Governo turco critica charge de Charlie Hedbo satirizando Erdogan

A caricatura é uma resposta às recentes críticas que o presidente da Turquia fez às políticas antiterrorismo adotadas pelo governo francês nos últimos dias

  • Por Bárbara Ligero
  • 28/10/2020 11h18 - Atualizado em 28/10/2020 11h27
EFE/EPA/TURKISH PRESIDENT PRESS OFFICE HANDOUTErdogan afirmou que "sequer olharia" a mais recente capa da Charlie Hebdo, mas seu gabinete prometeu resposta

A publicação de uma charge do presidente turco Recep Tayyip Erdogan na revista satírica francesa Charlie Hebdo marcou mais uma troca de farpas entre os dois países. Na capa da edição desta quarta-feira (28), a caricatura mostra o governante sentado em uma poltrona enquanto fala “o profeta” e levanta a roupa de uma mulher vestindo um véu islâmico. Na parte superior da imagem, lê-se “no privado, ele é muito divertido”. Nos últimos dias, Erdogan tem feito uma série de críticas sobre a maneira com que o presidente da França, Emmanuel Macron, está combatendo o terrorismo no país.

Erdogan afirmou que “sequer olharia” a mais recente capa da Charlie Hebdo e voltou a condenar as charges retratando Maomé que são publicadas pela revista. “Não preciso dizer nada sobre essas pessoas desonrosas que insultam meu profeta. Minha tristeza e ira não se devem ao atroz ataque contra mim, mas sim que o mesmo veículo é a fonte do ataque contra o profeta”, afirmou em um discurso. Para o islamismo, a representação ilustrativa de qualquer um dos profetas do Alcorão é considerada blasfêmia. Em 2015, um ataque à redação da publicação satírica deixou 12 mortos. Segundo a agência de notícias EFE, o governo da Turquia afirmou que “tomará todas as medidas legais e diplomáticas necessárias” em resposta à charge. “Nossa luta continuará até o fim, de uma forma saudável, mas decidida, diante dessas medidas maliciosas e insultantes”, completou o gabinete da presidência.

Depois que o professor Samuel Paty foi decapitado nos arredores de Paris por mostrar charges do profeta Maomé em sala de aula, o governo francês expulsou do país os estrangeiros que estavam sendo monitorados por sua radicalização islâmica, dissolveu grupos fundamentalistas e fechou uma mesquita. Na visão do presidente da Turquia, essa política é anti-islâmica e pode gerar uma opressão dos muçulmanos que vivem na França. No sábado (24), ele fez o seu primeiro ataque a Macron insinuando que ele precisava fazer um “exame de saúde mental”. Na segunda-feira (26), solicitou um boicote aos produtos de origem francesa e pediu que a União Europeia agisse para proteger os muçulmanos, que estariam “sujeitos a uma campanha de linchamento semelhante àquela contra os judeus na Europa antes da Segunda Guerra Mundial”. Em resposta, o embaixador francês na Turquia deixou o país.

A França passou por outros momentos de tensão nas últimas semanas. No dia 22, uma mulher de cerca de 50 anos ameaçou explodir a principal estação de trem de Lyon utilizando bombas que carregava em sua bolsa. Felizmente, a mulher foi detida e ninguém foi ferido. Nesta terça-feira (27), um alerta de bomba levou a polícia parisiense a evacuar toda a região ao redor do Arco do Triunfo, mas a situação foi normalizada depois a ameaça foi descartada. No mesmo dia, as cercanias da Torre Eiffel também foram esvaziadas porque havia sido encontrado um saco com munições de diferentes calibres.