Gasolina acima de R$ 8? Alta do petróleo deve forçar reajustes dos combustíveis nos próximos dias

Escalada do preço do barril no mercado internacional ao maior valor em sete anos pressiona estatal por novo aumento no Brasil; dólar em queda pode ajudar e amenizar a alta

  • Por Gabriel Bosa
  • 23/01/2022 07h00
Foto: ROMILDO DE JESUS/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - 4/1/22 Tabela de preço de combustível em posto de Salvador Movimentação em posto de combustível na cidade de Salvador (BA); com alta do preço do petróleo, gasolina deve ter novo aumento no país

A recente escalada do preço do barril de petróleo no mercado global deve impactar no aumento do valor dos combustíveis nas bombas dos postos brasileiros. A política de seguir as variações do mercado internacional mantida pela Petrobras e o compromisso com os acionistas privados dão brecha para que a estatal faça um novo reajuste para cima nos próximos dias, mesmo que isso gere ainda mais pressão sobre a inflação e agrave o descontentamento da população. A variedade de conjunturas consideradas para a alta dificulta previsões certeiras de quando o aumento vem, e, principalmente, para quanto o litro vai. Porém, analistas chamam a atenção para a tendência de subida do preço do barril no mercado lá fora, o que torna cada vez mais factível o cenário onde o brasileiro vai precisar pagar mais de R$ 8 pelo litro da gasolina.

Pesquisa feita pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostra que o preço médio do litro da gasolina é R$ 6,60, mas que há lugares no Brasil onde já se cobra até R$ 7,89. A Petrobras promoveu na segunda semana de janeiro reajustes de 5% e 8% no litro da gasolina e do diesel, respectivamente, vendido às distribuidoras. A estatal afirma que evita fazer reajustes de imediato em reação às variações internacionais. Para Edmar de Almeida, professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, o cenário atual é apertado. “Por uma estratégia de mercado, a Petrobras não anuncia quando vai fazer um novo. Mas ela está sem espaço, não vai ter como segurar esse preço por muito tempo“, afirma o especialista.

O segmento de importação de combustíveis chama a atenção para que, apesar da recente mudança nos preços, a estatal mantém uma defasagem na comparação com o praticado lá fora. A escalada no preço do barril nos mercados internacionais tende a alargar essa valorização e pressionar novamente a empresa a aumentar os preços nas próximas semanas. “Pelo compromisso que a empresa tem com os seus acionistas minoritários, é estranho que o mercado suba de preços e a Petrobras não acompanhe”, afirma Sérgio Araújo, presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).

Aumento da demanda e tensões empurram cotação para cima

A nova onda de subida do barril do petróleo no exterior é impulsionada pela desorganização do mercado com a queda da produção e o aumento da demanda. Contrariando as análises iniciais, a variante Ômicron não levou à retomada de medidas de restrição, o que consequentemente causaria a desaceleração da economia. Pelo contrário, com países como o Reino Unido indicando o fim das políticas de distanciamento, a busca pela commodity cresceu, mas bateu de frente em um mercado com pouca oferta para suprir a necessidade. Na quinta-feira, 20, o preço do barril tipo brent, usado como referência pela Petrobras, passou dos US$ 89, a maior cotação desde julho de 2014. O valor cedeu durante a sexta-feira, mas fechou a semana com alta acumulada de mais de 10% apenas em 2022.

Como fatores secundários, o preço do barril está sendo elevado pelo aumento de tensões ao redor do globo. Neste ponto, a principal pressão está vindo da possível invasão da Ucrânia por tropas da Rússia, o segundo maior produtor de petróleo no mundo. Novos conflitos entre rebeldes do Iêmen e a Arábia Saudita também contribuem para a desestabilização do mercado. Como nenhum desses fatores dá sinais de arrefecimento no curto prazo, analistas já consideram a possibilidade de o barril romper novamente a barreira dos US$ 100 nos próximos dias. Caso se concretize, será a primeira vez que a cotação sobe aos três dígitos em quase sete anos.

Dólar em queda pode arrefecer preços

A cotação do barril de petróleo é um importante mensurador do preço no mercado doméstico, mas não é o único. A conta também passa pela cotação do dólar, já que o valor de compra da commodity é pago na moeda norte-americana. Neste campo, o mercado brasileiro está em vantagem com a recente desvalorização do câmbio, que desde o começo do ano acumula queda de 2%. Pedro Rodrigues, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), pontua que essa volatilidade do mercado faz com que a Petrobras aguarde alguns dias antes de tomar uma nova decisão. “O repasse não é imediato. A empresa tem caixa e estoque, e uma série de coisas influenciam a velocidade do repasse”, afirma.

Os combustíveis foram os principais vilões que levaram a inflação para 10,16% — quase o dobro do limite máximo — em 2021. O etanol foi o produto que mais subiu, registrando variação de 62%, enquanto a gasolina teve aumento de 47%, e o diesel, de 46%. Um novo reajuste da Petrobras poderia manter a pressão dos combustíveis, além de espalhar por toda a cadeia de produção por tabela. “Não é apenas o preço da gasolina. O óleo diesel implica diretamente no transporte de cargas e passageiros. Certamente essa elevação vai provocar o aumento de tarifas”, diz Cláudio Considera, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV).