Dólar dispara e fecha a R$ 5,76; Ibovespa cai 4,25%

Investidores buscaram abrigo na moeda norte-americana em meio incertezas com as eleições nos EUA e novos decretos de lockdown na Europa; B3 fechou no menor nível desde 2 de outubro

  • Por Jovem Pan
  • 28/10/2020 17h48 - Atualizado em 28/10/2020 23h47
Arquivo/Agência BrasilNa máxima do dia, dólar chegou a bater R$ 5,789, mas perdeu força após o Banco Central injetar mais de US$ 1 bilhão através de leilão

O clima de incertezas com as eleições nos Estados Unidos e novos decretos de lockdown na Europa fizeram o dólar avançar 1,43% nesta quarta-feira, 28, e fechar a R$ 5,762, a maior cotação desde 15 de maio, quando encerrou a R$ 5,839. Na máxima do dia, a moeda norte-americana chegou a bater R$ 5,789, mas perdeu força após o Banco Central injetar mais de US$ 1 bilhão através de leilão.  O Ibovespa, o principal índice de bolsa de valores brasileira, fechou com recuo de 4,25%, aos 95.368,76 pontos. No Brasil, os investidores estão de olho na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que vai divulgar no fim da tarde a taxa de juros da economia. A previsão do mercado é que a Selic se mantenha em 2%, o menor patamar da história.

Em uma nova tentativa de conter a propagação do coronavírus na Alemanha, a chanceler Angela Merkel definiu nesta quarta-feira, 28, que o país entrará em um lockdown parcial. As medidas, que entrarão em vigor nesta sexta-feira,30, e terão uma duração mínima de quatro semanas, incluem a interrupção de todas as atividades esportivas em espaços cobertos, o fechamento de bares e restaurantes e a suspensão de atividades de lazer e eventos culturais. O anúncio do lockdown na França, que também se iniciará na sexta-feira, foi feito na sequência pelo presidente Emmanuel Macron. Nesse país, mais da metade dos leitos de UTI já estão ocupados por pacientes infectados pelo coronavírus e, por isso, as pessoas só poderão deixar as suas casas por razões específicas relacionadas a trabalho ou saúde.

O mercado também está atento nas articulações em Brasilia para a apresentação do Orçamento de 2021 e os esforços do Ministério da Economia em avançar a agenda de reformas. Ainda não há datas certas para a apresentação dos textos complementares das mudanças tributárias e na administração pública, e a opinião de lideranças é que as matérias sejam encaminhadas somente após o segundo turno das eleições municipais, em 29 de novembro — menos de um mês para o recesso parlamentar. Depois de atingir o recorde de R$ 5,90 em 13 de maio, a moeda norte-americana entrou em processo de arrefecimento até bater R$ 4,85 no início de junho.O constante avanço da moeda nos últimos meses fez com que analistas vislumbrem a quebra da barreira histórica dos R$ 6 antes do fim do ano.  O pessimismo é reflexo de uma “tempestade perfeita” no mercado cambial, formada pela taxa de juros mais baixa da história, a retomada de medidas de isolamento social em diversos países para conter o repique da Covid-19, além das incertezas no governo federal em manter a responsabilidade fiscal.

Bolsa de Valores

Na antepenúltima sessão do mês, o receio sobre os efeitos econômicos da segunda onda da Covid-19 na Europa também bateu forte à porta da B3, levando o Ibovespa a limitar o avanço em outubro a apenas 0,81%, após ter chegado a se aproximar de 8% na semana passada, perto dos ganhos mensais observados entre maio e julho, quando se firmava recuperação iniciada em abril. Nesta quarta-feira, o índice da B3 fechou na mínima do dia, em queda de 4,25%, aos 95.368,76 pontos, no menor nível desde 2 de outubro (94.015,68), elevando as perdas na semana a 5,82% e as do ano a 17,53%. A perda de quase 6% é até aqui a pior desde o maior tombo da crise, de 18,88%, observado no intervalo entre 16 e 20 de março, no início da quarentena. Desde o fechamento de 30 de abril (-3,20%), o Ibovespa não encerrava o dia em queda superior a 3%, e, na reta final de hoje, acentuou as perdas além de 4%: foi a maior baixa em porcentual desde 24 de abril (-5,45%). No encerramento, as perdas em Nova York chegaram a 3,73% (Nasdaq) e, na Europa, a 4,17% (DAX, de Frankfurt).

Na B3, o destaque nesta quarta-feira foi para perdas de 6% na Petrobras (PN -6,09% e ON -6,14%), e de 3,63% para a Vale ON, enquanto, nos bancos, chegaram a 6,02% (Bradesco ON) e nas siderúrgicas, a 7,74% (Usiminas). Na ponta do Ibovespa, Cielo cedeu 11,66%, à frente de CVC (-9,88%) e Azul (-9,58%). Nenhuma ação conseguiu fechar o dia em alta. “Nos primeiros minutos de hoje, o Ibovespa perdia o suporte de 98,3 mil, já abaixo da referência anterior, de 99,5 mil, do fechamento de ontem. Agora, o suporte está aos 95,4 mil e, se perdê-lo, a linha seguinte está aos 93,5 mil pontos”, observa Rodrigo Barreto, analista gráfico na Necton. “Nestas últimas quatro sessões, negativas, o Ibovespa saiu de um ganho que se aproximava de 8% para menos de 1% no mês”, acrescenta o analista, referindo-se à volatilidade em Nova York, com o VIX a 40 pontos, como um fator a que nenhuma bolsa consegue ficar imune. “Outubro parecia que ia terminar melhor, mas veio água no chope.”

Além da segunda onda da Covid-19, a eleição nos Estados Unidos também permanece como fator de incerteza a ser ponderado pelos investidores nos próximos dias e semanas. Após a frustração com a falta de entendimento entre republicanos e democratas sobre o novo pacote de estímulos fiscais, a dosagem das medidas é outro fator de dúvida: não pode ser tímida a ponto de não produzir efeito, nem exuberante a ponto de levantar questões quanto ao endividamento americano. “A expectativa é de que a volatilidade continue e, caso a pior combinação se concretize, o Ibovespa pode tomar o caminho dos 80 mil pontos”, diz Renato Chain, economista da Parallaxis Economia “Além da segunda onda na Europa, a pandemia segue em curso nos EUA, com piora no Centro-Sul do país — o que no momento não tem chegado à atenção do mercado, concentrado na eleição americana”, acrescenta. “A turbulência pode piorar caso se confirme a derrota de Trump para Biden e o resultado, conforme se espera, seja questionado pelo presidente, atrasando a definição. Se Biden ganhar, a situação também não fica boa para o Brasil, tendendo a estar ainda mais isolado, politicamente, num momento em que nossos fundamentos já afastam o investidor estrangeiro”, conclui o economista.

* Com informações do Estadão Conteúdo