Argentina: Guinada à direita do Legislativo deve ser entrave para o fim do mandato de Alberto Fernández

Eleições legislativas devem confirmar a insatisfação com o atual governo e marcar o início de um novo movimento político no país

  • Por Caroline Hardt e Júlia Vieira
  • 13/11/2021 10h00
EFE/Juan Ignacio RoncoroniAlberto Fernández foi eleito presidente da Argentina em 2019 após derrotar Maurício Macri

A Argentina realiza neste domingo, 14, suas eleições legislativas, quando serão escolhidos os 24 membros do Senado e 127 parlamentares da Câmara dos Deputados para mandatos de quatro anos. Entre os especialistas, a previsão é de que o pleito repita o resultado das prévias de setembro, impondo uma derrota ao governo de Alberto Fernández e dando espaço para a ascensão de candidatos da direita e extrema-direita, como o liberal populista Javier Milei, que tem como inspiração o presidente Jair Bolsonaro. Mas o que de fato causou a crescente insatisfação dos argentinos com o governo atual? O professor adjunto de Política Internacional da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Paulo Velasco, explica que a incapacidade do presidente Alberto Fernández de amenizar os sintomas da crise econômica em dois anos de mandato está entre os principais fatores de descontentamento dos argentinos com o Poder Executivo. “A população se sente desapontada pelo fato de mais de uma vez um presidente ter sido eleito prometendo soluções variadas para a crise e, com o passar do tempo, isso não acontecer.”

Regiane Nitsch Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo e ​coordenadora do Observatório de Regionalismo, relembra que a crise econômica já castiga o povo argentino há duas décadas. “Se analisarmos o cenário doméstico, fica evidente que as dificuldades econômicas da Argentina, que já completam 20 anos, não acabaram. A gente não pode esquecer que faz 20 anos que a Argentina enfrenta o ‘corralito’ [interrupção da retirada de depósitos em contas correntes e poupanças] e a desvalorização da moeda. Ela nunca se recuperou”, pontua a docente. 

Além disso, os escândalos de corrupção e os desafios do combate à pandemia ajudaram a desgastar ainda mais a gestão do peronista. “A outra variável é o fato de componentes do governo terem sofrido um desgaste muito amplo junto à população por causa de algumas atitudes que contrariavam o que parecia ser um compromisso do combate à corrupção e que parecia ser também um compromisso no combate à pandemia. São variáveis que foram muito exploradas pela imprensa, inclusive por setores de oposição ao governo, que acabaram também impactando na imagem do governo junto à sociedade”, diz Velasco. Em fevereiro de 2021, o na época ministro da Saúde Ginés González García renunciou ao cargo após o escândalo de um esquema “fura-fila” da vacina por seus parentes e amigos ser denunciado pela imprensa. Em meio a polêmicas na Saúde, as medidas restritivas também incomodaram a população, que temia que a economia do país afundasse ainda mais.

Essa insatisfação culminou em uma série de protestos ao longo de 2021, com manifestantes indo às ruas contra o desemprego e em defesa de uma maior ajuda do governo à população. Esse sentimento de revolta se traduziu em um fiasco nas primárias legislativas, com a coligação governista conquistando apenas seis dos 24 distritos eleitorais, situação que levou à renúncia de cinco ministros, uma secretária e dois chefes de órgãos estatais e evidenciou a perda de apoio de Alberto Fernández. “Ele está vendo o seu partido perder assentos, perder o poder. Então o que eu estou prevendo é que com essas mudanças é muito fácil imaginar um desmantelamento, não do partido em si, mas da força do partido dentro do Congresso”, pontua Regiane.

O que esperar das eleições legislativas?

Nesse cenário de incertezas, crises e falta de apoio, especialistas vislumbram a ascensão da ala direitista argentina, que representa a insatisfação com a política e a retomada de valores mais conservadores, em um processo quase irreversível. Para o professor Paulo Velasco, já está certo que haverá uma redução no número de cadeiras da coalizão de governo “Frente de Todos” e um crescimento do “Juntos Pela Mudança”, liderado pelo ex-presidente centro-direitista Maurício Macri. A última pesquisa nacional da Management & Fit, divulgada pelo jornal local Clarín, aponta que o “Juntos Pela Mudança” tem 33,4% das intenções de voto. O grupo político governista, “Frente de Todos”, aparece em segundo lugar, com 23,2%.

