças, cada religião dita rituais diferentes para o processo do velório. Todas elas, sem exceções, tiveram que se readaptar ao contexto da Covid-19 e aprender a lidar com a morte de maneira diferente. “Os ritos funerários existem em todas as culturas e são maneiras que nós, como humanos, encontramos para enfrentar a finitude do corpo. Os rituais vão ser diferentes de uma cultura pra outra, porque as maneiras de se expressar, os costumes, a história, são muito distintas”, explica a antropóloga e historiadora Andreia Vicente, professora da Unioeste. Segundo ela, de maneira geral, pode-se dizer que um funeral tem três objetivos: fazer o vivo entender a perda e dar descanso ao morto, ajudar a expressar os sentimentos e mostrar que, através de um ritual, a sociedade vence aquilo que é invencível — a morte. Criar maneiras de entender que aquela pessoa não desapareceu, mas está em outro lugar. 

No catolicismo, religião de cerca de 50% dos brasileiros, de acordo com uma pesquisa do Datafolha divulgada no início de 2020, os velórios são marcados pela presença de velas, terços, rezas e histórias sobre o ente falecido — além da realização de missa de 7 º dia e de um mês, que tem o objetivo de auxiliar na passagem do espírito para o céu ou inferno, e a ida aos túmulos no dia de Finados. “Você homenageia o morto e dá aos vivos o momento de tomar consciência de que aquela morte aconteceu”, explica Andreia. No entanto, para outros cristãos é um processo distinto. Para os protestantes e evangélicos, por exemplo, as orações feitas são para os vivos aceitarem a perda — não ao morto — e velas não costumam ser acesas. 

Já para os espíritas, que acreditam na reencarnação, o morto sempre vai estar no entorno dos vivos. “Em geral, nessas cerimônias, é trabalhada a serenidade, a paz e o desapego, para que a pessoa falecida possa encontrar o caminho da luz e renascer. Os ritos visam dar ao morto a condição de que ele não esteja apegado ao mundo dos vivos e aceite seu novo lugar. Isso se expressa na contenção dos sentimentos. Por isso vemos um sofrimento entre os vivos que, apesar de existir, é mais contido”, explica a antropóloga e historiadora.

Se no universo urbano o ritual funerário é curto — dura, em média, 24 horas entre morte, velório, procissão e enterro –, para os indígenas, o rito é totalmente diferente. Entre os bororós, no Mato Grosso, por exemplo, o velório pode durar três meses e se divide em várias partes. “Antes mesmo da pessoa estar fisicamente morta, os familiares já pintam o rosto, cabelo e corpo do moribundo na preparação para a nova posição dele. Após a morte, o corpo é enterrado em cova rasa — e um bom tempo depois, quando os ossos estão limpos, eles são lavados em um rio e jogados em uma baía. Só assim, conforme a cultura, o morto está definitivamente enterrado. O ‘segundo enterro’ é muito comum nas comunidades indígenas porque marca a transformação de pessoa em ancestral”, conta Andreia Vicente.

Já em religiões afro-brasileiras, como o candomblé, o momento do velório é marcado por desfazer o ritual de feitura do santo — que acontece na iniciação da pessoa na religião. “É um ritual muito importante; retirar o santo que foi colocado da cabeça do morto. Para isso você corta o cabelo, lava a cabeça e, na cerimônia, transfere o santo para alguns objetos”, explica a professora. Em geral, o ritual afro-brasileiro é mais complexo, porque depende de quanto tempo a pessoa é iniciada na religião e da graduação dentro do terreiro. As cerimônias internas continuam e várias festas são realizadas após meses e até anos depois do óbito.

O Luto

Para explicar o luto, é importante destacar que ele, em si, não é uma doença — mas pode se tornar patológico a depender da história prévia do indivíduo e do contexto. Nesses casos, são esperados quadros de estresse crônico, que pode culminar em doenças psíquicas como ansiedade e depressão, e até levar a patologias clínicas, como: taquicardia, sensação de aperto no peito, tonturas, alteração no humor e dificuldades de concentração. “Cada pessoa assimila perdas e traumas de uma forma diferente, e isso é extremamente individual. Não existe uma regra, e depende muito de características próprias ligadas à personalidade, resiliência e ao tipo e intensidade do trauma vivido”, diz o psiquiatra. 

Em 1969, a psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross publicou um livro chamado Sobre a morte e o morrer, onde descreveu cinco estágios do luto. São eles: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Hoje já não se fala mais neles, porque o processo é visto de forma individual. “Não trabalhamos mais com eles porque acabam sendo vistos como um modelo que todos têm que passar. Quem não passa, é considerado como tendo um luto anormal. É mais importante ver como cada pessoa vive o seu processo de luto, como lida com seus sentimentos e como organiza a vida sem a pessoa querida. É um processo que segue um caminho próprio para cada pessoa”, diz Maria Julia, coordenadora do LEM.   

O psiquiatra reforça: “O luto não pode ser encarado como um processo linear e ocorre de maneira muito particular em cada indivíduo, que pode passar por todas as fases ou por nenhuma, ou por alguma fase mais de uma vez. Portanto, faz mais sentido se pensar nele como um processo adaptativo do que dividi-lo em estágios. É importante vivenciar o processo como um todo da forma como ele se apresentar. Não necessariamente o indivíduo vai passar por todas as fases — e não há problema nisso. O luto chamado normal não tem um tempo específico de duração, e sua resolução necessariamente envolve algumas ressignificações em relação à perda, aceitação da condição e adaptação ao novo contexto.”