Mudança no regulamento e sem ensaio: Como as escolas de samba se preparam para o Carnaval em julho de 2021

Por causa da pandemia, número mínimo de componentes e alegorias pode diminuir em SP; primeiras colocadas do Carnaval de 2020 começam preparações tímidas e sem ensaios de baterias

  • Por Júlia Vieira
  • 09/01/2021 10h30
Guilherme Rodrigues/Estadão ConteúdoÁguia de Ouro foi a campeã do grupo Especial do carnaval em São Paulo

O Carnaval 2020 passou ileso pela pandemia do coronavírus. Enquanto o Sars-CoV-2 se espalhava pelo mundo, o Brasil vivia a maior e mais tradicional festa do país. Em São Paulo, os desfiles das escolas de samba do grupo Especial e do grupo de Acesso aconteceram entre 21 e 24 de fevereiro. No Rio, os desfiles do Especial aconteceram dia 23 e 24. Dois dias depois, em 26 de fevereiro, o primeiro caso de Covid-19 foi registrado no país. O Carnaval marcou o último respiro de normalidade do brasileiro. Em 2021, no entanto, o evento será afetado pela pandemia. A Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (LigaSP) e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) adiaram os desfiles para julho. Os desfiles no Rio estão marcados para 11 e 12 de julho. São Paulo ainda não tem data definida, mas o evento também acontecerá em julho. “O desfile das escolas de samba deve ocorrer em julho de 2021 havendo vacinação para a população e de acordo com a posição da capital no Plano São Paulo“, diz nota da Liga. Pelas incertezas causadas pela pandemia, o regulamento 2021, que determina regras para avaliação dos desfiles, ainda não foi definido pelas ligas e diretorias.

É com base no regulamento que as escolas se preparam e é com base nele que os jurados avaliam cada quesito do desfile. O documento define, entre outras coisas, a quantidade mínima de ritmistas das baterias, número mínimo de baianas, componentes da Comissão de Frente e alegorias. Segundo diretorias de escolas de samba de SP relaram à Jovem Pan, existe a possibilidade da diminuição do contingente de componentes nas alas e do número de alegorias para o desfile de 2021. A medida visa diminuir o contágio do coronavírus durante ensaios e apresentação. No Rio, ainda não foram discutidas as possibilidades. “Alteração de regulamento compete a plenário e as escolas são soberanas em plenário para definir esse regulamento. O regulamento do próximo carnaval ainda vai ser debatido pela Liesa com as escolas”, explica Thiago Monteiro, diretor de carnaval da Acadêmicos do Grande Rio. “Acredito que as mudanças no regulamento serão faladas posteriormente, conforme a necessidade, viabilidade e evolução da pandemia”, considera Alex Fab, diretor de carnaval do Unidos da Viradouro. A Jovem Pan conversou com as três primeiras colocadas de 2020 em SP: Águia de Ouro, Mancha Verde e Mocidade Alegre; e com as três primeiras colocadas no Rio de Janeiro: Viradouro, Grande Rio e Mocidade Independente de Padre Miguel.

Primeiras colocadas em São Paulo começam tímidas preparações; ensaios de baterias ficam de fora

Em 2020, a Águia de Ouro ganhou o seu primeiro carnaval no grupo Especial de São Paulo. Sediada na Pompeia, Zona Oeste da capital, a escola de samba não teve a oportunidade de comemorar seu campeonato. Assim que a Organização Mundial da Saúde liberar, a escola diz que fará uma festa comemorando o título e só depois do evento os trabalhos presenciais serão retomados totalmente. “Estamos trabalhando aqui dentro das normas, nos cuidando bastante, mas já estamos trabalhando. Os setores estão bem divididos para que não haja aglomeração e estamos apenas com 10% da equipe, o que para nós também é bem anormal”, conta Jacqueline Meira, diretora de comunicação da Águia. “Nós não temos planejamento para retorno total, porque nós estamos trabalhando de acordo com todas as normas da Organização Mundial da Saúde. Então ainda estamos evitando aglomerações, estamos realmente nos controlando nesse retorno para que a gente possa voltar com 100% do nosso elenco”, explica. 

São poucos os setores em funcionamento. A secretaria está ativa para a entrega de projetos sociais e distribuição de cestas básicas e máscaras para o atendimento da comunidade. O setor de comunicação também está ativo, trabalhando em conjunto com a equipe musical da escola. Eles produzem lives semanais para entretenimento e conforto da comunidade. Segundo Jacqueline, as alegorias e as fantasias já estão sendo trabalhadas “com calma e com tranquilidade”, apesar do pouco tempo de produção. Já os ensaios de bateria estão suspensos. Sobre o adiamento dos desfiles, a escola não reclama. “A gente ficou feliz. Independentemente de ser julho a base do Carnaval 2021, nós pelo menos temos o conforto e a esperança de termos o nosso Carnaval. Nós vemos a escolha com bons olhos, a maior preocupação é com as vidas. Acreditamos que até julho as coisas estarão controladas para que possamos nos reunir, fazer nosso espetáculo”, torce a diretora. Sem o regulamento de 2021, a Águia se baseia no regulamento de 2020. “Existe sim uma possibilidade de alteração no regulamento, mas o que nos conforta é saber que é uma coisa passageira, uma coisa que será esporádica. O que for decidido a gente vai acatar sempre, porque temos uma responsabilidade social acima de qualquer coisa. Não vamos deixar o samba morrer e temos certeza de que nosso Carnaval vai sobreviver a tudo isso e, quem sabe, buscar o nosso bicampeonato”, finaliza Jacqueline.