A guinada à direita representa um fenômeno já conhecido na América Latina: o da alternância de poderes. “Sempre que o país vai mal do ponto de vista econômico, isso tende a favorecer o avanço dos grupos opositores mais destacados. Então se a direita está no poder e o país vai mal, a esquerda tende a ganhar. E vice-versa”, explica o professor da UERJ. “O grupo ligado ao Macri se tornou uma força política muito expressiva, fugindo um pouco da tradicional divisão entre os dois grandes grupos, a União Cívica Radical e o peronismo. Aí vem o ‘Juntos Pela Mudança’ com uma frente mais representativa, inclusive com alguns integrantes do radicalismo, tentando fazer frente ao atual governo”, afirma Velasco.

Para além do crescimento da centro-direita, as eleições legislativas devem colocar ênfase na chegada de uma extrema-direita na Argentina. O fenômeno é uma novidade no país, mas a onda conservadora já é uma velha conhecida de países desenvolvidos, como os Estados Unidos e nações europeias, e chegou na América Latina nos últimos anos, após mudanças presidenciais. Regiane Bressan cita como exemplo a influência do presidente Jair Bolsonaro no processo democrático argentino por defender temas comuns de outros direitistas. “As falas de Bolsonaro chegam claras na Argentina e existe uma parcela da população que está insatisfeita com a política e que acaba se identificando com esse tipo de discurso. A gente não pode esquecer que o Milei, candidato a deputado por Buenos Aires, também defende o uso de arma. Ele também tem o armamento da população como uma prerrogativa de campanha. É mais um símbolo que ele utiliza, assim como Bolsonaro utilizou ao longo do processo eleitoral”, acrescenta. 

Eleições 2023: reflexos e tendências

Novidade no pleito legislativo, Javier Milei deve ser uma peça importante para as eleições presidenciais de 2023. Considerado um fenômeno populista ligado à extrema-direita, o candidato se mostra como uma alternativa às frustrações da população com os tradicionais políticos que comandaram o país nas últimas décadas — de crise — e traz de volta o liberalismo e o conservadorismo ao centro da disputa eleitoral no país. “Argentina parece sucumbir ao poder de sedução do Milei, que é um cara que fala muito bem, que mobiliza muito bem as massas e que de alguma maneira diz aquilo que uma parcela da população quer ouvir. Inclusive no que tange à agenda mais conservadora”, completa Velasco. Com essa ascensão da extrema-direita e centro-direita, as perspectivas são de mudanças significativas nos próximos anos. “Se confirmando as expectativas de uma perda de cadeiras e de uma minoria parlamentar nas duas Casas, o Fernández praticamente vai ficar à deriva nesses dois anos de governo restantes, sem conseguir passar qualquer tipo de reforma mais aguda”, avalia o docente.

As dificuldades para aprovação de reformas devem evidenciar ainda mais o descompasso entre o presidente e a sua vice, Cristina Kirchner, que são de alas diferentes dentro do peronismo. “Enfrentando as dificuldades que eles estão enfrentando, fica fácil imaginar que de repente eles tenham visões muito diferentes do que está sendo feito e do que deve ser feito daqui em diante. Então a gente já percebe esse tipo de ruído”, diz Velasco. Para Bressan, no ritmo atual, fica evidente os ruídos que assolam o governo Fernández-Kirchner, situação que pode piorar nos próximos anos e facilitar uma vitória da direita. “A Argentina vai passar por anos difíceis, porque, com a menor governabilidade, Alberto Fernández vai ter que fazer mais arranjos e deve ter dificuldade de implementar medidas, de seguir com os planos para esses dois anos finais de governo”, analisa a professora. “A não ser que o governo consiga driblar essa derrota que ele deve ter nas eleições legislativas, com a vitória da bancada ultra-conservadora, e consiga driblar e recuperar a economia, fica muito fácil de imaginar a vitória de um candidato de extrema-direita nas eleições de 2023.”