Dez anos após tragédia de Fukushima, Japão discute uso de energia nuclear

Governo japonês, que se comprometeu a zerar as emissões de carbono até 2050, é criticado por não financiar estudos que mostrem os impactos da contaminação radioativa na população a longo prazo

  • Por Bárbara Ligero
  • 10/03/2021 17h21
EFE/EPA/FRANCK ROBICHONJaponeses acendem lanternas de papel em homenagem às vítimas do terremoto, tsunami e acidente nuclear de 10 de março de 2011

No dia 11 de março de 2011, um terremoto e um tsunami atingiram Fukushima e causaram um dos piores desastres nucleares do mundo desde Chernobyl. Com magnitude 9, o maior tremor já registrado no Japão fez com que soassem todos os alarmes da região, incluindo os da usina. Os moradores tentavam fugir enquanto os reatores eram automaticamente desligados e os sistemas de refrigeramento,  acionados. No entanto, passaram-se apenas dez minutos antes que as ondas de até 14 metros de altura atingiram a costa. A água ultrapassou o muro em torno da usina nuclear e causou uma queda geral de energia. Os funcionários correram para restaurar a força, mas não foram rápidos o suficiente para impedir que três reatores superaquecessem. Nos dias que se seguiram, a fábrica sofreu uma série de explosões químicas, o material radioativo vazou e cada vez mais pessoas foram sendo evacuadas. O saldo foi de 20 mil mortos e 160 mil moradores obrigados a deixar as suas casas.

Passados dez anos da tragédia, o governo do Japão já gastou US$ 300 bilhões para reconstruir o distrito. Muitas áreas próximas à usina nuclear continuam inabitáveis, mas grande parte da região foi descontaminada e pode voltar a receber pessoas. Ainda assim, a população de Fukushima contraiu em 10%: estima-se que 37 mil pessoas que tinham sido evacuadas após o terremoto e o tsunami simplesmente não querem retornar para casa. Entre as que voltaram, um terço possui mais de 65 anos e a maioria sofre algum tipo de preconceito em seu cotidiano. De acordo com uma denúncia feita pelo jornal norte-americano The New York Times, publicações falsas em redes sociais recomendam permanecer longe de qualquer um que more na região, já que os residentes de Fukushima poderiam “transmitir a outras pessoas doenças causadas pela radioatividade”. Além disso, mesmo passando por inspeções para detectar a presença de radiação, as fazendas da região têm dificuldades em vender os seus produtos dentro e fora do país. China, Hong Kong, Macau e Coréia do Sul ainda proíbem a importação de alimentos dos arredores de Fukushima.

Diferente de Chernobyl, que liberou dez vezes mais material radioativo, Fukushima não registrou um aumento no número de pessoas com câncer ao longo da última década. No entanto, muitos especialistas alertam que a situação da população ainda é preocupante, visto que os níveis de contaminação permanecem altos e não se sabe o que pode causar a exposição a longo prazo. O governo e a Companhia de Energia Elétrica de Tóquio são criticados por não financiar estudos sobre o impacto da tragédia na saúde dos moradores, visto que os resultados poderiam ser politicamente inconvenientes para eles. Como o Japão se comprometeu em alcançar a neutralidade das emissões de carbono até 2050, com o objetivo de conter o aquecimento global, o uso da energia nuclear voltou a estar em discussão.

Japão não desistiu da energia nuclear

Antes do desastre de Fukushima, existiam 54 reatores ativos no Japão. Atualmente, existem 33 reatores, mas apenas 9 tem autorização para reiniciar sob os padrões de segurança pós-Fukushima e 4 estão de fato operando. Juntos, os reatores em funcionamento são capazes de suprir 6% das necessidades energéticas do país. Uma pesquisa feita pelo jornal local Ashi em fevereiro deste ano indicou que 53% da população em geral é contra reiniciar os reatores, enquanto 32% são a favor. Analisando os dados de Fukushima especificamente, o número de favoráveis cai para 16%. Um dos principais argumentos em defesa da energia nuclear é que ela é fundamental para que o Japão, escasso em recursos naturais, deixe de emitir carbono na atmosfera. Já os críticos apontam que, além de ser custosa, essa fonte de energia representa um desafio em relação à segurança e ao armazenamento de lixo nuclear.