Mais de 6 mil pessoas são levadas de volta ao Marrocos após crise migratória em Ceuta

As devoluções em massa estão causando um distúrbio na cidade marroquina de Fnideq, que agora precisa gerenciar uma multidão de pessoas desabrigadas em meio à pandemia do novo coronavírus

  • Por Jovem Pan
  • 21/05/2021 12h54 - Atualizado em 21/05/2021 16h13
EFE/ Mohamed SialiA crise migratória está relacionada a um problema diplomático entre o Marrocos e a Espanha

Os enclaves espanhóis de Ceuta e Melila, que constituem as únicas fronteiras terrestres entre a União Europeia e a África, receberam um número recorde de oito mil migrantes vindos do Marrocos ao longo dessa semana. A maioria dessas pessoas cruzou a fronteira entres as cidades de Fnideq e Ceuta, onde as autoridades ainda trabalham para o retorno à normalidade. De acordo com a Espanha, 6,5 mil já foram devolvidos ao território marroquino até essa sexta-feira, 21, embora mais de 800 menores de idade ainda estejam em Ceuta fazendo testes de Covid-19 e exames para comprovar a sua faixa etária. Eles receberão alojamento e alimentação em centros infantis enquanto aguardam os resultados dos esforços de reunião familiar.

Na quinta-feira, 20, o enclave disponibilizou um número de telefone para as famílias marroquinas que procuram pelas crianças e adolescentes. A medida foi lançada pelo governo espanhol depois que vários pais disseram nas redes sociais que os seus filhos fizeram a travessia sem o seu consentimento. A agência de notícias espanhola EFE afirma que alguns menores foram convencidos a fazer a viagem porque lhes disseram que eles poderiam assistir a jogos de futebol com craques como Lionel Messi e Cristiano Ronaldo quando chegassem à Espanha. Enquanto isso, a devolução de mais de seis mil migrantes ao Marrocos está causando dificuldades para a cidade de Fnideq, que está tendo que gerenciar uma multidão de pessoas desabrigadas em meio à pandemia do novo coronavírus. Voluntários estão distribuindo comida aos migrantes, que passam as noites em parques e mesquitas.

A crise migratória provocou outras cenas dramáticas nos últimos dias. A imagem de uma voluntária da Cruz Vermelha confortando um imigrante senegalês na praia de Ceuta viralizou nas redes sociais, assim como as tristes fotos de um guarda civil espanhol resgatando um bebê do mar congelante na terça-feira, 18. Também chamou atenção do mundo o vídeo publicado pelo jornal britânico The Telegraph de um adolescente utilizando garrafas plásticas para fazer a travessia a nado. Na quinta-feira, 20, membros da Guarda Civil da Espanha resgataram o corpo de um migrante nas águas da praia de Tarajal, em Ceuta. Este é o segundo corpo recuperado esta semana, depois que um marroquino se afogou na última segunda-feira, 17, enquanto tentava nadar até a cidade espanhola. Embora o fluxo de pessoas entre a fronteira de Fnideq e Ceuta já tenha sido interrompido, alguns migrantes vindos do Marrocos continuam tentando entrar na Espanha, agora pelo enclave de Melila. Segundo a EFE, só nesta sexta-feira, 21, centenas de pessoas tentaram ultrapassar as barreiras na região, sendo que 30 homens adultos conseguiram. Ainda não se sabe qual o paradeiro desses indivíduos.

Crise diplomática

Sempre existiu um movimento migratório irregular na região entre o Marrocos e os enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla, já que muitas pessoas veem nessas fronteiras terrestres uma oportunidade de buscar uma vida melhor na Europa. No entanto, o governo marroquino está sendo acusado de ter afrouxado o controle do seu lado da fronteira em retaliação a uma decisão do governo espanhol, que ofereceu atendimento hospitalar a Brahim Ghali. O homem em questão é líder da Frente Polisário, movimento apoiado pela Argélia que busca independência da Saara Ocidental, território autônomo rico em recursos minerais que é disputado pelo Marrocos. O Ministério da Defesa da Espanha acusou o país africano de ter cometido dessa forma uma “agressão” e uma “chantagem”. “Não é apenas uma agressão às fronteiras espanholas, mas às fronteiras da União Europeia. Marrocos pôs a vida de menores em risco. Não vamos aceitar nenhum tipo de chantagem. A integridade da Espanha não é negociável, nem está em jogo”, afirmou a ministra Margarita Robles.

Por outro lado, a embaixadora do Marrocos na Espanha, Karima Benyaich, afirmou que o governo espanhol “optou infelizmente pela falta de transparência para agir pelas costas do Marrocos, acolhendo e protegendo este criminoso e carrasco, utilizando razões humanitárias como pretexto e ofendendo assim a dignidade do povo marroquino”. Benyaich também advertiu nesta sexta-feira, 21, que se o governo espanhol optar por retirar Brahim Ghali do país “com pouca transparência”, da mesma forma que entrou, “está escolhendo pela estagnação e pelo agravamento das relações bilaterais”. Segundo ela, esse será outro teste para saber se a Espanha “opta por reforçar suas relações com o Marrocos ou prefere colaborar com seus inimigos”.