Candidato de Piñera derrete, e Chile pode ter segundo turno entre extremos

Com o atual presidente desgastado por protestos recentes e um pedido de impeachment, político egresso de movimentos estudantis pode ser rival de simpatizante de Bolsonaro nas eleições

  • Por Lorena Barros
  • 17/10/2021 09h00
EFE/Alberto Valdés e Biblioteca del Congreso Nacional de ChileGabriel Boric (à esquerda) e José Antonio Kast (à direita) são favoritos para a disputa do segundo turno no Chile

Após governar o Chile entre 2010 e 2014, Sebastián Piñera assumiu um segundo mandato em 2018 e viu o país entrar em convulsão social com protestos iniciados pelo preço da passagem de metrô, que logo evoluíram para grandes manifestações, com uma série de pedidos. Entre eles, estava a mudança da Constituição do país, uma herança dos tempos ditatoriais de Augusto Pinochet. Os desgastes dos violentos protestos se somaram ao caos mundial da pandemia da Covid-19 e a um recente escândalo envolvendo o nome da família dele na venda de empresas offshores, que gerou um pedido de impeachment mesmo às vésperas de uma eleição marcada para 21 de novembro. Com isso, Sebastián Sichel, candidato de centro-direita indicado pelo governista, apresenta pouca popularidade nas urnas. Uma das últimas pesquisas feitas pelo Instituto Caden mostra o político com 12% das intenções de voto nas urnas, abrindo margem para outros candidatos de pensamentos menos centristas.

O professor do departamento de relações internacionais da PUC-SP, Tomaz Paoliello, lembra que, apesar da diminuição do apoio a Piñera, não é atípico que os poderes se alternem entre esquerda e direita no Chile. “O fato dele não conseguir eleger um sucessor não está muito fora da tendência recente. Seria esperado que, agora, a gente tivesse uma transição para um governo à esquerda. Tradicionalmente, era o Partido Socialista, um bloco de centro-esquerda. Mas tudo indica que será Boric, outro candidato da esquerda”, analisa. Enquanto o nome apontado pelo governo tenta buscar o segundo lugar em meio a escândalos, o líder nas intenções de voto, o deputado Gabriel Boric, tem 26% nas pesquisas. O segundo colocado, o ex-deputado José Antonio Kast, acumula 17%.

“O Chile está em uma tendência de ter o segundo turno dos extremos: o Boric, na extrema esquerda, e o Kast, na extrema direita”, analisa Marcelo Balloti Monteiro, professor do curso de ciências econômicas da Universidade Anhembi Morumbi. Ele explica que, mesmo que o representante da esquerda tenha vencido o comunista Daniel Jardue nas eleições primárias, passou a fazer coligações e traçar uma caminhada que o enquadra em uma área mais polarizada no país. “Ele era do movimento estudantil, é alguém que esteve presente nos protestos de 2019, então é um cara muito ligado a uma esquerda mais radical, que a gente ainda vê em alguns países aqui da América Latina. O Kast é totalmente oposto, é da extrema direita. Embora não tenha falado muito sobre o Pinochet, nas eleições passadas ele afirmou que o Pinochet votaria nele se estivesse vivo. Então, pode ser considerado da extrema direita”, complementa. O segundo colocado nas pesquisas, lembra o professor, já teceu elogios ao ex-presidente dos EUA Donald Trump e ao próprio Jair Bolsonaro.

Paoliello concorda com a classificação de Kast como membro da “extrema direita”, mas diz que, apesar de Boric estar mais à esquerda do que nomes tradicionais da política, como a ex-presidente Michelle Bachelet, ele não tem algumas características extremistas que podem ser imputadas ao seu rival. “Penso que, aqui no Brasil, ele representaria uma posição que está à esquerda do PT, do Psol, que são partidos que a gente conhece, mas não são partidos contra o sistema. Eles [Boric e seus colegas da Convergência Social] não falam contra a democracia chilena. Pelo contrário, são reformistas. Boric faz parte deste setor do Chile que apoia a Constituinte, a reforma”, analisou. A Constituinte à qual o docente se refere é formada por 155 pessoas que devem montar, ao longo de meses, uma nova Carta Magna para o país. A formação dela, que ocorreu em julho de 2021, foi resultado direto das manifestações de 2019, que geraram um plebiscito nacional com 79% das pessoas pedindo uma nova Constituição. O candidato da esquerda, que lidera as pesquisas no país, tem apenas 35 anos e foi um dos expoentes dos protestos estudantis de 2011, ganhando um cargo de deputado em 2014 e aumentando a popularidade nos anos seguintes. “Acho que ele surfou um pouco na onda das constituintes e também acho que tem sido valorizado por causa da juventude, do fato de ser uma figura que não esteve muito tradicionalmente ligada à política. Ele vem com essa cara de renovação, seja para o discurso da esquerda ou para apelar para um público maior, que está buscando um candidato cada vez mais jovem”, analisa o professor da PUC. Outro fator que influenciou na popularidade de Boric foi que, mesmo sendo um homem branco, ele propôs a inclusão de pautas identitárias dos povos indígenas e das mulheres, algo que chamou um grande número de “votos jovens” para as intenções.

Enquanto Boric tenta o cargo de presidente pela primeira vez, Kast já fez campanha nas últimas eleições e terminou com apenas 8% dos votos nas urnas, o que mostra um avanço da extrema direita. Com Piñera cada vez mais “derretido” diante de escândalos e de um pedido de impeachment, especialistas não descartam a possibilidade de que as próximas pesquisas eleitorais mostrem votos de Sichel migrando para Kast, o que pode sinalizar um possível segundo turno mais apertado para um candidato que simpatiza com um momento trágico da história chilena. “De fato, as posições dele são contra a democracia chilena. Ele saúda o Pinochet, a ditadura, pede um retorno ao que ele julga positivo no regime autoritário. A Constituinte é o plano de fundo para esta eleição presidencial, e o Kast é contrário, pois vai revogar várias das coisas que foram aprovadas na época pinochista, então ele é a voz anticonstituinte”, aponta o docente da PUC. Ele detalha que, assim como Boric se diferencia de Bachelet, Kast está afastado do governo de centro-direita de Piñera, que sempre se manifestou de forma clara contra o regime de Pinochet.

Com um impeachment aberto poucos meses antes da sua saída do poder, o consenso entre os especialistas é de que o atual presidente do Chile pode não ser penalizado, mas também não sairá vitorioso em 2021. “É óbvio que depende da configuração do Parlamento, mas acredito que o Chile hoje padece de problemas políticos, de extremos, padece de alguns problemas econômicos que não eram comuns, como a inflação. Embora o fenômeno inflacionário seja mundial, isso afeta o bolso das pessoas e a satisfação com o atual cenário político. Então, eu vejo o Piñera talvez como o ‘grande derrotado’, pois, mesmo que ele não sofra impeachment, é muito provável que não faça um sucessor”, analisa Balloti. Mesmo com variações sobre a posição extremista do candidato da esquerda, todos acreditam que o cenário desenhado atualmente sinaliza um governo fora do centro. “Acho que, neste momento, o que fica claro é que há uma vontade populista que é possivelmente arriscada. Ela pode dar vazão tanto a movimentos da Constituinte, de reformas, inclusão de pautas muito contemporâneas, mas por outro lado pode ser uma onda surfada por um cara como o Kast, que pode aproveitar para articular um discurso reacionário”, analisa Paoliello.