PIB do Brasil cai 4,1% em 2020, o pior resultado em 24 anos, e consolida nova década perdida

Apenas agronegócio tem resultado positivo, com alta de 2%; setor de serviços, o mais afetado pela crise, cai 4,5%, e indústria recua 3,5%

  • Por Jovem Pan
  • 03/03/2021 09h04 - Atualizado em 03/03/2021 09h59
Adriano Machado/ReutersPIB brasileiro registrou o pior desempenho desde o início da série histórica em ano marcado pela pandemia do novo coronavírus e retração da economia global

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu 4,1% em 2020 na comparação com o ano anterior, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados nesta quarta-feira, 3. Este foi o pior desempenho da série histórica atual, iniciada em 1996, em um ano marcado pela pandemia do novo coronavírus e a paralisação da economia global por conta das medidas de isolamento social. Na comparação com a série anterior, com início em 1948 e metodologia diferente, este foi o terceiro maior tombo, atrás apenas dos recuos de 4,3% registrados em 1981 e 1990. No acumulado do ano, o PIB em valores correntes totalizou R$ 7,4 trilhões. O resultado interrompe a sequência de três anos de altas após os crescimentos pífios de 1,4% em 2019, 1,8% em 2018 e 1,3% em 2017, e consolida a nova década perdida com crescimento acumulado de aproximadamente 0,2%, ante média de 1,6% registrada no intervalo entre 1981 e 1990, segundo levantamento do banco Credit Suiss. O tombo histórico está acima da previsão de queda inferior a 4% estimada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Já analistas do mercado esperavam recuo semelhante ao registrado pelo IBGE. Economistas e entidades projetavam queda de 4,3%, segundo Boletim Focus publicado em 15 de janeiro, o último com previsões de 2020. “O resultado é efeito da pandemia de Covid-19, quando diversas atividades econômicas foram parcial ou totalmente paralisadas para controle da disseminação do vírus. Mesmo quando começou a flexibilização do distanciamento social, muitas pessoas permaneceram receosas de consumir, principalmente os serviços que podem provocar aglomeração”, analisa a coordenadora de Contas Nacionais, Rebeca Palis.

Entre os setores analisados, apenas o agronegócio teve resultado positivo. A alta foi de 2%, influenciada pela rápida recuperação da economia chinesa e o aumento do consumo interno pela mudança dos hábitos alimentares por causa da pandemia. O setor de serviços, o mais impactado pelas restrições de mobilidade, registrou queda de 4,5%, enquanto a indústria registrou baixa de 3,5%, puxada pela queda de 7% na construção civil. Somados, serviços e indústria representam 95% da economia nacional. “Os serviços prestados às famílias foram os mais afetados negativamente pelas restrições de funcionamento. A segunda maior queda ocorreu nos transportes, armazenagem e correio (-9,2%), principalmente o transporte de passageiros, atividade econômica também muito afetada pela pandemia”, afirma Rebeca. Apesar da queda expressiva de 4,1%, o resultado está acima do projetado por entidades no auge da crise, em 2020. Em relatório publicado em julho, o Fundo Monetário Internacional (FMI) chegou a prever queda de 9,1%. Para Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, a recuperação foi resultado da retomada das atividades de serviço nos últimos meses do ano passado. “Teve uma recuperação expressiva do setor de serviços no último trimestre, com processo de reabertura que foi muito importante para sustentar a alta de 3,2% no último trimestre”, afirma.

No quarto trimestre de 2020, o PIB avançou 3,2% na comparação com o terceiro trimestre do ano, quando a alta foi de 7,7%. Em valores correntes, isso corresponde a R$ 2,0 trilhões. Quando comparado ao quarto trimestre de 2019, o PIB caiu 1,1%. Os serviços e a indústria tiveram variação positiva de 2,7% e 1,9%, respectivamente. Já agropecuária recuou 0,5%, que segundo Rebeca trata-se de um ajuste da safra. “Essa desaceleração é esperada porque crescemos sobre uma base muito alta, no terceiro trimestre (7,7%), após um recuo muito profundo no auge da pandemia, o segundo trimestre (-9,2%)”, afirma Rebeca Palis.

Antes mesmo da eclosão da pandemia do novo coronavírus no Brasil, a partir de março de 2020, já estavam claros os sinais do tamanho da encrenca que estava à frente após a paralisação de atividades na China, e, posteriormente na Europa. Não era difícil prever que menos dia ou mais dia a situação chegaria neste lado do Atlântico, e que o resultado em uma economia que ainda nem havia se recuperado de crises recentes seria devastador. Em poucos meses, a Covid-19 levou à pique setores fundamentais da economia nacional. Por causa das medidas de isolamento social, o estrago foi especialmente significativo no segmento de serviços — como hotéis, bares, restaurantes e toda a cadeia de viagens — justamente o principal mercado empregador e maior componente do PIB. O tombo histórico de 9,6% da economia no segundo trimestre, somado ao recuo de 1,5% no período anterior, deixou o país oficialmente em recessão técnica.

O ano de 2021 iniciou com a promessa de recuperação da economia brasileira. Se o otimismo era pautado na retomada das atividades econômicas a partir da imunização da população, o noticiário recente jogou um balde de água fria, e analistas já começam a refazer os cálculos para um crescimento do PIB mais tímido do que o esperado. Economistas e entidades consultadas pelo Banco Central estimaram crescimento de 3,29% neste ano, segundo o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 1º, o mesmo valor da semana passada. Há um mês, a projeção apontava avanço de 3,5%. A disparada do número de infecções, quando se esperava justamente o contrário, é o principal fator para a quebra da euforia. Os entraves para a imunização da população e a retomada das medidas de isolamento social enquanto ainda não há definição da volta do auxílio emergencial também limitam o potencial de crescimento dos índices. “O resultado de hoje é  uma fotografia que representou o ano passado. Agora temos o pico da pandemia, a falta de vacinação e questões envolvendo a PEC Emergencial”, afirma Camila.

Década perdida

Com expectativa de retração de 4,3% do PIB do ano passado, um levantamento do banco Credit Suisse apontou que o país terá crescimento médio anual de 0,2% entre 2011 e 2020, bastante abaixo da média de 1,6% registrada no intervalo entre 1981 e 1990, popularmente conhecido como a década perdida pela estagnação da economia em meio à disparada da inflação e descontrole monetário. Os dados do IBGE mostram que a economia nacional já andava de lado antes mesmo da pandemia do novo coronavírus, reflexo de políticas equivocadas e investimentos mal feitos. Em 2019, o PIB cresceu 1,4%, ante avanço de 1,8% registrado em 2018, e 1,3% 2017. Os anos anteriores foram catastróficos: queda de 3,3% em 2016, antecedido por um tombo ainda maior, de 3,5%, em 2015. Em 2014, o PIB fechou com alta pífia de 0,5%. Os dados contrastam com a pujança econômica registrada no fim da primeira década do milênio e o início dos anos 2010, quando o Brasil surfava na onda global das commodities. Em 2011, a economia avançou 4%, seguida por alta de 1,9% em 2012, e crescimento de 3% em 2013.