Também da Zona Oeste saiu a vice-campeã do carnaval 2020. Direto da Barra Funda, a Mancha Verde saiu do status de bloco carnavalesco para ser uma das escolas de samba mais prestigiadas de São Paulo. Em 2019, a Mancha foi a campeã do grupo Especial. A escola não está totalmente parada, mas nada está igual. A Mancha já iniciou a confecções dos carros e das fantasias. Os pilotos já estão prontos, mas tudo está funcionando em menor proporção. Assim como a Águia, os ensaios de bateria estão suspensos. “A escolinha de bateria também já está acontecendo, sempre aos sábados, já faz dois meses, e o pouco que está acontecendo, também está seguindo as normas sanitárias”, conta Pedro Azevedo, responsável pela comunicação da Mancha. Escolinha é um momento clássico antes da preparação para o próximo carnaval. Nesse tipo de ensaio, os diretores de instrumento ensinam novos integrantes a tocar e escolhem os ritmistas que se juntarão à bateria principal para o próximo carnaval. “Em condições normais, a gente começa nossos ensaios sempre após a nossa festa de aniversário, que acontece em outubro. Então a gente faz a festa em outubro e já começa os ensaios às quintas e aos domingos”, explica. Para Azevedo, o carnaval 2021 conseguirá ser preparado a tempo. “Eu acho que a gente tem que seguir as normas, as regras que estão sendo impostas para que essa pandemia passe logo. A gente está trabalhando, então, para a gente, vai dar tempo. A gente tem o nosso cronograma rodando, claro que em menor proporção, mas está rodando”, diz o assessor. Campeã por 10 vezes do grupo Especial, a terceira colocada de 2020, Mocidade Alegre, está paralisada por causa da pandemia. Localizada na Zona Norte, no clássico bairro do Limão, todas as atividades foram suspensas. Ensaios, confecções, tudo está suspenso. A única interação da Mocidade com a sua comunidade é online. Pela internet, eles fizeram lives interagindo com o público para o lançamento do enredo e para a escolha do samba-enredo de 2021.

No rio, escolas estão confiantes que o tempo de preparação será suficiente

Bicampeã do grupo Especial do Rio, a Unidos do Viradouro não vencia desde 1997. De Niterói para o Sambódromo da Marquês de Sapucaí, a Viradouro, mesmo com o tempo mais reduzido, está tranquila para 2021, pois conseguiu manter praticamente todo o quadro de profissionais colaboradores que esteve com a escola no último carnaval. Apesar do facilitador, o ritmo da escola estaria completamente diferente se não houvesse a pandemia. “Em condições normais, os ensaios de bateria teriam começado em abril. Neste mês de dezembro, já estaríamos ensaiando a todo vapor com ensaios na quadra e de rua”, relembra Alex Fab, diretor de carnaval da Viradouro. Todas as atividades na quadra estão suspensas, incluindo os ensaios de bateria. O setor de confecção das fantasias é um dos únicos em funcionamento. “Estamos na fase de produção dos protótipos, seguindo todos os protocolos de segurança recomendados pelas autoridades de saúde. Tão logo esta etapa esteja concluída, daremos início à reprodução das fantasias. O trabalho de construção das alegorias vai começar no início do ano, mas todos os carros já estão desenhados”, conta Fab. 

De Duque de Caxias vem a Grande Rio, uma das poucas escolas que já iniciou os ensaios. A vice-campeã conta que os ensaios de bateria e de alas de passistas começaram há quatro semanas com todos os protocolos, distanciamento necessário, máscara e higienização das mãos da quadra. “Agora, retorno e planejamento dos ensaios de comunidade, isso nós ainda não temos. Estamos esperando as autoridades virem com uma vacina para que a gente possa proceder essa etapa”, explica Thiago Monteiro, diretor de carnaval da Grande Rio. Sobre os ensaios de comunidade, Monteiro se refere aos ensaios das alas, que eram abertos ao público, assim como os ensaios de bateria. Ele acredita que o tempo de preparação, em tese, será o mesmo. “A gente, em média, tem de quatro a cinco meses para preparar o carnaval. Se o carnaval for em julho, nós estamos ainda dentro do cronograma de preparação. A gente teria, de uma maneira razoável, de quatro a cinco meses para preparar um desfile de alto nível”, diz o diretor. “Para o carnaval de 2020, os ensaios, por exemplo, começaram em agosto. Trabalhos de barracão se intensificaram mesmo em setembro, início de outubro. Até lá, a gente tá desmontando o carnaval anterior”, conta.

Além da bateria, os carnavalescos também estão trabalhando em projetos, fazendo mapeamento de fornecedores para a construção do próximo carnaval. “Os setores que não precisam necessariamente estar juntos ou em um trabalho em ambiente fechado estão tocando o projeto de 2021. Alegorias e fantasias ainda não estão sendo construídas, pois ainda não iniciamos os trabalhos do barracão”, diz Monteiro sobre o funcionamento da escola. “É importante para nós termos o desfile em 2021. Tendo segurança e vacina, ainda dá tempo de fazer o carnaval.” A carioca Mocidade Independente de Padre Miguel está na mesma situação que a sua xará em São Paulo: paralisada. Dona de seis campeonatos, ela ficou em terceiro lugar do grupo Especial em 2020. “Apenas dois funcionários estão trabalhando no barracão, espaço onde é feito o carnaval, mas apenas em serviços de manutenção e limpeza do local. Não há previsão de volta aos ensaios, apesar da data-base definida para o próximo carnaval”, explica Rodrigo Coutinho, assessor da Mocidade. “Já temos enredo, fantasias e alegorias desenhadas, o desenvolvimento do desfile todo no papel, mas neste momento é impossível colocar algo em prática”, lamenta Coutinho. “Temos um planejamento todo pronto, mas só será colocado em prática com a chegada da vacina e a regressão do número de casos de Covid-19. Não colocaremos em risco nossos funcionários e componentes”, enfatiza.