Saída da Ford escancara gargalos da produção e sinaliza início de debandada de montadoras

Retração do mercado interno, alta complexidade tributária e falta de diálogo com o governo federal são apontados como os maiores entraves ao setor

  • Por Gabriel Bosa
  • 12/01/2021 17h13 - Atualizado em 12/01/2021 17h34
LUIS LIMA JR/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDOEmpresa irá encerrar três fábricas no Brasil, impactando 5 mil trabalhadores

O anúncio do fechamento das fábrica da Ford no Brasil pode ser o indicativo mais forte de uma debandada de montadoras do país. A falta de atrativos para manter as plantas de produção por aqui passam pela complexidade do sistema tributário brasileiro, a retração do mercado consumidor e a falta de diálogo entre o setor automotivo e o governo federal. A decisão da montadora norte-americana de encerrar suas operações em Taubaté (SP), Camaçari (CE) e Horizonte (CE), deixando mais de 5.000 trabalhadores sem emprego, segue o mesmo caminho adotado pela Mercedes, que em dezembro do ano passado fechou a sua única linha de montagem brasileira na cidade de Iracemápolis, no interior paulista. Para analistas do setor, a fuga das montadoras do país pode se intensificar caso não haja mudanças significativas que incentivem as marcas a apostarem no país. “A Ford utilizava menos de 50% da sua capacidade. Tem outras fábricas que estão em situação igual ou ainda pior, ou seja, têm um complexo fabril grande e uma produção pequena. O Brasil corre o risco e outras montadoras pensarem parecido e decidirem que não vale a pena continuar”, afirma Cassio Pagliarini, consultor associado da Bright Consulting e ex-colaborador com 25 anos de experiência na Ford.

Dados da Associação Nacional das Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) apontam que o país fechou 2020 com pouco mais de 2 milhões de veículos montados, uma queda de 31,6% na comparação com o ano passado e saldo de 3 milhões de unidades ociosas, ou seja, que não foram absorvidas pelo mercado. A queda de vendas do setor é explicada em parte pela crise gerada pelo novo coronavírus, que chegou ao país quando os brasileiros ainda nem haviam se recuperado totalmente da crise nacional iniciada em 2014. Além da questão financeira, a mudança de comportamento e a perda do status que os veículos tinham no passado pressionaram a venda no setor. “É uma soma de dificuldades conjunturais e estruturais. Primeiro, há demanda fraca do mercado após duas crises seguidas e mudança de hábito da população. Depois há a questão do Brasil ter uma economia que não cresce, não faz reformas. Tudo isso cria pressão sobre as empresas, que já enfrentam uma série de dificuldades lá fora”, afirma Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Além da retração das vendas, a complexidade do sistema tributário brasileiro é visto como um das grandes barreiras para a permanência das montadoras no país. Mais do que o elevado custo dos impostos, o emaranhado contábil que envolve a cobrança de diferentes taxas por municípios, estados e União, mais a oneração em diferentes etapas da linha de produção, tornam o Brasil um dos países menos atrativos para investimentos. “O melhor incentivo que o Brasil poderia dar não é o fiscal, mas melhorar toda a estrutura tributária. A saída da Ford é um sinal concreto para o governo ir atrás de uma reforma ampla, que trabalha uma melhoria como um todo, principalmente para a indústria”, diz Vale. A falta de perspectivas para as montadoras e um projeto amplo do governo federal para o setor também incentiva que as marcas busquem outros centros de produção. Pagliarini, da Bright Consulting, afirma que as montadoras têm interesse em criar uma rota de perspectivas, mas não encontram respostas dos gestores públicos. “A última legislação do mercado automotivo foi no apagar das luzes do governo Temer. Desde então, não se sabe qual direção irá seguir, como se manterá o nível de tecnologia no Brasil, quais os melhores produtos para uma mobilidade sustentável.”