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Argentina registra aumento de casos de hantavírus, diz especialista

Primeiro caso foi registrado depois que o navio partiu do porto argentino de Ushuaia em 1º de abril com 147 pessoas; apesar dos números altos, especialista afirma que não há um surto

Pedro Vilas Boas

Três mortes por hantavírus em cruzeiro foram confirmadas
Três mortes por hantavírus em cruzeiro foram confirmadas Foto: Divulgação CDC: Cynthia Goldsmith e Luanne Elliott; e AFP

A Argentina registrou um aumento nos casos de hantavírus, mas não há um surto dessa doença transmitida por roedores, disse nesta quarta-feira (6) um especialista à AFP, num momento em que um cruzeiro que zarpou da Patagônia enfrenta um foco que já deixou três mortos.

O primeiro caso foi registrado depois que o navio partiu do porto argentino de Ushuaia em 1º de abril com 147 pessoas. A embarcação permanece fundeada em frente a Cabo Verde de forma preventiva.

“Não há nada atípico nem particular. Na Argentina há casos de hantavírus todos os anos”, explicou Raúl González Ittig, biólogo e pesquisador independente do instituto Conicet e professor associado da Universidade Nacional de Córdoba.

De acordo com o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, foram registrados 42 casos dessa doença em 2026 e 101 até agora no período de campanha epidemiológica, que se estende de junho a junho de cada ano, quase o dobro dos 57 do mesmo período anterior.

“Mas não há um surto em particular. O último de que se tem conhecimento ocorreu [no final de 2018] em Epuyén [Chubut, sul], quando um peão rural se contaminou com hantavírus; foi a uma festa de aniversário, infectou mais de 50 pessoas e houve 15 mortos”, disse González Ittig, autor de vários estudos publicados sobre esse vírus.

A Argentina apresenta quatro áreas endêmicas com distintos genótipos de hantavírus, uma delas nos bosques andino-patagônicos, com presença da variante Andes, que se suspeita ser a presente no navio “MC Hondius”.

No caso específico do navio há várias coisas estranhas“, afirmou González Ittig. “Primeiro, porque na Terra do Fogo, em toda a ilha, tanto do lado chileno quanto do argentino, jamais houve um único registro de hantavírus e tampouco houve amostragens de roedores infectados.”

“Então, as possibilidades de que tenham sido infectados em Ushuaia são muito baixas”, concluiu.

A doença tem um período de incubação que pode durar várias semanas e desconhece-se o itinerário dos turistas antes de embarcarem nessa cidade localizada 3.000 km ao sul de Buenos Aires, capital da província da Terra do Fogo.

“Em particular, o genótipo Andes, que é o que está na zona patagônica, é o único do qual há registro de transmissão pessoa a pessoa”, disse o especialista.

“Se essa pessoa pegou o hantavírus e depois embarcou e contagiou, aí falamos de um surto, mas não podemos dizer que começou em Ushuaia, e sim que vem de outro lugar”, explicou.

O especialista indicou que, embora a Argentina tenha registrado um número maior de casos, “não são surtos, e sim casos isolados”.

O mesmo foi dito pelo diretor de Epidemiologia e Saúde Ambiental da província, Juan Petrina, que considerou na terça-feira “muitíssimo improvável” um contágio local porque não há registros de hantavírus na região.

Entenda

A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou no domingo (3) três mortes relacionadas a um possível surto de infecção por hantavírus em um navio de cruzeiro no Atlântico.

O vírus é transmitido por roedores e pode causar doenças respiratórias graves, com risco de evolução fatal. O surto ocorreu no MV Hondius, que viajava de Ushuaia, na Argentina, para Cabo Verde.

“Embora seja raro, o hantavírus pode ser transmitido de uma pessoa para outra e provocar doenças respiratórias graves”, indicou a OMS.

As autoridades de saúde informaram que o caso segue sob investigação detalhada. De acordo com a OMS, estão sendo conduzidas análises laboratoriais adicionais, além de estudos epidemiológicos para entender melhor a possível transmissão do vírus.

“Os passageiros e a tripulação estão recebendo cuidados médicos. A sequenciação do vírus também está sendo realizada”, acrescentou a organização.

O que é o hantavírus?

De acordo com o Ministério da Saúde, a hantavirose é uma zoonose viral aguda que, no Brasil, se manifesta principalmente na forma da Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), um quadro grave que pode comprometer o sistema respiratório e cardiovascular.

O vírus pertence à família Hantaviridae e tem como reservatórios naturais roedores silvestres, que eliminam o agente infeccioso pela urina, fezes e saliva sem apresentar sintomas ao longo da vida.

A transmissão para humanos ocorre, na maioria dos casos, pela inalação de aerossóis contaminados a partir das excretas desses animais. Também pode acontecer por contato direto com mucosas — como olhos, boca e nariz —, por ferimentos na pele ou mordidas de roedores. Embora rara, a transmissão entre pessoas já foi registrada em países como Argentina e Chile, associada a um tipo específico do vírus.

Sintomas

Os sintomas da hantavirose podem variar de um quadro inicial inespecífico, com febre, dores no corpo e mal-estar, até formas mais graves, com comprometimento pulmonar e cardíaco.

Nos casos severos, a doença pode evoluir rapidamente para insuficiência respiratória e síndrome da angústia respiratória aguda (SARA), exigindo atendimento médico imediato. O período de incubação varia de uma a cinco semanas, podendo chegar a até 60 dias.

Tratamento

Ainda segundo o Ministério da Saúde, não existe tratamento específico para a infecção por hantavírus. O manejo dos pacientes é feito com medidas de suporte, de acordo com a gravidade de cada caso, geralmente em ambiente hospitalar.

Por se tratar de uma doença de evolução rápida e potencialmente fatal, a hantavirose é de notificação compulsória imediata, devendo ser comunicada às autoridades de saúde em até 24 horas.

A pasta também destaca a importância da prevenção, especialmente para profissionais mais expostos, como trabalhadores rurais e equipes de saúde.

O uso de equipamentos de proteção individual, como máscaras PFF3, luvas, aventais e óculos de proteção, é recomendado em situações de risco, além de medidas que evitem o contato com ambientes contaminados por roedores.

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