JP Descomplica EUA x Irã: Pode acontecer uma Terceira Guerra Mundial?

  • Por Camila Corsini, Carolina Fortes e Giullia Chechia
  • 11/01/2020 10h58 - Atualizado em 11/01/2020 11h35
EFEFuneral de Soleimani durou quatro dias e reuniu milhares de pessoas

Irã e Estados Unidos vivem um intenso conflito desde o dia 2 de novembro, quando o comandante da Força Quds, divisão de elite da Guarda Revolucionária do Irã, Qassem Soleimani, foi morto em um ataque ordenado pelos EUA.

Como parte da retaliação pelo assassinato do general, na última quarta-feira (8), o Irã assumiu a autoria de um ataque a bases militares norte-americanas no Iraque. Ainda no mesmo dia, voltou a lançar foguetes em direção à Zona Verde, uma região próxima da Embaixada dos Estados Unidos em Bagdá.

Já nesta quinta-feira (9), o presidente dos EUA, Donald Trump, atribuiu ao país árabe a queda do avião da Ukranian Airlines em Teerã, capital do Irã, que causou a morte de 176 pessoas, entre elas 63 canadenses.

Até agora, Trump apenas impôs sanções econômicas ao Irã. Na noite de quinta, a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou uma lei com o objetivo de impedir que ele use a força militar do país, a menos que seja necessário para defender as tropas americanas ou que o Congresso autorize.

Perguntas e respostas

Quando começaram os conflitos entre os Estados Unidos e o Irã?

A tensão entre Washington e Teerã já dura quase 70 anos, quando em 1953 o então chefe de governo do Irã, Mohammed Mossadegh, foi derrubado, com a colaboração dos serviços secretos dos Estados Unidos e do Reino Unido. Nessa época, os conflitos eram mais focados na disputa pelo petróleo.

Segundo o jornalista e doutorando em Relações Internacionais José Antônio Lima, a grande hostilidade entre as duas potências começou em 1979, com o sequestro da embaixada dos Estados Unidos. Aquilo provocou um choque na política externa americana com o Oriente Médio, porque até então o Irã era o maior aliado dos norte-americanos na região.

Já a fase atual do conflito, de acordo com Lima, teve início com a Guerra ao Terror, campanha militar desencadeada pelos Estados Unidos no governo de George W. Bush em resposta aos ataques de 11 de setembro.

Em 2001, ocorreu a tentativa de derrubada do regime Talibã, no Afeganistão, que culminou em uma guerra que perdura até hoje. Em 2003, os EUA iniciaram um conflito no Iraque, que terminou em 2011 e causou a morte do então presidente iraquiano Saddam Hussein. Como o Irã é envolto por esses dois países, e foi classificado como um dos integrantes do Eixo do Mal por Bush, era esperado que fosse o próximo a ser atacado.

O jornalista explicou que, desde então, o Irã passou a ter uma postura de retaliação aos Estados Unidos. “O Irã passa a exercer uma postura ativa e assertiva de começar a responder os EUA. Não só isso, mas também adquirir capacidade retaliatória contra os Estados Unidos. Ou seja, se os EUA nos atacarem, vamos revidar. Atacando Washington e São Francisco? Não, porque não tem capacidade. Atacando as tropas americanas em outras partes do Oriente Médio, em Israel, Arábia Saudita. Quem vai sofrer são as tropas e os aliados dos EUA no Oriente Médio.”

Qual era a importância de Qassem Soleimani?

Qassem Soleimani era considerado o segundo homem mais poderoso do Irã. Ele não era somente uma figura ideológica como, por exemplo, o fundador da Al-Qaeda, Osama Bin Laden — morto em 2011 também pelos norte-americanos. Soleimani estava de fato no comando da política externa do Irã e era uma personalidade política popular tanto no seu país, quanto no resto do mundo.

O general participou da revolta que instaurou a teocracia xiita no Irã e também na guerra contra o Iraque. Desde então, criou uma fama de herói nacional no país.

Sheik Hussein, iraniano que mora no Brasil há sete anos, disse que uma personalidade ocidental com a representatividade parecida com a do comandante seria o guerrilheiro argentino Che Guevara. Nas palavras dele, devido à “resistência e causas de justiça”.

O funeral de Soleimani durou quatro dias e reuniu milhares de pessoas. Pelo menos 30 foram mortas e mais de 210 ficaram feridas após uma confusão.

Quais motivos levaram o presidente Donald Trump a atacar o Irã?

Renatho Costa, docente de relações internacionais na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), esclarece que, além dos antigos conflitos e motivações que se arrastam pela história, neste momento os EUA possuem interesses específicos: “Trump busca a reeleição e a tensão máxima construída entre seu país e o Irã é estratégica, uma vez que demonstra força e poder dentro do Oriente Médio”.

O iminente contra-ataque iraniano — investida limitada ao objetivo de demonstrar força frente aos EUA –, provocado pela morte de Qassem Soleimani e pela sensação de violação da soberania nacional, alicerçou os argumentos de Trump sobre a importância do “combate ao terrorismo” e o elevou alguns degraus na disputa pela presidência do país.

Quais foram as reações do Irã?

A primeira retaliação do Irã em resposta à morte de Qassem Soleimani aconteceu na madrugada de quarta-feira (8), quando o país árabe assumiu a autoria de um ataque a bases que abrigam americanos no Iraque.

Após o bombardeio, ainda na quarta, o Irã voltou a atacar os Estados Unidos com o lançamento de dois foguetes em direção à Zona Verde, uma região próxima à embaixada americana em Bagdá, capital do Iraque.

