Recuperação da economia brasileira é lenta e desigual, diz Maílson da Nóbrega

Apesar do crescimento do terceiro trimestre, ex-ministro da Fazenda cita disparidade de retomada entre setores econômicos e projeta retração de 4,8% do PIB em 2020

  • Por Gabriel Bosa
  • 03/12/2020 09h26
Denise Andrade/Estadão ConteúdoEx-ministro do governo de José Sarney espera queda de 4,8% do PIB neste ano e recuperação de até 3,5% em 2021

O crescimento da economia brasileira de 7,7% no terceiro trimestre deste ano traz um alento após a queda histórica de 9,7% nos três meses anteriores, mas ainda está longe de indicar a recuperação dos estragos causados pela pandemia do novo coronavírus nas atividades econômicas. Para o ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, ao invés da imagem do crescimento em “V”, quando há um recuo brusco seguido pelo crescimento vertiginoso, e tanto utilizada pelo atual chefe da pasta da economia no governo, Paulo Guedes, a curva de recuperação do país está mais próxima do símbolo da Nike: uma queda forte amenizada pelo crescimento suave, e que demandará tempo para retomar aos níveis anteriores. “Difícil falar em retomada em ‘V’, porque isso teria que ser de toda a economia. E a nossa recuperação continua muito heterogênea. Por exemplo, o setor de serviços só agora que apresenta alguma recuperação, após cair cerca de 10% no segundo trimestre”, afirmou à Jovem Pan. O antigo auxiliar de José Sarney também disse que falta articulação por parte do governo federal para avançar as reformas no Legislativo, e elenca a reforma tributária como fundamental para a recuperação dos índices. “Ela vai destravar a economia do lado do consumo e dos investimentos, mas sobretudo terá efeito na produtividade, que é o principal fator de geração de riquezas de um país.”

O avanço entre julho e setembro divulgado pelo IBGE nesta quinta-feira, 3, tira o Brasil da recessão técnica e é justificado por uma série de fatores, como a distribuição do auxílio emergencial para quase 70 milhões de brasileiros, a adesão de empresas ao programa que permite a redução de salários mediante o corte da jornada e o afrouxamento das medidas de isolamento social. A euforia pela reversão da curva, porém, não deve chegar ao PIB do quatro trimestre, quando os principais responsáveis pela recuperação não terão a mesma força. A redução pela metade do valor do auxílio emergencial é exemplo deste corte de estímulos, mas a conta também é pressionada pelo crescimento do desemprego, que deve pular do atual recorde de 14,1% para cerca de 15%, o repique da pandemia no país e a alta da inflação. A previsão do ex-ministro é avanço de 2% na economia entre outubro e dezembro. “Estamos vendo vários estados adotando medidas mais rigorosas de isolamento social e redução de atividades econômicas. Ao lado do medo do desemprego, tudo isso deve arrefecer a recuperação”, diz Maílson.

Com base na recuperação de setores fundamentais da economia, como varejo e indústria, o ex-ministro de José Sarney prevê recuo de 4,8% do PIB em 2020 – o que vai significar o sétimo ano seguido que a economia brasileira anda de lado. Apesar de representar quase metade do tombo de 9% preconizado por analistas no auge da crise da Covid-19, ainda será a maior queda do PIB brasileiro na história. Para o próximo ano, Maílson prevê que a economia brasileira avance até 3,5%, o que ainda é considerado baixo, mas realista em vista do rombo causado pela pandemia. “Todos os setores já estarão equiparados ao período pré-pandemia até o fim do primeiro trimestre, especialmente se confirmar a expectativa que a vacina vai chegar”, afirma. Além do imunizante, o avanço das reformas estruturantes propostas pelo Ministério da Economia também são fundamentais para a recuperação do país. O ex-ministro da Fazenda critica a falta de articulação da equipe econômica e afirma que seria melhor se o governo federal tivesse seguido a proposta da PEC 45 para a reformulação do sistema tributário. “Ao invés de ter enviado uma reforma tributária para chamar de sua, o governo devia ter se aliado ao Rodrigo Maia no projeto que cria o Imposto sobre Bens e Serviços com a junção de cinco tributos.”