Economistas revisam projeções e já preveem recessão em 2022 com alta dos juros e risco de descontrole do gasto público

Analistas não descartam novas mudanças com piora dos cenários fiscal e monetário; governo minimiza críticas, e Guedes classifica alterações como ‘conversinha’

  • Por Gabriel Bosa
  • 31/10/2021 07h00
Ernesto Rodrigues/Estadão ConteúdoMudanças no teto de gastos com apoio do Ministério da Economia pioraram o cenário de recuperação previsto para 2022

O aumento maior do juros nesta semana pelo Banco Central e a escalada da percepção de descontrole dos gastos públicos pelo governo federal levaram ao desabamento das previsões do Produto Interno Bruto (PIB) de 2022 e abriram espaço para economistas preverem nova recessão econômica. A deterioração das expectativas não é novidade, mas surpreende agora pela intensidade e velocidade do viés negativo esperado por bancos, consultorias de investimento e demais instituições financeiras. O pessimismo se consolidou nos últimos dias com as tratativas do Executivo e do Congresso para alterar o teto de gastos – a regra que determina que as despesas do governo não podem ser maiores que o Orçamento do ano anterior (apenas corrigido pela inflação). A norma, instituída em 2016, é vista como a principal âncora fiscal do Brasil e também a última fronteira antes do terreno da irresponsabilidade com o erário. A mudança foi incluída na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios, aprovada pela comissão especial da Câmara no dia 21 de outubro. A votação do texto no Plenário foi adiada por duas vezes na semana passada em meio aos esforços de parlamentares congressistas para garantir a aprovação. A medida deve voltar para a pauta na próxima quarta-feira, 3.

Do lado monetário, o cenário é pressionado para baixo pelo aumento da dose de elevação da taxa de juros. O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) elevou a Selic para 7,75% ao ano — o maior patamar desde 2017 — ao somar 1,5 ponto percentual. O BC não fazia um ajuste dessa magnitude havia 19 anos, desde que elevou a taxa em 3 pontos percentuais na última reunião de 2002 antes de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumir o comando do país no ano seguinte. Acompanhando a alta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) —  medidor oficial da inflação doméstica —, que já supera os dois dígitos, a autoridade monetária sinalizou novo aumento de 1,5 ponto percentual para a reunião de dezembro, a última de 2021, o que deve fazer com que a Selic fique acima de 10% já no início de 2022 – o que seria a primeira vez em quatro anos.

Diante desses cenários, a MB Associados passou a prever crescimento de 0% do PIB em 2022, ou seja, a estagnação da economia. Em agosto, a instituição projetava alta de 1,8% da soma de todos os bens e serviços produzidos pelo país. “Já esperávamos um cenário ruim no segundo semestre deste ano por causa da proximidade das eleições, mas não estava no radar uma deterioração tão rápida e intensa”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da MB. Ele cita a participação do ministro da Economia, Paulo Guedes, nas mobilizações para alterar o teto de gastos. O esforço do chefe da equipe econômica surpreendeu o mercado, que via no “Posto Ipiranga” um dos principais defensores da austeridade fiscal. Para André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, o cenário de desorganização na área econômica é pior do que o “furo” do teto em si. A instituição rebaixou a previsão de crescimento do PIB do ano que vem de 1,5% para 1%, com tendência de novas quedas nas próximas semanas. “O Brasil não sofre com a falta de dinheiro, mas com a falta de planos. O governo não consegue aprovar o que ele mesmo coloca em votação. Há um nível de desconforto muito grande no mercado”, completa.

O Itaú Unibanco espera que o PIB do país fique negativo em 0,5% no ano que vem. Em nota aos clientes, o banco cita a aceleração da Selic pelo BC como um dos principais fatores para prever recessão em 2022. “O Banco Central enfrenta a difícil situação de ter que acomodar choques sucessivos sem perder credibilidade, e mantendo as expectativas de inflação de médio prazo alinhadas às metas. Isso exigirá um equilíbrio entre a necessidade de sinalizar mais intensamente seu compromisso com a meta de inflação, ao mesmo tempo em que se dá a devida atenção à ‘taxa de sacrifício’ (redução de produto devido ao combate à inflação)”, informou. Apesar de ainda não enxergar uma queda tão abrupta, a XP Investimentos também vai na mesma linha. Horas depois de o Copom anunciar a nova Selic, a instituição rebaixou a previsão da recuperação do ano que vem de 1,3% para 0,8%. “Em média, projetamos taxa de variação trimestral praticamente nula no próximo ano (isto é, aumento do PIB total devido basicamente ao carrego estatístico favorável). De fato, esperamos contração da atividade econômica no terceiro e quarto trimestres de 2022, após crescimento modesto no 1º trimestre e virtual estabilidade no 2º trimestre”, informou o time econômico da XP.

As projeções do PIB para este ano também sofreram leves alterações, mas a mediana do mercado ainda aponta para alta próxima de 5% em meio ao avanço da vacinação e a retomada das atividades econômicas. O número deve compensar parte da queda de 4,1% registrada pelo país no ano passado por causa da pandemia do novo coronavírus. As projeções do mercado financeiro vão na direção oposta ao esperado pelo governo. O Ministério da Economia mantém a expectativa de crescimento acima de 2% em 2022. No começo da semana passada, Guedes mostrou insatisfação com a mudança do cenário pelos analistas e chamou as revisões de “conversinha”. “Vamos crescer no ano que vem de novo. A conversinha é sempre essa, primeiro que [o PIB] ia cair e ia ficar lá embaixo, não ia voltar. Aí volta em V. Agora, o crescimento não ia vir, e já é de 5%, 5,3% ou 5,4% este ano. Aí já estão falando que no ano que vem não vai crescer. Vai crescer, vai crescer de novo.”