A represália do dia 8 pode ser apenas “a ponta do iceberg”, o primeiro atentado de muitos, já que o Conselho de Segurança do Irã cogitou pelo menos 13 cenários de vingança.

O que era o acordo nuclear que o Irã não vai mais cumprir e o que isso significa?

Em 2015, após quase 20 meses de negociações, o governo da República Islâmica e um grupo de potências internacionais liderado pelos Estados Unidos assinaram o acordo nuclear. Nele, o Irã se comprometeu a desenvolver seu programa nuclear só para fins comerciais, médicos e industriais, alinhados aos padrões internacionais de não proliferação de armas atômicas.

O pacto passou a ser aplicado de fato em janeiro de 2016, após a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) ter verificado que o programa nuclear iraniano tinha fins pacíficos.

No entanto, apesar de ter liderado o grupo de potências, o presidente Donald Trump resolveu deixar o acordo. Inicialmente, ele tentou mudar os termos e incluir também os programas de mísseis balísticos do Irã, o que não foi aceito por Teerã. Com isso, os EUA saíram do pacto e colocaram sanções econômicas sobre o país árabe.

De acordo com o jornalista e doutorando em Relações Internacionais José Antônio Lima, essa decisão desestabilizou a relação entre as potências. “A fase de conflitos entre os países que se intensificou em 2001 e 2003 poderia ter chegado ao fim em 2015 quando os EUA assinaram o acordo nuclear. Apesar de tanto a IAEA, quanto as potências europeias e a Agência de Inteligência americana terem confirmado que o Irã estava cumprindo o acordo, o Trump resolveu sair”, explicou.

No último domingo, depois da morte do comandante da Força Quds, Qassem Soleimani, o Irã anunciou que deixará de cumprir a última das limitações impostas ao programa nuclear. Segundo Lima, ao fazer isso, o país indica que no futuro pode tentar novamente desenvolver uma arma nuclear.

Entretanto, assegurou também que o Irã deixou as portas abertas para voltar ao pacto. “O Irã vai continuar sendo monitorado pela IAEA, e o governo disse que se os EUA retirarem as sanções e não tentarem incluir o programa de mísseis, ele volta para o acordo.”

Qual é a posição do Brasil neste conflito? Ele deve se envolver na guerra?

O Itamaraty expediu, na última sexta-feira (3), uma nota declarando apoio aos Estados Unidos. Logo após, o Irã convocou o diplomata brasileiro em Teerã, Rodrigo Azeredo, para prestar esclarecimentos.

Como ele está de férias, quem se apresentou foi Maria Cristina Lopes. O teor da conversa foi reservado, mas autoridades garantiram que ela transcorreu com cordialidade.

Nesta quinta-feira (9), o presidente Jair Bolsonaro afirmou que é “a favor da paz e contra o terrorismo”. No entanto, se limitou a dar mais opiniões sobre o conflito.

De acordo com o ex-embaixador brasileiro em Washington Rubens Barbosa, a nota do Itamaraty é coerente com a política externa seguida no primeiro ano do governo Bolsonaro. Porém, isso não significa que “esteja de acordo com os interesses permanentes do Brasil no contexto internacional”.

Ele ressaltou, ainda, que as novas sanções econômicas dos Estados Unidos contra Teerã, além das incertezas em relação ao acordo sobre o programa nuclear, podem afetar os interesses comerciais do Brasil, além do preço do petróleo. Nos últimos dias, foi sentido um aumento no valor dos combustíveis no País.

Barbosa disse, no entanto, que “o Brasil não tem poder, nem influência para interferir no conflito”. Por isso, a defesa do interesse nacional aconselha “não uma posição neutra, mas o acompanhamento atento dos acontecimentos, um claro posicionamento a favor da redução das tensões e contra uma guerra que não interessa a ninguém”.

“Não é de nosso interesse tomar partido de um lado ou de outro pelas consequências que nossa atitude poderá acarretar”, concluiu o ex-embaixador.

Pode acontecer uma Terceira Guerra Mundial?

O jornalista e doutorando em relações internacionais José Antônio Lima negou a possibilidade de uma Terceira Guerra, reiterando que nenhum país do mundo — fora o Brasil –, cogitou a nova batalha mundial. “China, Rússia, Japão e várias potências europeias precisariam se envolver para que existisse um confronto nos moldes anteriores, mas este cenário não foi posto sob nenhuma perspectiva”, explica.

Entretanto o contexto não exclui a probabilidade de grandes nações enfrentarem uma situação grave no ambiente internacional, caso a hostilidade entre EUA e Irã permaneça, já que um conflito militar entre os países alcançaria proporções gigantescas. “Quando falamos sobre o Irã precisamos ter em mente que estamos lidando com um um país grande, de população numerosa, economia estável e forças armadas preparadas, fatores que o permitiria estender a batalha por muito tempo.”

Para além do sistema global, as consequências abalariam sobretudo o Oriente Médio, que seria engolido por um conflito de dimensões nunca vistas antes — exceto na Segunda Guerra Mundial. Sendo assim, as tensões entre os países norte-americano e árabe dificilmente têm a capacidade de desencadear uma nova Guerra Mundial, mas podem facilmente desolar o Oriente Médio.

Quer conferir a reportagem em áudio? No episódio da semana do podcast JP Descomplica explicamos a cronologia dos conflitos entre Estados Unidos e Irã e respondemos se é possível mesmo acontecer uma Terceira Guerra Mundial. É só dar o play!